Delegado alerta sobre o consumo de drogas na Granja
Por: Layla Marques
Fotos: Layla Marques
Em uma tarde agradável de quarta-feira, o Dr. Alexandre Palermo, delegado titular do 2º DP de Cotia, na Granja Viana, função que exerce desde 2005, recebeu o
Site da Granja para uma entrevista exclusiva. Em seu currículo, coleciona passagens por várias unidades policiais (Delegacias de Poá, Ferraz de Vasconcelos, 25º, 83º e 35º DPs de São Paulo, Itapecerica da Serra. Embu, Cotia e 2º DP de Cotia), tendo atuado como plantonista, como diretor de cadeia (função que exerceu por 8 anos), como assistente e titular. Neste período, embora tenha participado de inúmeras operações, inclusive com incursão em locais de alto risco, considera que as situações de maior risco foram aquelas em que enfrentou rebeliões de presos.
Para este bate-papo, perguntamos como anda a situação das drogas no bairro. "A Granja Viana não é segura. Principalmente em razão da enorme quantidade de residenciais fechados e condomínios, cuja estrutura dificulta muito o policiamento ostensivo, facilitando a vida dos usuários. Já realizamos ações preventivas dentro de condomínios, e pudemos perceber a enorme resistência dos moradores em participar", alfineta.
Site da Granja: É cada vez mais frequente vermos jovens, adultos e até crianças envolvidas com drogas. Porém, o senso comum agrega esta problemática apenas aos bairros de classe baixa e que é da Polícia a responsabilidade de acabar com esta situação. O que acha disso?
Dr. Alexandre Palermo: Na verdade, o tráfico sempre existiu. Desde que ingressei na Polícia, há mais de 24 anos, acompanho essa mazela social, insolúvel com ações meramente repressivas. Não é a Polícia que vai solucionar este
problema. Todos os países sofrem, em maior ou menor grau, suas consequências e nenhum deles, até agora, conseguiu resolve-lo. As ações policiais são planejadas com base nas estatísticas criminais. O policiamento é realizado visando os locais de maior incidência criminal. Os pontos de maior risco são previamente mapeados, variando de acordo com o tipo de crime.
Site da Granja: E como anda a questão das drogas na Granja Viana?
Dr. Alexandre: A situação na Granja Viana, especificamente, não difere muito de outras regiões, principalmente considerando as grandes regiões metropolitanas como parâmetro. Aqui temos uma população variada, cuja situação econômica vai desde a pobreza, nas regiões de favelas, até os condomínios de altíssimo padrão, onde residem muitas famílias de nível socioeconômico alto. Como é sabido, a droga não escolhe a vítima. Assistimos, porém, hoje um grande crescimento na demanda, em todas as classes sociais.
Site da Granja: Então, nosso bairro não é seguro quando falamos de drogas?
Dr. Alexandre: Não, a Granja Viana não é segura. Principalmente em razão da enorme quantidade de residenciais fechados e condomínios, cuja estrutura dificulta muito o policiamento ostensivo, facilitando a vida dos usuários. O Dr. Içami Tiba, renomado especialista em dependência química e que, inclusive,reside na região, chama jocosamente os condomínios de "paraísos das drogas". De fato, já realizamos ações preventivas dentro de condomínios e pudemos perceber a enorme resistência dos moradores em participar, os quais, comodamente, adotam postura evasiva, negando o problema.
Site da Granja: Se as pessoas daqui são resistentes, como conscientizá-las?
Dr. Alexandre: Temos desenvolvido, através do Conselho Municipal Antidrogas de Cotia (COMAD), trabalhos de caráter preventivo, através de cursos direcionados a educadores, líderes religiosos, famílias e estudantes. A Guarda Civil de Cotia possui, também, excelente equipe que desenvolve o Projeto
Educando há alguns anos, onde Guardas Civis ministram, no decorrer de um semestre letivo, aulas especiais para alunos que estão cursando o 5º ano do ensino fundamental. Semelhante a este, a Polícia Militar aplica o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas). Mas ainda há muito a ser feito.
Site da Granja: Pegando este gancho, Dr., a população de Cotia cresceu, mas a infraestrutura da Polícia acompanhou esta evolução?
Dr. Alexandre: Cotia tem, hoje, pouco mais de 200 mil habitantes, com orçamento público aprovado em 2011 de R$ 425 milhões. É, sem dúvida, uma grande e importante cidade da Região Metropolitana de São Paulo, que vem
crescendo em ritmo acelerado. Porém, os recursos na área de Segurança
Pública não conseguem acompanhar esse crescimento. Apesar disso, temos
conseguido manter, e em alguns casos diminuir, os índices de criminalidade.
Site da Granja: Diminui a criminalidade prendendo os traficantes?
