19/03/2026
Mauricio Orth
"Eu não nasci aqui. Viajei congelada no interior de uma rocha que atravessava o espaço (ou Universo, ainda me confundo com esses nomes que vocês dão).
Eu tava num pedaço de pedra que devia estar rodando por aí, tipo, na medida de tempo de vocês, na casa do bilhão de anos. Um dia ainda conto como fui parar lá, mas isso é outra história. Lembro que tinham muitos desses pedaços que percorriam esta região ao redor dessa bola diferentona, uma explosão em fornalha, irradiando energia pra todos os lados de um monte de jeito e, entre eles, luz e calor. Rá, Hélios, Apolo, Inti, Amaterasu, Surya, Sol Invictus e Guaraci são alguns dos nomes que vocês dão pra ela.
Então veio o impacto. A rocha que me carregava atravessou o que tinha de atmosfera daquilo que vocês mais tarde chamariam de Terra (já escutei Geb, Ki, Ersetu, Di, Ayé, Asase Yaa, Ala, Sakpata, Pachamama, Yvy, Urihi..) e se despedaçou contra sua superfície. O choque virou calor e eu, virei vapor. Por um período deixei de ser gelo e me tornei nuvem. Depois fiquei líquida, caí novamente. E nesse ciclo, subi e caí sei lá quantas vezes.
Eu percorria a superfície ainda quente e percebi algo curioso. Eu não estava sozinha. Outras que nem eu já estavam ali. Algumas haviam chegado, como eu, de longe. Outras surgiam lá de dentro dessa bola rochosa.
Era difícil distinguir quem vinha de fora e quem já morava lá, mas, no fim das contas, isso nunca importou quando nos encontramos. Só deixamos de ser histórias separadas. Passamos a ser apenas aquilo que vocês chamam de A, ‘Y, Omi, Maza, Ndoh, Sin, Hidor, Aqua. Água.
Seguimos então pelas mudanças deste planeta. Lá fora também é assim, tudo sempre muda. O tempo todo. A crosta se movia, montanhas surgiam, depressões se formavam, e nós ocupávamos os espaços que apareciam. Sempre por conta dessa coisa que puxa a gente pra baixo, pro centro, pra ficar colada no chão — a tal da gravidade.
Quando tudo esfriou um pouco, aconteceu: dentro de mim, comecei a perceber coisinhas minúsculas que se moviam! Se dividiam e se transformavam. Não eram rocha, não eram vapor, não eram apenas eu. Era outra presença. Algo que se vestia das minhas coisas, se misturava com outras, atravessava meus fluxos e passava a existir. Axé, Kra, Chi, Tekowe, Kawsay, Xapiri. Vocês nomeariam “vida”.
No início, simplinhas, persistiam, multiplicavam-se e aprendiam a usar a energia que chegava dessa bola-fornalha. Bem teimosas. Adotando muitas formas diferentes, algumas delas aprenderam a viver fora de mim.
Foi assim que surgiram as primeiras plantas pequenininhas, depois outras maiores. Fui percebendo que ganhava novas amigas. Elas eram apegadas ao chão e, por dentro delas, eu conseguia subir e esquecer da tal da gravidade... sempre foi uma parceria e tanto! Essas formas foram ganhando volume e ficando importantes, e o que saía delas influenciava nas mudanças do próprio planeta. Elas acabaram por mudar a atmosfera e criar condições para outras formas de vida surgirem.
Me lembro também da época em que quase todos os farelos de pedra daquilo que vocês chamam de hemisfério sul estavam reunidos em um único canto. Achei bonito o nome que vocês dariam a esse território: Gondwana.
Eu corria por encostas e vales desse lugar. Em regiões que muito depois seriam chamadas de África, eu descia pelas rochas e seguia por planícies. Em outras áreas, que mais tarde receberiam o nome de América do Sul, nos juntávamos aos montes, em lagos povoados por formas de vida que vocês chamam de Titanossauros, tudo em uma escala maior do que é hoje.
Mas a casca deste planeta não permanece imóvel. A gente sabe, tudo muda. Tudo tremia, e movimentos profundos começaram a afastar partes daquele todo. A superfície se esticou, quebrou o chão e separou as terras.
Eu passei a ocupar esses novos espaços. Preenchia as fissuras que surgiam, me juntava nas depressões recém-formadas e avançava pelos caminhos que a crosta abria. Assim começou a surgir o que vocês hoje chamam de Oceano Atlântico.
Vi a formação de uma floresta ao longo dessa parte do chão. Vocês chamariam essa floresta de Mata Atlântica. Tem um povo de hoje que nomeia ela com mais crédito meu na autoria: Rainforest, “Floresta de chuva”, porque cansei de cair em cima dela de todos os jeitos, enquanto ela sempre me jogava de volta pra cima. “Você não faz parte da barriga da mãe, você faz parte da barriga do céu”, ela cantava enquanto me jogava em vapor. Eu ria.
Por estar dentro e fora delas muitas vezes, eu percebia: algumas das plantas que cresciam ali descendiam de linhagens presentes desde quando as terras ainda estavam unidas. Outras surgiram depois, quando o clima começou a variar — muito frio, muito calor — e fizeram as florestas recuar e voltar a se expandir. Teve também uma mistura de um grupo vindo do que vocês chamam de Norte, mais perto da cintura dessa bola, chamada de equador.
Durante esses períodos mais frios, secos, eu me vestia de gelo e muitas dessas minhas amigas não resistiam. As que ficaram conseguiam se refugiar em algum canto, onde podiam continuar existindo.
Quando esquentava e ficava bom de novo, essas turmas voltavam a se encontrar. Voltavam diferentes! Quando se encontravam de novo, era aquela festa de mistura.
E percebi que, quando se mistura, se diversifica.
Assim surgiu um monte de jeito diferente da vida se manifestar.
Pois entre as poucas regiões onde ainda tem testemunhas pra contar pelo menos parte dessa história, está um conjunto de morros cobertos por floresta no interior do território que vocês hoje chamam de estado de São Paulo.
Ali continuo surgindo em nascentes, percorrendo encostas e reunindo-me em pequenos cursos que descem pelos vales. Vocês conhecem esse lugar como Morro Grande. Foi um dos cantos em que eu e as árvores brincávamos e dançávamos por muitas vezes.
Então vocês chegaram.
Abriram clareiras, cortaram árvores, dividiram a terra, traçaram limites, deram nomes, registraram papéis. Alguns diziam que a floresta era uma “máquina de produzir água” ou mesmo “Sistema produtor de Água”. Olha, eu queria explicar umas coisinhas: primeiro, máquinas são objetos construídos para executar tarefas e obedecer a comandos. Elas pertencem a alguém. Segundo:
Eu já estava aqui. O Morro Grande também.
Hoje vocês marcam no calendário esse dia dedicado a mim. Deixo então o meu recado:
Eu não pertenço a ninguém. Nem quem me trata, nem quem me vende, nem quem me cuida.
Assim como minha grande amiga — quase irmã —, a árvore,
assim como a floresta, o Morro Grande...
Existir nunca foi a mesma coisa que possuir."
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