18/02/2026
Mauricio Orth
CEMUCAM vira polo gastronômico permanente?
Uma proposta da Prefeitura de São Paulo colocou o Parque CEMUCAM em debate. A administração municipal pretende conceder à iniciativa privada um dos casarões atualmente sem uso para implantação de um restaurante.
O tema será discutido em audiência pública online em 25/02.
A iniciativa integra um projeto mais amplo da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) e da Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias (SEDP).
São 46 áreas distribuídas em 31 parques. Entre os cinco parques selecionados para equipamentos permanentes estão CEMUCAM, Parque do Povo, Aclimação, Independência e Guarapiranga. Embora localizado em Cotia, o parque pertence e é administrado pela Prefeitura de São Paulo.
O que está previsto para o CEMUCAM
De acordo com o Memorial Descritivo do edital, o CEMUCAM aparece com uma das maiores áreas previstas em projeto.
O espaço corresponde ao Casarão 01, anteriormente utilizado como alojamento de campistas, com salões interno e externo, cozinha de grande porte, depósitos e sanitários. O documento aponta que o imóvel necessita de reforma para adaptação ao uso gastronômico.
No modelo proposto, o permissionário assume os custos de adequação do espaço, manutenção da área concedida, recolhimento de resíduos e despesas operacionais como água e energia. A permissão de uso tem prazo previsto de dez anos.
Uma pequena história
O Parque CEMUCAM — sigla para Centro Municipal de Campismo — foi inaugurado oficialmente em 02/03/1969 pela Prefeitura de São Paulo, com a proposta de estimular atividades de convivência com a natureza. Com aproximadamente 908 mil metros quadrados, o parque abriga remanescentes de Mata Atlântica e tornou-se referência para práticas esportivas, lazer familiar e atividades ao ar livre. Um dos elementos menos perceptíveis ao grande público, mas relevante para a dinâmica ambiental, é o Viveiro Harry Blossfeld.
Inserido em meio à extensa área verde do CEMUCAM, o viveiro mantém uma relação próxima com o próprio ambiente do parque. A diversidade de espécies e os processos naturais de regeneração vegetal frequentemente dialogam com as atividades de produção de mudas destinadas a projetos de arborização e recuperação ambiental.
Reações entre frequentadores
Às vésperas de completar 57 anos, a proposta vem gerando percepções distintas entre usuários do parque.
Parte vê a iniciativa como oportunidade de revitalizar estruturas hoje subutilizadas e ampliar a oferta de serviços. Outros demonstram cautela quanto aos possíveis impactos sobre a dinâmica ambiental e o perfil do espaço.
As dúvidas que mais aparecem são sobre ruído, geração de resíduos, integração arquitetônica, política de preços e eventuais mudanças indiretas, como cobrança de estacionamento.
Conselho Gestor relata surpresa
Integrantes do Conselho Gestor relataram que o tema não havia sido previamente debatido no colegiado.
Segundo um dos membros ouvidos pelo Site da Granja, o assunto gerou surpresa e o material sobre a concessão chegou recentemente. Ela deverá ser discutida na próxima reunião do Conselho.
Visão ambiental e patrimonial
Entre as manifestações críticas à proposta, surgem preocupações ligadas à vocação ambiental e à preservação do conjunto arquitetônico do parque.
O psicanalista Fabio Sanchez, frequentador do CEMUCAM e ex-integrante do Conselho Gestor, avalia que a discussão envolve dimensões que extrapolam a implantação de um restaurante. Sanchez também integra o coletivo PanVerde e a entidade AmoGV.
“O parque tem um papel muito importante na ecologia urbana, ligado ao restauro, à socialização e à promoção da saúde. Esse papel não pode ser corrompido.”
Sanchez também levanta questionamentos sobre as contrapartidas do projeto:
“Quem ficar com o casarão terá um restaurante com estrutura já existente. Quanto desse retorno efetivamente beneficia o parque?”
Outro ponto destacado por ele é o caráter arquitetônico da edificação:
“É fundamental garantir a preservação do casarão enquanto patrimônio histórico e elemento da paisagem.”
Um modelo em expansão
A proposta para o CEMUCAM se insere em um movimento mais amplo observado na política de gestão de parques municipais em São Paulo nos últimos anos.
Equipamentos como o Parque Ibirapuera passaram a operar sob modelos de concessão. Defensores desse modelo costumam apontar ganhos relacionados a melhorias na infraestrutura, investimentos e área operacional. Críticos, por sua vez, levantam preocupações sobre mercantilização dos espaços públicos, elitização do acesso e descaracterização ambiental.
Uma questão só do CEMUCAM
No caso específico do CEMUCAM, a discussão ganha uma camada adicional. Por estar fisicamente localizado fora dos limites territoriais da capital, ele ocupa uma posição singular. Ele integra a dinâmica de Cotia e da Granja Viana, e não de São Paulo.
Esse contexto levanta um questionamento: deve o parque receber tratamento idêntico ao aplicado em áreas verdes situadas dentro da capital?
A audiência pública tende a se tornar o principal espaço de convergência dessas diferentes percepções.
Audiência pública
Dia: 25/02/2026
Hora: 10h
Link: Participe AQUI
Contribuições: sgmparcerias@prefeitura.sp.gov.br
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