04/11/2026
Mauricio Orth
Se faltassem água, energia elétrica e comunicação por três dias, sua casa estaria preparada? A pergunta está no centro de uma campanha lançada pelo governo britânico em 22 de outubro de 2026.
A iniciativa Be Ready (“Esteja preparado”) recomenda que as famílias mantenham uma reserva de água potável, alimentos não perecíveis, medicamentos de uso contínuo, lanterna, pilhas, rádio, carregador portátil e dinheiro em espécie.
A orientação é montar os suprimentos gradualmente, sem compras por impulso ou estoques excessivos. A proposta não é substituir os serviços públicos, mas reduzir a dependência imediata da estrutura de emergência nos primeiros dias de uma crise.
Ameaças que vão além do clima
Ataques cibernéticos a sistemas de refrigeração de supermercados europeus mostraram como uma ameaça digital também pode provocar consequências concretas. Invasores alteraram remotamente controles de temperatura de geladeiras e câmaras frigoríficas, colocando estoques de alimentos em risco.
Já agora, em novembro, três câmaras refrigeradas utilizadas por fornecedores do serviço público francês de sangue também foram afetadas. Sistemas de alarme identificaram as alterações e permitiram uma intervenção antes que os produtos fossem comprometidos. Não houve perda de sangue nem interrupção dos atendimentos.
Os episódios mostram que uma emergência pode começar de diferentes maneiras: uma tempestade pode interromper o fornecimento de energia, uma enchente pode comprometer o abastecimento e um ataque digital pode afetar equipamentos essenciais. A capacidade de antecipar riscos e manter serviços funcionando é importante em todos esses cenários.
Nem todos conseguem se proteger da mesma maneira
A capacidade de enfrentar uma emergência também depende da condição econômica e do lugar onde se vive. Quem tem mais recursos pode escolher imóveis em terrenos mais altos, longe de áreas sujeitas a alagamentos e deslizamentos, e em bairros com melhor infraestrutura. Famílias de baixa renda, muitas vezes, acabam ocupando áreas mais expostas porque são as moradias que conseguem pagar.
A desigualdade continua depois do desastre: quem tem dinheiro pode contratar seguros, deixar temporariamente uma área de risco e reconstruir a casa. Para quem tem menos recursos, a recuperação pode levar anos.
Relatório publicado pela Oxfam em 27 de outubro, intitulado 'Disaster Divide' (A divisão dos desastres), aponta que os 0,1% mais ricos do planeta emitem mais gases de efeito estufa do que os 3,5 bilhões mais pobres, cerca de 42% da população mundial.
É uma contradição da crise climática: quem mais contribui para o aquecimento global costuma ter mais condições de se proteger de seus efeitos, enquanto os mais pobres, que menos emitem, acabam pagando uma conta desproporcional.
Essa desigualdade precisa ser considerada também no planejamento das cidades. Em uma emergência, a proteção deve começar por quem está mais exposto e tem menos condições de se recuperar.
Cotia: o que acontece quando a emergência chega?
Em Cotia, a preparação para situações extremas ganhou um instrumento importante em setembro de 2026, com a publicação do Plano Municipal de Contingência (Plancon).
O documento organiza como a Prefeitura deve atuar antes, durante e depois de emergências. Prevê a participação das secretarias municipais, da Defesa Civil, de concessionárias de serviços essenciais, de instituições parceiras e da comunidade.
Entre as ocorrências previstas estão inundações, alagamentos, enxurradas, deslizamentos, quedas de árvores, vendavais, tempestades, estiagens, incêndios em vegetação e acidentes tecnológicos.
O plano também considera características do território que ampliam a exposição a riscos, como o relevo de morros, colinas, vales e encostas, a extensa rede de rios e córregos, a ocupação de áreas sujeitas a inundações e problemas de drenagem.
Abrigos, equipes e responsabilidades
Um dos pontos relevantes do Plancon é a identificação de cinco locais de apoio e abrigo para a população atingida:
• Salão Comunitário do Jardim Santa Maria, no km 21;
• Ginásio Municipal de Esportes Ayrton Senna, no Parque Bahia;
• Escola Municipal Jardim Panorama;
• CEUC Prefeito Carmelino Pires de Oliveira, em Caucaia do Alto;
• Centro Educacional Antônio Mansur, no Parque Monjolo.
O documento distribui responsabilidades entre setores da administração. Desenvolvimento Social deve atuar no acolhimento; o Fundo Social, no apoio humanitário e na gestão de donativos; a Saúde, no atendimento à população; e a Comunicação, na divulgação de alertas e orientações.
Sabesp, Enel e Corpo de Bombeiros também aparecem na estrutura de articulação. A continuidade do abastecimento de água, energia, telecomunicações e dos serviços de saúde é tratada como prioridade.
O Plancon informa que a Defesa Civil conta com 21 agentes em regime de plantão 24 horas, além de 11 agentes ou servidores em horário administrativo.
A existência de locais identificados e responsabilidades distribuídas representa um avanço na organização da resposta municipal. Há que se avaliar se toda a estrutura está equipada para atender a população em qualquer situação. A capacidade dos abrigos, a disponibilidade de água, alimentos e medicamentos, a autonomia diante de interrupções prolongadas de energia e a realização de simulações são aspectos importantes para avaliar a preparação na prática.
Prevenção e mapeamento de riscos
Entre as ações preventivas divulgadas pela Prefeitura está o desassoreamento de mais de 30 rios e córregos em 2026, incluindo trechos do Rio Cotia e dos córregos Vista Alegre e dos Mendes.
A retirada de sedimentos pode melhorar o escoamento da água, mas não resolve isoladamente problemas como impermeabilização do solo, ocupação de várzeas e deficiência da rede de drenagem.
Como vimos, em setembro, Cotia registrou aproximadamente 166 milímetros de chuva em 72 horas. A Defesa Civil contabilizou cerca de 55 ocorrências relacionadas ao mau tempo no período.
Outro instrumento em elaboração é o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), que deverá identificar áreas vulneráveis e orientar intervenções. Entre as regiões apontadas como prioritárias estão Mirizola, Água Espraiada, Jardim Panorama e Comunidade do Cristo.
O estudo está sendo desenvolvido em parceria com a empresa RHAMA Analysis. O prazo contratual de conclusão é fevereiro de 2027, mas a Prefeitura manifestou expectativa de antecipar a entrega para dezembro de 2026. Depois dos estudos, está prevista uma audiência pública.
A proteção precisa chegar a quem mais precisa
Cotia já dispõe de um plano que organiza a resposta a emergências e está desenvolvendo estudos para identificar áreas de risco. O desafio agora é transformar o planejamento em capacidade efetiva de proteção.
Nem todas as famílias conseguem manter suprimentos em casa, deixar uma área de risco ou reconstruir uma residência depois de um desastre. Para essas pessoas, a preparação depende ainda mais da capacidade do poder público de antecipar problemas e oferecer proteção.
Manter água e alimentos em casa pode ajudar uma família a atravessar uma interrupção temporária. Mas a segurança coletiva depende de cidades capazes de antecipar riscos, coordenar respostas e proteger prioritariamente quem tem menos condições de enfrentar uma emergência.
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