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Diálogos do Morro Grande: memórias vivas de uma floresta

30/10/2025


Mauricio Orth Ana Alcantara


Entre as árvores da Reserva Florestal do Morro Grande, um terço da área de Cotia, um encontro revela mais do que lembranças — expõe a memória viva de um território que resiste entre o silêncio da mata e as pressões do asfalto.

Pelo Site da Granja, Ana Alcantara, jornalista e ecofeminista, uma das participantes do movimento que objetiva transformar a Vila Operária do DAE e Mauricio Orth,  jornalista, pesquisador e autor desse texto. Eles promovem um diálogo entre os amigos de longa data: Um é  Eduardo Luís Martins Catharino, engenheiro agrônomo pela USP,  mestre e doutor em Biologia Vegetal pela Unicamp, pesquisador científico do Instituto de Botânica e um dos principais estudiosos e apaixonado pela flora local. Já José Roberto Nali é antigo guardião da Reserva que por mais de 42 anos dentro da Sabesp atuou em sua defesa e conheceu intimamente cada um de seus caminhos. Esse encontro resulta em uma conversa sobre o Tempo, a Natureza e a cidade que se aproxima.

A entrevista flui como uma prosa entre amigos antigos é. As pausas, risadas e os lapsos de memória compõem uma oralidade que é, ao mesmo tempo, científica e afetiva. Cada história carrega um pedaço da floresta. A conversa se torna um registro da relação entre conhecimento técnico, experiência empírica e a paixão pelo lugar.

O guardião da floresta

“Eu saí daqui em janeiro de 2018”, lembra José Roberto Nali, com o tom de quem ainda sente o cheiro do mato. Foram décadas de convivência com o Morro Grande onde pode aplicar tudo aquilo que aprendeu com seu pai sobre árvores e natureza, em Pereiras, SP, onde passou a infância.

Ele viu a floresta mudar. Ainda assim, fala com ternura de cada rebroto: “A última vez que passei lá com o Ibama, me emocionei. Aquele bico que a gente plantou estava lindo. A bracatinga nasceu tudo de novo.”

Ao seu lado, Eduardo Catharino — pesquisador e referência no estudo da Mata Atlântica — escuta com atenção. Ele foi um dos responsáveis por registrar cientificamente a biodiversidade da região, em um trabalho monumental feito nos anos 2000. Sua fala complementa a do Nali com precisão técnica: “Ali não é cerradinho, não. Ali tem espécies de campo que só ocorrem ali, naquele pedacinho. É uma raridade.”

A conversa entre os dois revive trilhas, coletas e perrengues. Ana e Mauricio observam, intervindo apenas para organizar a memória, situar as datas, ou provocar novas histórias — como quando surge o tema do polo de ecoturismo que nunca saiu do papel.

“Eu participei desse processo”, conta Nali. “Eu gostava da ideia de ter uma base, a guarda ambiental. Ele previa também receber escolas, montar um pequeno museu. Por um tempo, o projeto parecia viável, até que mudanças políticas na Secretaria de Meio Ambiente interromperam tudo. Aí caiu na mão de pessoas que  foram desviando de foco e o projeto virou outra coisa: queriam até fazer um campo de golfe.” diz Nali. Catharino interrompe: “Campo de golfe dentro da Reserva? Tem tanta área fora…” O episódio, aparentemente pontual, ilustra a dificuldade de conciliar a conservação com os interesses econômicos e políticos que cercam a floresta. Nali arremata: “Não tem nada ecológico nisso. Depois que fizemos a recuperação, o que restou são formações arbustivas altas. Para colocar grama, teria que desmatar tudo.”

O silêncio que fala: fauna em declínio

Entre árvores antigas, a conversa se volta para os habitantes mais discretos da Reserva. A biodiversidade enfrenta hoje desafios dramáticos. A palmeirinha prateada, por exemplo, é um símbolo dessa crise. O fruto da palmeira — o litocário, ou “fruto-rocha” — é tão resistente que apenas algumas aves psitacídeas (araras e papagaios, de bico forte) e mamíferos como cutias e pacas conseguiam dispersar suas sementes, pois conseguem quebrar sua casca.

“Os psitacídeos estão minguando. A cutia e a paca também. A palmeirinha não tem mais dispersão”, explica Catharino. O cenário é crítico: sem dispersores, a planta entra em declínio. “Ela ainda está presente, mas não tem futuro”, acrescenta.

O assunto se expande para a fauna: antas, grandes marcadoras de trilhos pela mata: “Elas formam trilhos rebaixados na floresta. Por isso também são facilmente caçadas: dóceis, sempre no mesmo lugar”, lembra Catharino. 

A caça, presente por conta da baixa fiscalização, ainda é um problema. Jacus, pacas e cutias são os mais vulneráveis, enquanto felinos como jaguatiricas e gatos-do-mato circulam discretamente. Há relatos de onças-pardas, vistas e transformadas em memória viva de vigilantes improvisados, moradores e ciclistas que ajudam a proteger a área.

Entre ciência e memória

A Reserva também inspirou o trabalho de pesquisadores que documentaram e confirmaram o alto valor da floresta. A história da palmeirinha prateada é apenas um exemplo. Pela Sabesp, Nali, que sonhava e tentava organizar um museu, reunia estudos de campo e registros fotográficos, acumulados ao longo de décadas, em um acervo científico e histórico raro, incluindo painéis, herbários e boletins meteorológicos de 1920, carecendo de organização para se tornar um dos mais ricos testemunhos da história da água no Estado de São Paulo.

Nali explica: “Se a pessoa conhece a história, ajuda a preservar. Se não tem nenhum compromisso com a história, não respeita.” A relação entre memória, ciência e preservação é clara: a floresta se protege também pelo que lembramos dela.

Projetos, obstáculos e sonhos

Apesar dos desafios, há também esperança: a bracatinga, espécie nativa, sobrevive ao fogo e regenera rapidamente. E os registros de pesquisadores, fotografias antigas e memórias dos guardas ajudam a manter viva a história da Reserva. Todo um acervo aguardando sua vez para ser exibido e criar uma consciência socioambiental que valorize esse que é o maior tesouro de Cotia.

Catharino compartilha seu sonho: “Que a Reserva vire um parque estadual com visitação controlada. Que as pessoas possam conhecer esse patrimônio, fundamental para a biodiversidade regional, e compreender seu papel na história hídrica de São Paulo.”

A vila, a água, a floresta: preservação como legado

A Reserva vai além da floresta: Ela é também a vila operária que cresceu para que o sistema de captação de água de São Paulo fosse construído.

Catharino reforça: “Não se pode falar só da área natural. A vila e o sistema produtor fazem parte da preservação ambiental.” Ana lembra da frase que  Mauricio escreveu em uma de suas matérias: “Não há vila sem Reserva, nem Reserva sem vila.” 

A ideia é unir passado e presente, através da memória social e da conservação ambiental. Com apoio de pesquisadores, moradores e instituições, consolidar a Reserva como ponto de memória, educação ambiental e patrimônio cultural é regenerar seu significado para o futuro.

Entre pegadas de anta, frutos que não encontram dispersores e trilhas de pesquisadores, a Reserva vai se revelando um espaço onde natureza e história caminham lado a lado. E a preservação, mais do que um dever, é um legado que atravessa gerações — para que a floresta, a vila e a memória continuem a existir. Regeneradas.


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