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Nascentes, Boulos e a gênese de Imperiópolis

07/07/2026


Mauricio Orth


A inauguração do campus Cotia do Instituto Federal teve dois atos. Guilherme Boulos, representando o Governo federal, protagonizou ambos: Após a cerimônia, em reunião realizada a portas fechadas, uma nova etapa no reconhecimento de Imperiópolis como identidade territorial aconteceu. No dia seguinte, o governo federal já formalizava sua atuação no maior conflito fundiário de Cotia.

O segundo ato

Em uma sala reservada, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, reuniu representantes do governo federal, da Prefeitura de Cotia, parlamentares e lideranças da Associação Imperiópolis para discutir o conflito fundiário que antes chamávamos de “Parque das Nascentes”.

A reunião revelou uma mudança de perspectiva. Pela primeira vez, as áreas Nascentes, Mansur e Santa Mariana passaram a ser tratados conjuntamente em uma mesma mesa de negociação. Já no dia seguinte, a Secretaria-Geral da Presidência da República e o Ministério das Cidades protocolaram juntos ofício nos processos judiciais envolvendo as três áreas, recomendando a “suspensão dos atos de reintegração de posse e remoção forçada enquanto durarem os diálogos e tratativas voltados à construção de solução para problema social em questão.”

Política Nacional

Ao deixar a reunião, Boulos explicou ao Site da Granja que a atuação do governo federal em Cotia faz parte de uma política nacional:

"Nós criamos uma diretoria de mediação de conflitos fundiários para acompanhá-los no Brasil inteiro, na perspectiva do presidente Lula de evitar soluções violentas e buscar acordos que garantam moradia, urbanização e regularização fundiária." 

O nascimento de um nome

O nome “Imperiópolis” então, reúne três áreas distintas — Parque das Nascentes, áreas Mansur e Santa Mariana —, cada uma com processos judiciais próprios. Juntas, somam cerca de um milhão de metros quadrados e hoje abrigam algo entre 2,6 mil e 3,6 mil famílias, conforme as diferentes estimativas apresentadas durante as negociações.

Esses moradores organizaram uma associação e adotaram um nome único para se identificar. Antes da reunião, a vice-presidente da Associação Imperiópolis, Edna, resumiu o significado daquele momento para a comunidade.

" Essa é uma luta não só minha, é de todos. A gente está aqui hoje para agradecer o convite do Boulos, da esposa dele, a Natália, que já esteve lá presente com a gente, dando esse apoio para a gente." 

Como na antiga questão sobre o ovo e a galinha, o que vem primeiro: o lugar ou o nome? Há lugares que primeiro existem e depois recebem um nome. Outros parecem fazer o caminho inverso: é o nome que acaba organizando o lugar. Imperiópolis parece pertencer a essa segunda categoria.

Nos ofícios encaminhados pelo Governo federal, encontramos no texto "comunidade denominada Imperiópolis" e "núcleo Imperiópolis", tratando de forma integrada um território que, até então, era analisado separadamente. É a primeira vez que a União incorpora oficialmente essa denominação em sua atuação no conflito.

Três realidades, um território

O conflito que agora chega ao governo federal se arrasta há anos e já foi tema de sucessivas reportagens do Site da Granja. 

Parque das Nascentes, área pública destinada à compensação ambiental das obras do Rodoanel. investigações do GAECO sobre a presença do crime organizado no parcelamento irregular do solo, denúncias de desmatamento e ocupação irregular. O local é objeto de uma Ação Civil Pública movida pelo MP que discute, simultaneamente, a recuperação ambiental e a regularização fundiária. 

Área Mansur, imóvel particular que possui processo próprio de reintegração de posse. Segundo os participantes da reunião, a expectativa é que a solução passe por uma negociação entre os proprietários, a Prefeitura de Cotia e o governo federal.

Área Santa Mariana, também privada, onde existe ordem judicial de reintegração de posse. Foi justamente sobre essa área que o governo federal concentrou sua atuação imediata, solicitando a suspensão das demolições enquanto prosseguem os procedimentos de mediação.

Essa é a principal mudança produzida pela reunião de 03 de julho: sem alterar a situação jurídica de cada imóvel, ela passou a considerar Nascentes, Mansur e Santa Mariana como partes de um mesmo território social.

Quando o Estado entra em cena

Segundo o vereador Silvio Cabral, também presente, a reunião resultou em três encaminhamentos.

O primeiro deles foi cumprido imediatamente.

"Os ofícios nos processos já foram feitos, informando oficialmente que a União passará a participar da construção de soluções para o conflito fundiário.”

O segundo prevê uma reunião entre os representantes do governos federal e municipal, do poder legislativo e proprietários da área Mansur para buscar um acordo que permita futura urbanização e regularização fundiária.

O terceiro estabelece uma série de providências a cargo da Prefeitura de Cotia, entre elas o cadastramento socioeconômico das famílias, o congelamento das ocupações — impedindo novas construções — e a abertura do procedimento administrativo necessário para eventual Regularização Fundiária Urbana de Interesse Social (REURB-S).”

Silvio Cabral afirma que esse congelamento será decisivo para o avanço das negociações.

"Quem está, está. Quem não está, não entra mais." 

E o meio ambiente?

Na avaliação do vereador, a presença do poder público tende a produzir benefícios tanto para os moradores quanto para a preservação ambiental.

"Toda vez que você leva o Estado para algum núcleo, para algum lugar, as regras ficam mais claras e quem sai ganhando são as pessoas e o meio ambiente." 

E a prefeitura?

Segundo ele, "O prefeito se comprometeu com o ministro Guilherme Boulos a participar da resolução do problema." 

E os atuais moradores?

Também permanecem as preocupações dos moradores do entorno. Vale ressaltar que eles não estão representados nessa questão. O avanço das ocupações significou desmatamento, denúncias de tráfico de drogas, realização de pancadões e aumento da sensação de insegurança, que significam desvalorização do patrimônio.

"Parece que para quem faz certo tudo é lento, caro e difícil; para quem faz errado, tudo avança rápido."

Diz um morador que acompanha processo há décadas.

O desafio é conciliar interesses que, até aqui, caminharam em direções opostas: o direito à moradia, a proteção ambiental, a propriedade privada, a segurança pública e a qualidade de vida da população.

Imperiópolis ainda não existe nos mapas, mas já existe na linguagem, nos documentos e nas mesas de negociação que discutem o futuro da região.


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