27/05/2026
Mauricio Orth
Uma aposta ambiciosa que mistura energia limpa, fibra óptica, conectividade urbana e os riscos típicos das concessões de longo prazo.
A frase que abriu a investigação
Durante a inauguração das quatro novas usinas solares em Cotia nesta semana, a Prefeitura destacou sustentabilidade, economia e energia renovável. As estruturas instaladas no Ginásio Municipal somam 565 módulos e fazem parte de um projeto que prevê 23 usinas fotovoltaicas na cidade.
Segundo a Prefeitura, o sistema completo deverá gerar cerca de 8 mil MWh por ano, com expectativa de economia próxima de R$ 4,5 milhões anuais aos cofres municipais.
“Então nós encontramos no contrato que tinha a obrigação de fazer da empresa. Então nós notificamos, estamos cobrando (...) na verdade tinha uma PPP”,
afirmou o prefeito Welington Formiga durante a coletiva.
A fala, dita rapidamente, acabou abrindo caminho para uma questão muito maior do que os próprios painéis solares. O Site da Granja foi atrás dos documentos da Parceria Público-Privada responsável pelo projeto e encontrou uma estrutura gigantesca, ampla e sofisticada, além do que a narrativa pública sugere.
Muito além dos painéis solares
Por trás das usinas solares existe uma concessão de R$ 358,5 milhões, válida por 20 anos, que envolve geração de energia, iluminação inteligente, fibra óptica, monitoramento digital e gestão integrada de infraestrutura urbana.
O contrato definitivo entre a Prefeitura de Cotia e a concessionária Ilumina Cotia SPE S/A, formada por cinco empresas do setor, foi assinado em 30 de outubro de 2024.
Ao mesmo tempo, o projeto pode representar uma das maiores transformações recentes da infraestrutura urbana de Cotia, combinando geração de energia, iluminação inteligente, conectividade e gestão digital integrada da cidade.
“Cotia se torna a primeira cidade da região oeste a ter energia limpa, renovável e sustentável”, afirmou o prefeito durante o evento.
Mas os próprios documentos da PPP mostram que as usinas solares representam apenas uma parte de um projeto muito maior.
A cidade conectada
O contrato prevê a modernização completa do parque municipal de iluminação pública, incluindo substituição das luminárias por LED, implantação de sistemas de telegestão remota — tecnologia que permite monitorar e controlar pontos de iluminação à distância — e instalação de até 800 quilômetros de rede de fibra óptica integrados a um Centro de Controle Operacional (CCO).
Na prática, Cotia começa a estruturar uma rede urbana conectada baseada em energia, dados e monitoramento digital.
Além das usinas solares, a PPP inclui a iluminação de passarelas, túneis, praças, campos, quadras e futuros espaços urbanos que venham a integrar o sistema municipal ao longo da concessão.
Mas isso é bom para Cotia?
Os próprios documentos da concessão indicam vantagens potenciais importantes para o município, como:
• redução do consumo energético;
• modernização da iluminação pública;
• ampliação da conectividade urbana;
• e criação de uma infraestrutura tecnológica integrada para gestão da cidade.
Ao mesmo tempo, o modelo transfere para uma concessão privada parte relevante da operação da iluminação pública e cria uma relação contratual de longo prazo, sujeita a revisões econômicas, indicadores de desempenho, reequilíbrios financeiros e riscos inerentes a contratos complexos desse porte.
A cronologia da PPP
A estruturação da PPP começou ainda em 2022. Em 2023, a concorrência pública foi aberta. No início de 2024, o processo chegou a ser suspenso temporariamente pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), passando depois por republicações, erratas e ajustes técnicos antes da homologação final, em julho de 2024.
Entre os pontos debatidos durante a licitação estavam detalhes sobre a implantação de até 800 quilômetros de rede de fibra óptica, critérios técnicos das usinas solares e mecanismos de monitoramento da concessão.
Os documentos mostram ainda que a concessão foi estruturada através de uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), empresa criada exclusivamente para administrar o projeto de Cotia.
Energia limpa — mas não sem impactos
A modelagem da PPP prevê diretrizes ambientais, mitigação de passivos e responsabilidades relacionadas aos impactos da concessão ao longo do contrato.
O projeto prevê expansão contínua de infraestrutura urbana e intervenções permanentes no sistema de iluminação pública da cidade e, para isso, são mencionadas questões relacionadas a passivos ambientais, interferências com arborização urbana e responsabilidades operacionais da concessionária ao longo dos 20 anos de contrato.
A primeira face de uma transformação maior
As usinas solares inauguradas nesta semana representam portanto apenas a primeira face de um projeto que poderá modificar profundamente parte da infraestrutura urbana de Cotia nas próximas décadas.
Por trás dos painéis instalados em prédios públicos, a cidade começa a estruturar uma rede integrada de energia, dados e conectividade urbana.
A análise dos documentos da PPP revela ainda muitas outras camadas envolvendo tecnologia, fiscalização, financiamento, expansão urbana e gestão da cidade — temas que o Site da Granja pretende aprofundar em novas reportagens nas próximas semanas.
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