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O espetáculo de dançar aos 65 anos

05/02/2026


Por Thereza Leopoldo e Silva


Dançar é múltiplo. É diverso. É uma das poucas artes capazes de reunir, em um mesmo espetáculo, um grande número de pessoas — cada uma delas absolutamente essencial para que o acontecimento exista. Há solos, pas de deux, trios, mas um espetáculo de dança pode reunir de uma a cem pessoas, todas compondo uma mesma obra.

O que tenho para contar aqui, como o título já anuncia, é a experiência de dançar em um espetáculo de dança aos 65 anos.

Danço desde os oito. Houve pausas — como acontece na vida — durante o nascimento dos filhos, mudanças de cidade, mudanças de ritmo. Mas a dança sempre esteve ali, como algo que não se perde, apenas adormece por um tempo.

Dançar aos 65 anos não é, para mim, algo estranho. Minha mãe, bailarina na juventude, continuou dançando até os 70. Um detalhe importante: ela precisou interromper a dança ao se casar, aos 24 anos, porque meu pai assim pediu. Mais tarde, depois do nascimento de seis filhos, aos 40, foi ela quem impôs sua vontade — desta vez colocando as quatro filhas para dançar na Escola Cisne Negro.


Minha mãe, Therezinha,  em um 
dos ensaios do Ballet Cisne Negro

Minha mãe passou então a integrar o espetáculo O Quebra-Nozes, apresentado todos os anos no Teatro Municipal de São Paulo, interpretando “a mãe da Clara”. Sua participação era construída, sobretudo, a partir de gestos, expressões e pequenas cenas solo, criadas especialmente para ela. Não relato isso como crítica — ao contrário. A Escola Cisne Negro e minha mãe estavam muito à frente de seu tempo, quando dançar aos 70 anos era algo praticamente inimaginável.

O que trago aqui como algo realmente raro é perceber a evolução da inclusão na dança.



Cartaz do Espetáculo Nuvens da Escola EDA 
no Teatro Gazeta - Foto Tati Wexler - @tatiwexler



Espetáculo Nuvens no Teatro Gazeta

Em novembro de 2025, aos 65 anos, participei do espetáculo “Nuvens”, da Escola EDA. Minha coreografia, era interpretada por um grupo formado por 15 mulheres e um homem, com idades entre 17 e 65 anos — todos executando os mesmos passos, a mesma coreografia, no mesmo tempo. Tivemos ainda a participação especial de um menino de seis anos.

Para que isso seja possível — dançar aos 65 em um grupo tão diverso, sem me sentir deslocada ou “encaixada” — é necessário que o mundo tenha avançado muito. Ou, talvez, que eu tenha tido a sorte de estar em uma escola onde a inclusão é uma meta real e cotidiana. Porque, fora dali, ainda não é isso que vejo com tanta frequência.

É por isso que senti vontade de escrever.


Ensaio Geral  na Eda Escola de Dança
 Foto Tati Wexler - @tatiwexler

Para que a inclusão aconteça, vários fatores precisam existir. Mas um deles é essencial: estar em um ambiente onde a inclusão é um valor. Na EDA, onde faço aulas há três anos, isso é evidente. Nas minhas aulas de Ballet Fitness convivem alunos nascidos em 2005, na faixa dos 20 anos, e alunos nascidos em 1960 — com 65 anos (eu, inclusive… risos). Os ritmos individuais são respeitados, não apenas pelas capacidades técnicas, mas também pela saúde corporal de cada um.

Nos ensaios para o espetáculo, não houve definição de lugares no palco baseada em desempenho, habilidade ou “melhor performance”. Estive na primeira fila em parte da apresentação, sem ninguém à minha frente para “copiar”. Isso exigiu de mim um esforço dez vezes maior para não errar — mas sem que o erro fosse tratado como falha. Muito pelo contrário.

Ensaio com a Professora Esther

Algumas das instruções da professora Esther ao grupo eram simples e profundas:
“Se errar, não tem problema. Faz parte. Continue dançando.”
E mais: “Se o grupo todo estiver fazendo o movimento errado, faça errado junto. O que importa é o movimento do grupo.”



Luciana e Tiago durante os ensaios, sempre muito atentos a todos os detalhes.  Foto Tati Wexler - @tatiwexler

Sempre digo que uma escola — seja de educação infantil, seja de dança — tem a cara de seus donos. Luciana e Thiago são especiais. Muitos dos professores da EDA foram formados ali: bolsistas que se tornaram professores, com oportunidades de viagens ao exterior, workshops e formação continuada.

Por isso, se você tem mais de 50 anos e quer continuar dançando, venha para a EDA — ou vá com fé para onde o corpo chamar. Os tempos mudaram. Hoje existem mais espaços, mais possibilidades e mais lugares onde todos podem tudo.

Dançar não tem idade.
Tem presença.
Tem corpo vivo.
Tem desejo.

 
Ao final com as amigas
Myrine e Solange


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