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Cepelos, o poeta de Cotia que a história não resolveu

01/04/2026


Mauricio Orth

Amor proibido e uma morte sem resposta: Nascido em Cotia e autor de obra marcante, Baptista Cepelos teve a vida atravessada por uma tragédia e uma morte sem explicação — tema que volta ao debate com a possível mudança do nome da Rua Peixoto Gomide, na capital.

Um jovem de Cotia que queria mais

Manuel Baptista Cepelos nasceu em 10 de dezembro de 1872, na então vila de Cotia. Filho do professor João Batista Cepelos e de Maria Francisca Bueno Diniz, cresceu em ambiente modesto, marcado por uma educação doméstica — comum em um tempo em que escolas formais ainda eram raras fora dos grandes centros.

Ainda jovem, seguiu carreira na Força Pública, onde chegou a oficial. Mas abandonou o caminho militar para investir nos estudos. Em 1895, ingressou no curso preparatório da Faculdade de Direito de São Paulo — espaço dominado pela elite.

Poder, patronagem e o encontro que mudaria tudo

A ascensão de Cepelos ao curso de Direito não se deu em vazio. Sua formação contou com o apoio do senador Francisco de Assis Peixoto Gomide, figura dominante da política paulista e presença frequente em Cotia, onde exercia influência direta sobre o seu  “curral” eleitoral — prática típica do coronelismo da época, em que política e vida privada frequentemente se confundiam.

O financiamento dos estudos do jovem poeta insere Cepelos numa rede de patronagem comum no período, em que lideranças políticas apoiavam trajetórias individuais ao mesmo tempo em que consolidavam poder local.

Foi no ambiente acadêmico que Cepelos se aproximou ainda mais da família Gomide. Colega de curso de Bruno Peixoto Gomide — irmão de Sophia — passou a conviver com o círculo familiar e iniciou relacionamento com a jovem.

O que poderia parecer improvável — um jovem de origem simples e uma moça da elite — tornou-se realidade: o casamento foi oficialmente anunciado e marcado para janeiro de 1906.

Tudo estava formalizado. Tudo estava prestes a acontecer.

Ao mesmo tempo, interpretações posteriores — especialmente em leituras locais — sugerem que a relação entre Gomide e a família Cepelos poderia ter sido mais complexa, inserida em dinâmicas de poder típicas do coronelismo. Entre essas hipóteses, levanta-se a possibilidade de vínculos pessoais mais profundos entre o senador e Maria Francisca Bueno Diniz. Não há, contudo, comprovação documental para tais versões, que permanecem no campo da especulação histórica.

O crime que chocou o país

O que se sabe é que em 20 de janeiro de 1906, dias antes do casamento, Peixoto Gomide matou a própria filha e, em seguida, suicidou-se.

O episódio nunca foi completamente explicado. Fala-se em conflitos de honra, tensões sociais e oposição ao casamento. Sophia, no entanto, assim como provavelmente sua mãe, permanecem na história como vítimas — reflexo de uma época em que mulheres tinham pouca autonomia diante das decisões masculinas.

Formação, obra e inquietação

Antes mesmo da tragédia, Cepelos já havia iniciado sua produção literária. Publicou "A Derrubada" (1895) e, poucos anos depois, "O Cysne" (1902), obra que o inseriu no debate literário de seu tempo. Em "Os Bandeirantes" (1906), obra prefaciada por Olavo Bilac, Cepelos alcança um de seus momentos de maior reconhecimento. Depois produziu  "Os Corvos", crônica, (1907), "Vaidades" (1908), o romance "O Vil Metal" (1910) e a peça teatral "Maria Madalena".

Sua obra transita entre o parnasianismo e o simbolismo, marcada por inquietação e tensão entre ideal e realidade. Foi também um dos primeiros tradutores de Stéphane Mallarmé no Brasil, contribuindo para a introdução do simbolismo francês no país.

A morte que ninguém conseguiu explicar

Na noite de 7 para 8 de maio de 1915, Cepelos foi encontrado morto em uma pedreira no Rio de Janeiro.

O inquérito concluiu pelo suicídio. No entanto, essa conclusão contrasta com os fatos imediatamente anteriores à sua morte. Dias antes, Cepelos havia sido nomeado promotor público em Cantagalo, sua peça Maria Madalena estava em evidência no Teatro Trianon e jornais anunciavam a realização de uma festa artística em sua homenagem — que nunca chegou a acontecer.

Esse contexto de possível ascensão profissional e reconhecimento público fragiliza a leitura de um desfecho voluntário e reforça as dúvidas que já existiam à época. Desde o início, levantaram-se hipóteses alternativas, como acidente (Cepelos tinha forte miopia) ou mesmo circunstâncias não esclarecidas.

Até hoje a morte de Cepelos permanece sem explicação definitiva — não por falta de versão oficial, mas pela dificuldade de conciliá-la com os fatos que a antecederam.

Um passado que volta à pauta

Mais de um século depois, a história voltou — agora com impacto direto em São Paulo, capital. Sua Câmara Municipal aprovou a proposta de alteração do nome da Rua Peixoto Gomide, no centro. A via homenageia o político, responsável pelo assassinato da própria filha.

"O que a Câmara está fazendo é uma reparação, porque feminicida não pode ser herói.", afirmou a vereadora e autora do projeto Silvia Ferraro, da Bancada Feminista (PSOL).

A medida indica uma mudança concreta na forma como a memória histórica é tratada: não apenas reavaliada, mas também reescrita nos próprios marcos da cidade. O caso reacende discussões sobre quem deve ser homenageado — e por quê. Ao mesmo tempo, desloca o foco para figuras historicamente silenciadas, como Sophia Gomide, e traz de volta à cena a trajetória de Baptista Cepelos, diretamente atravessada por esse episódio.

Trata-se de uma disputa sobre memória, responsabilidade histórica e os critérios de permanência no espaço público.

Em Cotia, além de um  busto na Câmara , Cepelos dá nome a  rua,  escola e biblioteca  — referências que, apesar de existentes, pouco traduzem o alcance de sua história na memória local.

Um poeta que permanece como pergunta

Entre literatura, tragédia e dúvida, Baptista Cepelos segue como uma história em aberto — e, por isso, ainda viva. No bolso do poeta, após a sua morte, foi encontrado um soneto de sua autoria. Em seus versos finais, escreveu:

“À luz do teu olhar eu me vou libertando
do minuto que passa e do tempo que voa.”

Mais de um século depois, a frase permanece — como sua própria história.

Viva Baptista Cepelos!



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