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Atraso na duplicação da São Camilo na Fazendinha: quem ganha e quem perde?

29/10/2026


Mauricio Orth

29/10/2026 - 15h50_última edição - 19h06


Contrato com valor inicial de R$ 16,9 milhões acumula prorrogações e interrupções; TCE-SP apontou irregularidade por falhas de planejamento, enquanto moradores enfrentam novos transtornos.

A interdição parcial de um trecho em obras da Avenida São Camilo, em Carapicuíba, para reparos emergenciais após as chuvas, voltou a complicar a circulação na região. Com os desvios, moradores e motoristas enfrentam transtornos e congestionamentos, especialmente nos horários de pico.

180 em 1800 dias

Contratada em novembro de 2022, a obra tinha prazo inicial de até 180 dias para execução, contados a partir da Ordem de Serviço. Agora, em outubro de 2026, já se passaram quase quatro anos desde a assinatura do contrato — um período próximo de dez vezes o prazo original de execução. A intervenção acumula interrupções, prorrogações e questionamentos do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP).

Uma obra com sucessivas interrupções

O contrato nº 127/2022 foi firmado entre a Prefeitura de Carapicuíba e a empresa Casamax Comercial e Serviços Ltda., com valor inicial de R$ 16.890.512,08. A obra contou com financiamento municipal e estadual e previa a duplicação de aproximadamente 520 metros da Avenida São Camilo, com implantação de uma nova pista de sete metros de largura, além de serviços de pavimentação e drenagem na Estrada da Fazendinha e construção de muros de contenção.

A execução enfrentou diferentes obstáculos, entre eles o remanejamento de postes da Enel, questões envolvendo a rede de abastecimento de água da Sabesp e desapropriações de áreas necessárias à realização do projeto. Esses problemas contribuíram para as interrupções e prorrogações do cronograma.

O histórico consultado pela reportagem registra pelo menos sete termos aditivos, envolvendo prorrogações de prazo e alterações contratuais. Até o fechamento desta reportagem, não foi possível consolidar o valor total atualizado do contrato nem o conjunto dos acréscimos e pagamentos realizados ao longo da execução.

Moradores relatam transtornos

Uma pessoa que mora nas proximidades e pediu para não ser identificada relatou que a obra provocou transtornos durante anos, incluindo poeira, lama e barulho. Segundo ela, houve noites em que os ruídos dos trabalhos se estenderam até as 2h da madrugada, bem como dias em que as atividades eram retomadas por volta das 6h.

Quase lá...

No período mais recente, a obra chegou a apresentar aparência de estar praticamente concluída. Ainda assim, novas intervenções foram realizadas, nos muros de contenção.

Em 20/10 2026, um trecho da Avenida São Camilo teve o trânsito parcialmente interditado para reparos emergenciais após a movimentação do muro de contenção.

Questionada pela reportagem, a Prefeitura informou que o problema foi provocado por um vazamento no registro conhecido como válvula ventosa, instalado na adutora de água da Sabesp, de 200 milímetros de diâmetro. Segundo a administração municipal, o vazamento gerou uma sobrecarga que provocou a movimentação do muro. A previsão informada é de que os reparos pontuais sejam concluídos em novembro.

A explicação confirma a relação entre o vazamento na rede de abastecimento e o problema no muro, que havia sido relatada informalmente à reportagem por uma fonte que conversou com um funcionário envolvido nos reparos.

TCE-SP apontou falhas de planejamento

Em julgamento realizado em 10 de junho de 2025, a Segunda Câmara do TCE-SP considerou irregular a licitação, o contrato e os três primeiros termos aditivos da obra.

Entre os problemas apontados estavam deficiências no projeto básico e insuficiências nos estudos e nas informações técnicas sobre o terreno, a drenagem, as estruturas de contenção e as interferências com redes e outras infraestruturas.

Para o Tribunal, as dificuldades que levaram à necessidade de prorrogar os trabalhos deveriam ter sido identificadas ainda na fase de planejamento.

A decisão aplicou multas de 300 UFESPs ao ex-prefeito Marco Aurélio dos Santos Neves e ao ex-secretário municipal de Desenvolvimento Urbano Marcos Galvão Whitaker Assumpção. A aplicação efetiva das multas depende do encerramento da tramitação dos recursos e da definição final do processo.

Foram apresentados recursos contra a decisão, mas a reportagem não conseguiu confirmar seu desfecho até o fechamento.

Desapropriação também na Justiça

Outro capítulo da obra envolve o imóvel do Armazém do Nicolau, que é objeto de duas disputas judiciais relacionadas à intervenção. Em um dos processos, a Prefeitura alegou que uma faixa de 44,26 metros quadrados era o último obstáculo à conclusão dos trabalhos.

Em decisão de maio de 2026, a Justiça autorizou a Prefeitura a tomar posse provisória dessa faixa, condicionando a medida ao depósito de R$ 52.613,63. Os proprietários, porém, argumentaram que a desapropriação parcial poderia comprometer a viabilidade econômica do estabelecimento. A área atingida envolve vagas de estacionamento utilizadas pelos clientes e o sistema de esgotamento sanitário do imóvel. Durante a discussão judicial, também está em questão se a intervenção exigiria o fechamento integral do estabelecimento.

A Prefeitura informou ainda que o prazo contratual da obra está suspenso devido ao remanejamento da rede da Sabesp em frente ao Armazém do Nicolau, no último trecho da intervenção. Segundo a administração municipal, a posição da tubulação impedia a abertura da caixa necessária à finalização da base e do pavimento.

O esclarecimento relaciona a interferência na rede de abastecimento a mais uma etapa pendente da obra. Somada às questões envolvendo a desapropriação, essa situação ajuda a explicar por que a conclusão do trecho final continua condicionada à solução de obstáculos que afetam o cronograma.

As respostas da prefeitura

A reportagem procurou a Prefeitura de Carapicuíba para saber quando os reparos emergenciais serão concluídos, quais serviços ainda estão pendentes e quais medidas estão sendo tomadas para evitar novas interrupções. Também perguntou sobre o prazo contratual vigente, o valor atualizado da obra após os aditivos e a situação da desapropriação da área do Armazém do Nicolau. A prefeitura respondeu através de nota, já inserida na matéria, editada após sua publicação.

Tempo é dinheiro?

Para um advogado que também mora na região e pediu anonimato, a duração da obra levanta dúvidas que vão além dos transtornos atuais. Ele chama a atenção para o tempo transcorrido desde 2022 e para os custos relacionados à permanência de equipamentos, pessoal e estruturas no canteiro. Por isso, considera necessário esclarecer como se deu a suplementação de recursos e quais pagamentos foram realizados ao longo da execução.

Na avaliação do morador, a falta de previsão adequada para problemas como as interferências nas redes de serviços públicos e os custos das desapropriações levanta questionamentos sobre como a obra foi planejada e conduzida. Ele sugere que situações que poderiam ter sido previstas acabaram sendo tratadas como emergenciais, abrindo espaço para mais tempo e portanto, dinheiro. Essa é uma suspeita levantada pelo entrevistado, não uma conclusão comprovada pela reportagem.

Com quase quatro anos desde a assinatura do contrato e um prazo original de execução de até 180 dias, permanecem perguntas essenciais: quanto a obra custará ao final? Os valores adicionais autorizados e pagos poderiam ter sido evitados? e quando os moradores poderão contar com a Avenida São Camilo em condições normais de circulação?


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