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Burnout: a armadilha de ser indispensável

24/06/2026


Mauricio Orth


A história de uma empresária da Granja e a análise de uma psicóloga revelam como características frequentemente associadas ao sucesso profissional podem se transformar em fatores de risco para a saúde.

"Eu tinha que ser a Mulher-Maravilha."

A frase é de Isabel Gandolfi, empresária e fonoaudióloga, e resume a forma como ela conduziu a própria vida durante anos. Proprietária de duas unidades do Centro Auditivo Estilo de Vida, mãe de dois filhos e muitas vezes responsável direta pelo atendimento de seus pacientes, ela se acostumou a assumir responsabilidades, resolver problemas e manter tudo funcionando ao mesmo tempo.

Até que o corpo impôs um limite

Após um período marcado por pressão profissional, preocupações financeiras, responsabilidades familiares e uma rotina sem pausas, Isabel enfrentou um grave quadro de esgotamento que a obrigou a interromper a rotina.

"Eu sempre fui aquela que joga a bola, bate no peito e cabeceia para o gol. Sempre achei que conseguiria dar conta de tudo."

O esgotamento que ganhou nome

Embora tenha ganhado enorme visibilidade nos últimos anos, especialmente após a pandemia, o burnout não é um conceito novo. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1974 pelo psicólogo norte-americano Herbert Freudenberger para descrever um estado de esgotamento observado em profissionais altamente dedicados ao trabalho. Em inglês, a expressão pode ser entendida como algo que "queimou até o fim" ou "consumiu todo o combustível disponível", uma metáfora que ajuda a explicar a sensação de exaustão física e emocional relatada por quem enfrenta a síndrome. Ao longo das décadas, o conceito foi sendo estudado e consolidado, até ganhar reconhecimento mundial como uma condição associada ao estresse crônico relacionado ao trabalho.

Quando ser forte se torna um risco

Ao relembrar sua trajetória, Isabel reconhece que sempre assumiu responsabilidades além do que seria razoável.

"Sempre achei que conseguiria dar conta de tudo."

A fala encontra eco na análise da psicóloga clínica Bruna Balan, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e que atua há 14 anos no atendimento de adultos com foco em ansiedade, burnout e esgotamento emocional.

Segundo ela, o excesso de responsabilidade e a dificuldade em delegar tarefas aparecem com frequência nos relatos de pessoas que chegam ao limite emocional.

"Quem resolve problemas costuma ser valorizado. A pessoa recebe reconhecimento por ser disponível, eficiente e responsável. Apesar de ser sedutor, esse lugar se torna perigoso, pois induz a pessoa a funcionar sempre acima do próprio limite."

A observação ajuda a compreender por que tanta gente demora a perceber que está adoecendo. Muitas das características associadas ao burnout são justamente aquelas que costumam ser admiradas no ambiente profissional: dedicação, comprometimento, capacidade de resolver problemas e disposição para assumir responsabilidades.

Quando o excesso vira virtude

Para Bruna, um dos maiores equívocos é acreditar que o burnout atinge apenas pessoas que não suportam pressão.

"Muitas pessoas associam o burnout à incapacidade de lidar com a pressão, mas acontece muitas vezes o contrário. O burnout atinge pessoas que lidam muito bem com a pressão, só que por tempo demais."

Antes do esgotamento, essas pessoas costumam ser vistas como produtivas, resilientes e confiáveis. São aquelas que assumem tarefas extras, resolvem crises e raramente dizem não.

"O problema começa quando ser responsável vira sinônimo de estar sempre disponível."

Os sinais que costumam ser ignorados

Hoje, olhando para trás, Isabel reconhece que alguns alertas já estavam presentes, embora não tenham sido interpretados como sinais de que algo estava errado.

"Eu sempre fui cheia de energia. Sempre toquei vários projetos ao mesmo tempo. Jamais pensei que isso pudesse me causar um problema de saúde."

Segundo Bruna, essa dificuldade de reconhecer os próprios limites é comum.

"Os sinais geralmente aparecem muito antes do colapso, mas as pessoas tendem a normalizar."

Alterações no sono, irritabilidade, dores constantes, dificuldade de concentração, desânimo e perda do prazer em atividades antes consideradas agradáveis estão entre os principais alertas.

Um dos sinais mais importantes, segundo a psicóloga, surge quando tudo passa a ser vivido como obrigação.

"A pessoa não perde apenas energia. Ela começa a perder a disponibilidade interna para a vida."

Tempo, tempo, tempo, tempo

Ao refletir sobre a própria trajetória, Isabel percebe que a conta do excesso de responsabilidades não foi cobrada apenas na saúde, mas também em tempo.  

"Eu gostaria de ter viajado mais com os meus filhos. Perdi muitos finais de semana trabalhando. Acho que esse burnout foi um chacoalhão para eu tentar seguir daqui para frente de uma maneira diferente."

Para Bruna, esse tipo de relato revela uma característica marcante da sociedade contemporânea. Em uma cultura que valoriza quem produz mais, responde mais rápido e está sempre disponível, pausas, descanso, silêncio e lazer ainda são vistos por muita gente como perda de tempo.

"O corpo e a mente não foram feitos para funcionar indefinidamente em estado de alerta. A cultura da produtividade contribui para o esgotamento porque transforma a disponibilidade permanente em uma virtude."

Antes do colapso

Atualmente, Isabel está em processo de reconstrução da rotina e afirma que ainda aprende a estabelecer prioridades e limites. A experiência também mudou sua forma de enxergar o trabalho e o sucesso.

"Nenhum CNPJ vale um AVC."

Para Bruna, a principal mensagem é que o cuidado não deve começar apenas quando a vida já saiu dos trilhos.

"A vida não precisa desabar para você merecer atenção."

Segundo a psicóloga, o sofrimento costuma dar sinais muito antes do colapso. O desafio é aprender a reconhecê-los antes que o preço seja alto demais.


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