01/06/2026
Mauricio Orth
A morte do estudante Lucas Veiga, de 19 anos, em um grave acidente ocorrido na Avenida São Camilo, na Granja Viana, no último fim de semana, provocou comoção na região e trouxe à tona uma discussão recorrente após tragédias no trânsito: o que fazer para impedir que a combinação entre álcool e direção continue causando consequências irreversíveis.
Segundo as informações divulgadas até o momento, o acidente ocorreu na noite de sexta feira (29/05), na Avenida São Camilo, em Carapicuíba. O veículo em que estava Lucas colidiu contra um poste. O jovem morreu no local. As circunstâncias do acidente e eventuais responsabilidades seguem sendo apuradas pelas autoridades. O caso, registrado em Carapicuíba, segue sob investigação.
Mais do que um episódio isolado, a tragédia reacendeu uma pergunta que desafia cidades em todo o mundo: por que, apesar de décadas de campanhas educativas e de uma legislação cada vez mais rigorosa, tantas pessoas ainda assumem o volante depois de beber?
A dor de uma família
Na porta da delegacia, o pai de Lucas manifestou indignação e cobrou uma investigação rigorosa. Em meio à dor da perda, expressou um sentimento compartilhado por muitas famílias que enfrentam tragédias semelhantes: a sensação de que as respostas demoram a chegar.
Quando uma vida é perdida de forma repentina, a expectativa por responsabilização costuma ser imediata. E é justamente nesse momento que surge uma percepção recorrente em casos semelhantes: a sensação de impunidade.
Entre a indignação e a Justiça
A reação é compreensível. Quando ocorre um acidente fatal, a sociedade espera respostas rápidas.
O sistema de Justiça, porém, funciona em outro ritmo.
Antes de definir responsabilidades, é necessário reunir provas, ouvir testemunhas, analisar imagens e realizar perícias. Dependendo do estágio da investigação e das evidências disponíveis, um condutor pode responder ao processo em liberdade enquanto as apurações prosseguem.
É justamente nesse intervalo entre a dor da família e a conclusão das investigações que frequentemente nasce a sensação de impunidade. O fenômeno não é exclusivo deste caso. Ele se repete em praticamente todos os acidentes graves que resultam em vítimas fatais.
Mas, enquanto a investigação busca respostas, permanece a pergunta que motivou esta reflexão: como evitar que histórias como essa se repitam?
O problema não é falta de informação.
Os riscos da combinação entre álcool e direção são amplamente conhecidos.
Reflexos mais lentos, redução da capacidade de julgamento, excesso de confiança e diminuição da percepção de risco estão entre os efeitos mais comuns do consumo de bebidas alcoólicas. Ainda assim, acidentes relacionados à imprudência continuam acontecendo. Talvez o desafio já não seja informar, mas transformar conhecimento em comportamento.
Levantamentos estaduais mostram que mortes relacionadas à suspeita de embriaguez costumam se concentrar no período noturno dos finais de semana e atingem com frequência jovens adultos, justamente o público mais presente em festas, confraternizações e encontros sociais.
A visão de quem vive o trânsito diariamente
Há 14 anos atuando na área de trânsito, Reinaldo Souza acompanha de perto os desafios da segurança viária na região.
Agente de trânsito de Cotia, diretor estadual da AGT Brasil e diretor da AGTESP, ele afirma que tragédias como a registrada na Avenida São Camilo impactam qualquer profissional comprometido com a preservação da vida.
Para ele, existe uma contradição que acompanha o trabalho dos órgãos de fiscalização.
"Quando fazemos fiscalização para prevenir esse tipo de imprudência, muitas vezes somos massacrados nas redes sociais. É sempre a mesma história: indústria da multa, máfia da multa. Mas quando acontece uma tragédia, todos cobram mais fiscalização."
Segundo Reinaldo, além da fiscalização, é necessário ampliar as ações educativas e envolver toda a sociedade no enfrentamento dos comportamentos de risco.
Da indignação à prevenção
Após cada tragédia, a cobrança por mais fiscalização costuma ganhar força. Mas especialistas e profissionais do trânsito apontam que a prevenção não depende apenas da atuação das forças de segurança.
Segundo Reinaldo Souza, regiões com intensa vida social, como a Granja Viana, poderiam receber campanhas mais incisivas de conscientização voltadas aos frequentadores de bares, restaurantes e happy hours.
"Já ouvimos falar muito do motorista da rodada, mas as pessoas raramente colocam isso em prática."
A ideia não é nova. Em diversos países, um integrante do grupo assume previamente o compromisso de não beber e se responsabiliza pelo retorno dos amigos.
Outras alternativas incluem o uso de aplicativos de transporte, caronas planejadas, transporte coletivo e até serviços especializados que levam o motorista e seu próprio veículo para casa. O princípio é simples: planejar a volta antes mesmo do primeiro brinde.
Uma reflexão para a região
A Granja Viana tornou-se um dos polos de gastronomia, lazer e convivência da região oeste. Com isso, vieram também novos desafios para a mobilidade e para a segurança viária.
Se a tragédia da Avenida São Camilo servir para alguma reflexão coletiva, talvez ela esteja menos relacionada à punição e mais à prevenção.
Campanhas educativas, participação do comércio local, incentivo ao motorista da rodada, uso consciente de aplicativos de transporte e uma cultura de retorno seguro podem parecer medidas simples. Mas são justamente essas pequenas decisões que, somadas, têm potencial para salvar vidas.
Afinal, a Justiça existe para apurar responsabilidades. A prevenção existe para evitar que novas famílias precisem buscá-la.
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