Dr. Alexandre: As prisões não têm sido numerosas. É bastante difícil, apesar de o senso comum nos induzir a pensar o contrário, prender um traficante em flagrante delito. A droga, normalmente, é distribuída por mini e microtraficantes, que se utilizam de estratégias para driblar a atuação da Polícia. Eles, via de regra, escondem pequenas porções em buracos nos muros, em galhos de árvores, enterrados em montes de areia na calçada e outros locais de fácil acesso. Permanecem à distância, nos pontos de venda, conhecidos por "bocas"ou "biqueiras". Quando o consumidor chega, ele recebe a quantia respectiva e aponta o local onde a droga está. Após a saída do usuário, ele esconde o dinheiro e repõe a porção de droga. Dessa forma, quando abordado pela Polícia, nunca está portando a droga, dinheiro ou qualquer coisa que seja indício da prática criminosa. Além disso, os pontos de venda são situados em locais que proporcionam fácil visualização, por parte do traficante e seus comparsas, da aproximação da Polícia, além de, normalmente, serem dotados de rotas de fuga rápida.
Site da Granja: E quando preso, como é o sistema prisional de nossa região?
Dr. Alexandre: Falido. Não há outra palavra para definir o sistema prisional brasileiro. Apesar dos esforços das últimas gestões estaduais, principalmente do Governador Alkimin, que construiu inúmeras unidades prisionais e criou os Centros de Detenção Provisória (CDPs), ainda há um déficit enorme de vagas, as cadeias estão em péssimo estado, têm poucos funcionários e raros são os trabalhos efetivos de ressocialização realizados. Em nossa cidade, os menores ficam
recolhidos em uma cela precária situada nas dependências da sede da Guarda Civil de Cotia, à disposição da Vara da Infância e Juventude. Os maiores permanecem, inicialmente, na Cadeia de Cotia, de onde são remanejados para um dos CDPs da região (Osasco ou Itapecericada Serra). Após a condenação, havendo vaga, vão para uma das penitenciárias do interior paulista.
Site da Granja: Dr., e quanto às casas de recuperação para dependentes químicos, o que temos em Cotia e na Granja Viana?
Dr. Alexandre: A Secretaria da Saúde de Cotia deu início, há pouco tempo, à atuação do CAPS-ad, um trabalho de cadastramento dessas instituições, com o objetivo de conhecer seu funcionamento e capacidade, dar orientações específicas para suprir suas deficiências, capacitar seus gestores e funcionários e iniciar um trabalho de fiscalização. Pelos dados preliminares acreditamos que existam cerca de 20 instituições no Município, havendo apenas uma clínica privada de tratamento na área da Granja Viana.
Site da Granja: Há pouco o Dr. comentou sobre o COMAD, Conselho Municipal Antidogras. Como ele surgiu e como funciona?
Dr. Alexandre: O COMAD foi criado, por Lei Municipal, em 2005, sendo instalado apenas em 2006, graças à união de várias pessoas preocupadas com a questão da dependência química. Os conselhos municipais fazem parte de um sistema maior, o Sistema Nacional de Políticas Públicas Sobre Drogas, coordenado pelo Governo Federal. Nesse período de atuação, tem o Comad procurado desenvolver, através de parcerias, as atividades, mas com grande dificuldade, em virtude da carência de recursos materiais.
Site da Granja: Quais ações têm sido realizadas pelo COMAD e quais osprojetos para 2012?
Dr. Alexandre: O Comad já desenvolveu e aplicou inúmeros cursos, todos gratuitos, capacitando centenas de educadores, centenas de líderes religiosos e milhares de pessoas. Temos, como projeto, a ideia de realizar um estudo bastante abrangente envolvendo pré-adolescentes e adolescentes, para entender melhor os mecanismos de disseminação, causas e consequências do abuso em nossa Cidade, porém tudo isso depende de recursos.
Site da Granja: Vocês precisam de algum apoio público ou privado? Como a sociedade pode contribuir?
Dr. Alexandre: Desde sua criação, o Comad vem tentando, junto à Prefeitura de Cotia, criar o Fundo Municipal Antidrogas, para captação de recursos estaduais, federais e privados, além dos eventualmente disponibilizados pelo Município. Entretanto, até o momento, as ações nesse sentido foram infrutíferas.
Site da Granja: O que espera para 2012? Quais são seus projetos para minimizar o índice de usuários e traficantes?
Dr. Alexandre: Pretendemos continuar com nosso trabalho preventivo, tentando sempre sensibilizar o Poder Público. Essa é uma questão que somente pode ser tratada adequadamente quando há interesse político, pois depende de
ações multidisciplinares integradas e conjugadas, de normatização e regulamentação específica, de projetos e recursos públicos. Nós, ou qualquer outra organização não governamental, sozinhos, pouco podemos fazer. Mas esse pouco já faz alguma diferença.
Site da Granja: Que mensagem o Dr. daria aos jovens e pais para contribuir na prevenção do uso e expansão das drogas?
Dr. Alexandre: Educação. Não estou falando da "educação" formal, nas escolas. Estou falando da educação dos impulsos, educação dos valores, educação dos princípios éticos. Do aprendizado do Respeito. Do cultivo da responsabilidade, da dignidade, do altruísmo, da caridade.
Site da Granja: Pensa em algum momento, Dr., em entrar para a Política?
Dr. Alexandre: Já fui convidado algumas vezes para me filiar a partidos políticos, com vistas a candidaturas. Mas, sinceramente, não me sinto vocacionado para isso. Já tenho um cargo público com suficiente gama de problemas a resolver e, apesar de não ser determinista, também não acredito no acaso. Penso na atividade policial como uma missão importante a ser cumprida, e não pretendo enveredar pelo caminho da política.