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Pontes Verdes: a solução simples para acabar com atropelamentos de animais

04/11/2026


O avanço do desmatamento têm cobrado um preço alto da nossa fauna local. Saguis, bichos-preguiça, saruês e aves de dezenas de espécies sofrem diariamente com o confinamento e a perda de seus habitats naturais. Forçados a se deslocar pelo chão ou por fios de alta tensão em busca de alimento e refúgio, esses animais encontram barreiras fatais: o asfalto das ruas e rodovias da nossa região e o risco constante de eletrocussão.

Para enfrentar essa realidade, o Brasil começa a dar passos importantes no campo legislativo. No âmbito federal, avança o Projeto de Lei nº 2550/2026 (antigo PL 466/2015), que institui o Plano Nacional de Segurança Viária para a Fauna Silvestre. Recentemente aprovado pela Câmara dos Deputados, o projeto agora tramita no Senado Federal e propõe regras rígidas para a instalação de passagens de fauna aéreas e subterrâneas, além de sinalizadores e radares de velocidade em rodovias e ferrovias próximas a áreas de preservação. No estado de São Paulo, a discussão ganha força com propostas como o PL 460/2025 na Assembleia Legislativa (Alesp), que busca obrigar legalmente as concessionárias que administram as estradas paulistas a implementar essas estruturas de proteção ao longo de suas malhas viárias.


A bióloga Fernanda Abra, fundadora do Projeto Reconecta, com uma das pontes de dossel. Fotografia: Reconecta

Mudar esse cenário de isolamento ambiental e mortes nas estradas é possível e exige soluções que combinem inovação técnica e engajamento coletivo. Um exemplo inspirador vem de iniciativas desenvolvidas na Amazônia pelo Projeto Reconecta, liderado pela bióloga Fernanda Abra. O uso de pontes de dossel — estruturas suspensas feitas com redes de cordas entrelaçadas de baixo custo — conseguiu conectar copas de árvores fragmentadas em Alta Floresta (MT). Monitoradas por armadilhas fotográficas, as pontes registraram mais de 15 mil travessias seguras de primatas e pequenos mamíferos em apenas 15 meses, reduzindo a zero os atropelamentos nos pontos críticos instalados. Esse mesmo modelo modular e durável, reconhecido internacionalmente por prêmios como o Whitley Award e o Wayfinder da National Geographic Society, serve como um espelho viável para blindar as nossas comunidades, integrando poder público, moradores e concessionárias locais na salvaguarda dos corredores ecológicos que ainda nos restam.


Bugio-riuivo, mico-de-schneider, macacao-aranha-de-cara-preta e zogue-zogue-de-alta-floresta (símbolo da cidade Alta Floresta (MT)  e do Projeto Reconecta) são quatro dos primatas ameaçados
de extinção, flagrados nas pontes de dossel instaladas na cidade

Saiba mais: Pontes de corda na Amazônia e no Brasil
Uma reportagem publicada pelo jornal internacional The Guardian destacou o sucesso das pontes de dossel criadas pelo Projeto Reconecta na Amazônia brasileira. Na rodovia BR-174, que corta a terra indígena Waimiri-Atroari, a instalação de 32 pontes aéreas permitiu mais de 1.250 travessias seguras de primatas nos últimos anos, incluindo espécies vulneráveis como o jaiminho (ou sagui-de-mão-escondida). O desenho inteligente e multilíngue dessas pontes atende a diferentes tipos de locomoção dos animais silvestre, desde espécies que se balançam com os braços até aquelas que usam a cauda preênsil ou simplesmente caminham sobre as cordas, funcionando também para preguiças e pequenos roedores arbóreos.
Saiba mais: Os impactos invisíveis do isolamento da fauna
Especialistas alertam que o impacto das rodovias vai muito além dos atropelamentos visíveis na pista. Segundo dados compartilhados por analistas ambientais do ICMBio e pesquisadores de universidades federais brasileiras, as estradas funcionam como barreiras ecológicas que confinam as populações de animais em fragmentos florestais muito pequenos. Esse isolamento geográfico impede o fluxo gênico (a migração de indivíduos para reprodução com outros grupos), provocando cruzamentos consanguíneos que diminuem a diversidade genética e tornam as espécies locais muito mais vulneráveis à extinção. Além disso, o desaparecimento dessas espécies quebra a cadeia de dispersão de sementes e polinização, desestruturando a regeneração natural das florestas a longo prazo.


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