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A virada de Lula: o que mudou nas urnas e o que a eleição revela em Cotia

26/10/2026


Mauricio Orth


Queda da abstenção, mobilização local, controvérsia sobre o horário de votação e reação do mercado ajudam a dimensionar a disputa

Cotia também virou e os números mostram a dimensão da mudança. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula (PT) no município: 65.331 votos contra 58.394. No segundo, Lula chegou a 76.363, enquanto Flávio somou 72.794. A diferença, que era de 6.937 votos a favor de Flávio, passou a 3.569 a favor de Lula: uma mudança de 10.506 votos na margem entre os dois candidatos.

A virada local acompanha uma mudança nacional. Lula venceu com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (59.826.041) — uma diferença de pouco mais de 4,43 milhões de votos. Levantamentos publicados nesta segunda-feira indicam que Lula reverteu o resultado em 32 cidades paulistas onde Flávio havia ficado à frente no primeiro turno. 

Em Cotia, a mobilização de rua teve papel importante para quem trabalhou pela campanha de Lula. O Vereador Silvio Cabral, um dos articuladores do movimento ‘Vira Voto Cotia’, descreve uma iniciativa organizada por moradores e apoiadores progressistas, com carreatas, pontos de conversa e ações de convencimento. 

“A gente coordenou, mas foi um movimento que só deu certo porque as pessoas de coração assumiram esse movimento”,

afirmou Cabral em áudio enviado à reportagem. 

A virada também aconteceu na região de Cotia

Cotia não foi um caso isolado na Grande São Paulo. Outras cidades da região Oeste também registraram viradas entre o primeiro e o segundo turno. Em Carapicuíba, Lula já havia vencido no primeiro turno e ampliou sua vantagem no segundo.

Na Grande São Paulo, Flávio havia vencido em 25 dos 39 municípios no primeiro turno. No segundo, Lula passou a vencer em 21 cidades, contra 18 de Flávio. A mudança de vencedor ocorreu em sete municípios da região: Cotia, Osasco, Jandira, Pirapora do Bom Jesus, Poá, Embu-Guaçu e Ribeirão Pires. 

Mais eleitores, menos votos brancos e nulos

A participação aumentou no segundo turno. Em Cotia, o comparecimento passou de 150.089 para 155.264 eleitores — 5.175 a mais. A abstenção caiu de 44.070 (cerca de 22,7% do eleitorado apto) para 38.872 (cerca de 20%). Também diminuíram os votos brancos, de 4.030 para 2.431, e os nulos, de 4.683 para 3.676.

No país, a abstenção foi de 19,22%, ante 21,08% no primeiro turno. Os votos brancos e nulos também recuaram. Os dados nacionais consolidados estão disponíveis aqui.

O horário da votação vira disputa

A controvérsia sobre o encerramento das urnas começou durante a tarde de domingo. Às 13h22, a campanha de Lula protocolou um pedido de extensão do horário, inicialmente relacionado à falta de ônibus em municípios da Bahia. Às 15h42, ampliou a solicitação para todo o país. O PL também apresentou um pedido às 15h50, mas restrito a 19 cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, alegando problemas causados por questões meteorológicas.

Às 16h22, a campanha de Lula solicitou ao STF a extensão do horário de votação em todo o país. Cristiano Zanin foi sorteado relator às 16h33. Segundo a coluna de Daniela Lima, no UOL, a decisão que prorrogou a votação até as 19h entrou formalmente no sistema às 16h57 e foi divulgada publicamente às 17h03, depois do horário habitual de encerramento das urnas.

A medida não reabriu seções que já haviam sido fechadas: segundo a orientação divulgada pelo gabinete de Zanin, a extensão valia para as seções que ainda estivessem abertas. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques conversou com Zanin e, ambos concordaram que a extensão do horário deveria valer apenas para as urnas que ainda não haviam sido fechadas. Kassio afirmou que a decisão judicial não comprometeu a eleição e que a Justiça Eleitoral conseguiu contornar os problemas técnicos.

A controvérsia ganhou dimensão política quando Flávio Bolsonaro afirmou que questionaria o resultado, alegando mudança de regras e prejuízo à fiscalização. A discussão sobre a sala de totalização também foi alvo de declarações do candidato; o TSE contestou a alegação de que fiscais do PL teriam sido retirados de uma sala-cofre, explicando que o espaço não é aberto à visitação, mas que a fiscalização foi feita normalmente pelos meios previstos.

O fato de a decisão ter sido divulgada depois das 17h e de a apuração ter sido temporariamente suspensa não significa, por si só, que a eleição possa ser anulada. Eventuais irregularidades podem ser questionadas judicialmente, mas a anulação depende da análise jurídica dos fatos, das provas e dos critérios legais aplicáveis. 

Quantos votos foram registrados após as 17h?

Um levantamento publicado por Patrícia Campos Mello, do Grupo Folha, com base nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificou 34.330 votos computados depois das 17h de domingo, equivalentes a cerca de 0,03% do total. 

Vitória nas urnas e pressão econômica

A reação do mercado financeiro nesta segunda-feira, 26/10, foi imediata. A Bolsa brasileira acionou o mecanismo de “circuit breaker” após o Ibovespa cair 10% em relação ao fechamento anterior, suspendendo as negociações por 30 minutos. Foi a primeira vez que o mecanismo foi acionado desde março de 2020, durante a pandemia. 

O movimento reflete as expectativas de investidores em relação à política econômica e às contas públicas, mas a oscilação de um único pregão não determina, sozinha, o desempenho futuro da economia. A discussão central para o próximo governo será como financiar suas prioridades, controlar a trajetória da dívida e construir apoio político para as medidas econômicas. O resultado eleitoral não elimina essas pressões; coloca a condução da política fiscal e a composição da base no Congresso entre as principais questões a serem gerenciadas.

Uma interrupção na onda conservadora latino-americana

A vitória de Lula também tem significado regional. Segundo a Associated Press, o resultado brasileiro interrompeu uma sequência de sete vitórias presidenciais consecutivas de candidatos conservadores na América Latina, registrada nos 18 meses anteriores. A eleição brasileira tinha peso especial nesse cenário: o país é a maior economia da região, e uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximaria o Brasil do grupo de governos de direita alinhados a Donald Trump.

O resultado interrompe essa sequência, mas governos conservadores continuam à frente de países importantes, e a influência política de Trump permanece um fator de disputa. Até o fechamento dessa matéria, Trump e o presidente argentino Javier Milei ainda não haviam se manifestado publicamente sobre a vitória de Lula. O silêncio contrastava com as mensagens de reconhecimento enviadas por outros líderes da região. No caso dos EUA, a Folha de S.Paulo informou que Trump teria adiado a publicação de um comunicado que já estava preparado, após Flávio Bolsonaro pedir a anulação do resultado.

Para Cotia, a virada oferece um retrato concreto de como uma eleição nacional também se decide em dinâmicas locais. Explicar integralmente por que isso aconteceu exige olhar para além da contagem. Como vc vê esse movimento?


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