25/06/2026
Mauricio Orth
A Copa do Mundo sempre foi tradicionalmente um dos grandes eventos impulsionadores do consumo no país. A cada quatro anos, o Mundial promovia a venda de televisores, camisas da Seleção, alimentos e bebidas para confraternizações, além de movimentar bares, restaurantes e o comércio em geral. A economia da Copa sempre esteve associada ao consumo.
Nessa edição, temos a consagração de um novo modelo. Em todas as transmissões, das emissoras tradicionais às plataformas digitais, as bets hoje têm presença massiva e quase onipresente. Mais do que patrocinar programas, elas passaram a integrar a narrativa das transmissões, aproximando o ato de apostar da experiência de assistir a uma partida. A Copa então passou a alimentar outra cadeia econômica, formada por plataformas digitais, empresas de tecnologia, meios de pagamento, publicidade e patrocínios esportivos.
Essa transformação é recente. Em pouco mais de uma década, o Brasil deixou de ser um mercado periférico para se tornar o quinto maior mercado de apostas online do mundo, segundo estimativas da Regulus Partners – consultoria global especializada no setor de esportes, lazer e jogos de azar – posição que sequer considera as plataformas clandestinas.
Quando o Estado muda de postura
O crescimento foi tão acelerado que o governo federal acaba de criar uma plataforma inédita:
A plataforma nacional de autoexclusão, que permite que qualquer pessoa bloqueie, de uma só vez, todos os sites de apostas autorizados. Além do bloqueio, o sistema torna o CPF do usuário indisponível para novos cadastros em qualquer plataforma e impede o recebimento de publicidade direcionada de bets. A plataforma também oferece informações sobre tratamento de saúde mental através do Sistema Único de Saúde (SUS).
A autoexclusão centralizada é reconhecida cientificamente como uma estratégia essencial para reduzir os danos à saúde mental da população com relação às apostas.
Essa ferramenta revela uma mudança importante na forma como o próprio Estado passou a enxergar o setor. Se por um lado, as bets movimentam bilhões de reais gerando uma arrecadação tributária considerável, por outro acumulam sinais de um custo social crescente: o aumento do endividamento e mudanças no padrão de consumo já foram identificados pelo Banco Central, entidades do comércio e por pesquisadores.
O que acontece com a economia quando bilhões de reais passam a percorrer um caminho diferente?
Durante mais de sete décadas, o Brasil restringiu os jogos privados de azar. Desde o fechamento dos cassinos, em 1946, o Estado manteve o monopólio dos jogos legais por meio das loterias federais administradas pela Caixa Econômica Federal. Ela destinava parte da arrecadação a áreas como esporte, cultura e seguridade social.
Esse paradigma começou a mudar em 2018. A Medida Provisória (MP) 846/2018 foi criada inicialmente com um objetivo muito claro: reorganizar o repasse do dinheiro das loterias da Caixa Econômica Federal. O foco era somente direcionar uma fatia maior dessa arrecadação para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e para ministérios como o do Esporte e da Cultura. Foi nesse "embalo" que o processo de legalização das apostas esportivas ocorreu de forma veloz e indireta, pegando a maior parte do público de surpresa. As bets não foram legalizadas por meio de um projeto de lei específico, mas sim por uma inserção de texto (uma espécie de "jabuti") dentro dessa MP, às vésperas de sua aprovação. O golpe foi duplo: a Lei 13.756/2018 não apenas autorizou a atividade, mas também estipulou um prazo de quatro anos para que o Poder Executivo definisse as regras de funcionamento do mercado. Na prática, o mercado nasceu antes da regulamentação.
Os "quatro anos de ouro"
Esse intervalo foi decisivo. Entre 2018 e 2023, centenas de plataformas passaram a operar no Brasil, a publicidade explodiu, os clubes incorporaram as bets aos seus uniformes e o futebol tornou-se a principal vitrine desse novo setor econômico.
A falta de regulamentação nesse período ganhou impulso ao coincidir com outros três fenômenos: a massificação dos smartphones — hoje nas mãos de nove em cada dez brasileiros, a popularização do Pix e essa nova forma de publicidade, integrada à linguagem das transmissões esportivas. Apostar deixou de exigir uma visita à lotérica. Bastam um celular conectado e poucos segundos na frente de um QR code para transformar um lance do jogo em uma aposta. Foi a combinação desses fatores que criou uma verdadeira tempestade perfeita para o crescimento das bets.
Os primeiros sinais de que esse crescimento produzia efeitos além do futebol vieram do Banco Central (BC). O BC constatava uma espécie de anemia: A renda crescia.
O consumo não.
A poupança também não.
Para onde estava indo esse dinheiro?
Levantamentos da Confederação Nacional do Comércio (CNC) também apontavam perdas bilionárias no varejo, indicando que recursos antes destinados às compras do dia a dia passaram a disputar espaço com as apostas.
O dinheiro mudou de caminho
Para milhares de famílias, o dinheiro que antes pagava parte das compras do mês passou a disputar espaço com promessas de ganhos rápidos. Relatórios do Banco Central também identificaram uma movimentação de bilhões de reais por mês, via Pix, vindo de programas sociais como o Bolsa Família para as bets.
O dinheiro não desapareceu.
Ele mudou de destino.
Essa talvez seja a principal transformação provocada pelas bets. Elas não apenas criaram um novo mercado. Passaram a disputar uma parcela crescente da renda disponível das famílias brasileiras.
É justamente nesse ponto que a plataforma de autoexclusão ganha significado.
Ela representa o reconhecimento de que a rápida expansão das bets produziu efeitos que ultrapassam o entretenimento. O endividamento, o comprometimento da poupança e a mudança no destino de parte da renda das famílias transformaram as apostas esportivas em um assunto de política pública.
Durante décadas, a Copa impulsionava o consumo. Em 2026, ela continua movimentando a economia, mas revela uma nova realidade: uma parcela crescente do dinheiro mobilizado pelo torneio passou a percorrer caminhos diferentes. Compreender esse deslocamento — e seus efeitos sobre as famílias e o próprio Estado — talvez seja o primeiro passo para entender o impacto econômico e social das bets no Brasil. Talvez esse seja o verdadeiro custo da maior Copa da história para as bets.
Autoexclusão dos sites de apostas: preserve seu bem-estar
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