Angela Santos
Currículo
Obras
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DO PERCURSO
CRIATIVO
Uma
sólida formação de desenho, existencial, perceptivo.
Uma grande influência dos expressionistas abstratos, provavelmente
devido à proximidade com os Estados Unidos durante a formação acadêmica.
A pesquisa de materiais como uma constante: pintura sobre
papel, sobre cartão, sobre tecido, sobre lençol, sobre madeira,
sobre cimento, sobre parede.
Os afrescos/murais ocupando os espaços atuais. Objetos restos/refugos
se transformando em peças estéticas de espaços museológicos.
Os lixos das marmorarias, das lojas de paisagismo e arquitetura,
dos retornos na estrada; o resto se transformando, mesclando
elementos, juntando peças. Como um quebra-cabeça ampliado onde pintura,
desenho, decoração, escultura, objeto, tudo faz parte.
Angela Santos
O QUE
O TIGRE VÊ
Um
dos conceitos mais atraentes nas histórias de ficção científica
é o da porta de passagem; um lugar mágico, sempre em alguma situação
discreta, por onde se passa sem esforço a um outro universo.
Talvez
seja uma simplificação mas se a pintura figurativa trata o plano
do quadro como janela e a pintura abstrata o trata como espelho,
estas pinturas de Angela Santos o tratam como uma destas portas
de passagem. Escrevi, em outro contexto, que arte é tornar igual
para que o espectador possa passar de uma realidade a outra, mais
ou menos como uma eclusa de rio iguala temporariamente o nível da
água para que o barco suba ou desça.
Quando
o pintor figurativo coloca tinta sobre a tela está conscientemente
fabricando um mundo exterior, alheio a si próprio, relativístico,
fazendo-se de Deus. Flaubert é um escritor eminentemente figurativo
e quando diz que "um artista não deve aparecer em sua obra
mais do que Deus na natureza" é dessa exterioridade que está
falando. A pintura figurativa é sempre espécie de literatura e consiste
em contrastar figuras e fundo, em colocar personagens em contextos.
Por sua vez o pintor abstrato coloca tinta em um espelho; em uma
pintura abstrata o quadro tem a mesma quantidade de arte espalhada
por toda a superfície (ele é só contexto) e é sempre um auto-retrato
psíquico - que outra coisa poderia ser? Fazer este auto-retrato
(que às vezes é só um quadradinho preto no fundo branco) é invocar
sem intermediários o demônio da auto-interrogação. (Considerar que
cada uma destas atitudes tem ecos da outra não deve nos perturbar
- definições precisam de extremos). E a arte abstrata só interessa
enquanto for este paroxismo; se ela se tornar uma forma de design
será desprezível e sempre inferior ao design puro. É possível um
paroxismo do design; (veja-se imagerie nazista) mas a idéia
da arte já estará muito distante.
Não
sei com que grau de consciência Angela toma um terceiro caminho,
feito de partes, iguais de figuração e abstração; cada pintura é
uma janela e um espelho e ao mesmo tempo nenhum dos dois. Estas
manchas de tinta são um tigre mas não são um tigre; o que chamo
de abstração não é apenas fazer algo que não pareça uma fotografia.
Leonardo da Vinci no seu Tratado de Pintura aconselha: "Você
deve parar e contemplar as manchas nos muros, nas cinzas da lareira,
nas nuvens ou na água dos remansos; se as observar com atenção descobrirá
nelas invenções muito admiráveis".
O processo
é exemplar: da abstração à figuração, da escolha psíquica pessoal
à narrativa linear e social. A pintura sai do olho do pintor como
o facho de uma lanterna e ilumina o mundo para que todos vejam.
Mas o conceito de abstração aqui é mais complexo: escolher ao acaso
uma das infinitas imagens que hoje estão disponíveis (sempre estiveram
mas hoje isso é universalmente consciente) e usá-la como motivo
e pretexto. Não foi um tigre que Angela desenhou, foi um adesivo
comprado em uma banca de jornais. É uma imagem exatamente antípoda;
um papelzinho inofensivo representando o animal asiático; nada mais
alheio a tigres do que pintura. E no entanto esta doce humanidade,
que ao longo da história tantas vezes usou a fera como motivo de
belas pinturas levou o bicho feroz à quase extinção, o reduziu a
brinquedo de zoológico ou a adesivos coloridos.
Me
impressiona que as pinturas não tenham espaços vazios - tudo é tigre
- é uma pintura figurativa sem distinção entre fundo e figura. A
forma redonda é escolhida com sabedoria: um furo neste nosso universo
tão homogêneo, uma porta de passagem pede a simetria que um quadro
retangular não pode ter. A pressão é uniforme e os tondos
são como as escotilhas dos batiscafos ou beijos, poços, lentes de
aumento, coleiras, estruturas intrínsecamente circulares.
Há
um desenvolvimento que não foi levado às últimas conseqüências,
nas pinturas menores. Esta seqüência de vistas, tomadas antes todas
da mesma distância, adquire um caráter de zoom e não nos
olhos dos tigres como seria de se esperar mas na boca orlada de
dentes e na sugestão do tubo rosa e circular da traquéia até parar
no limiar de uma imagem perturbadoramente sexual. Espelhos e paroxismos
estariam à vista?
Se
tudo é tigre do lado de lá (dentro? onde é dentro? lá ou aqui?)
tudo é pintor/ olhador do lado de cá. É uma situação de proximidade
total entre os dois - a pintura figurativa pressupõe que o quadro
corresponda ao campo visual do pintor e aqui também ao do tigre,
famoso por sua acuidade visual. Estamos falando de arte e não de
religião e esta porta de passagem não é real; é uma ilusão/alusão
e contemplamos calmamente através da barreira uma visão que seria
mortal do lado cá. Aprendemos com estas pinturas que a imagem da
morte não será nem abstrata nem figurativa.
Nunca
saberemos porém o que o tigre vê; ele, em algumas pinturas, parece
alarmado.
L.P.
Baravelli
Maio - 1989
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