07/05/2026
Há muitos anos, quando eu ainda era jovem, eu acreditava que
sabia o que era ser mãe. Não porque alguém me tivesse ensinado — mas porque,
como tantas mulheres, eu já carregava dentro de mim uma ideia pronta.
Ser mãe parecia algo natural. Quase automático. Como se o
amor, por si só, resolvesse tudo. Hoje, olhando para trás, percebo que não é
assim.
A maternidade não se revela de uma vez. Ela se revela aos
poucos — e, muitas vezes, no avesso do que imaginamos.
Ser mãe não começa quando um filho nasce. Começa antes, em
histórias que nem sempre conhecemos em nós mesmas. E continua muito depois,
quando os filhos já não precisam de nós da mesma forma — mas ainda habitam em
nós.
Ao longo da vida, fui encontrando muitas mães. E nenhuma
delas era exatamente como as imagens que nos oferecem.
Encontrei mães cansadas.
Cansadas de um cansaço que não se resolve com descanso.
Mães que seguem, mesmo quando não têm mais de onde tirar. Que
fazem contas em silêncio, que equilibram o dia com o pouco que têm, que
aprendem a viver com a falta — sem deixar de cuidar.
Encontrei mães inquietas.
Que não param, que fazem tudo ao mesmo tempo, como se o movimento fosse uma
forma de não sentir o peso do que carregam.
Mães que pensam demais, que se cobram demais, que voltam à
noite sobre o dia vivido e se perguntam, sem resposta: “será que eu poderia ter
sido diferente?”
Encontrei mães que perdem a paciência — e depois se perdem
na culpa.
Mães que se calam — e, nesse silêncio, vão se distanciando de si mesmas.
E encontrei também mães que não aprenderam a ser cuidadas
porque, muitas vezes cuidam demais.
Mães que cresceram sem colo, sem escuta, sem presença. E
que, ainda assim, precisaram oferecer aquilo que nunca receberam.
Há também as mães que chegam por outros caminhos. Não pelo
corpo, mas pela decisão. Não pela gestação, mas pelo encontro.
A maternidade adotiva nos ensina algo que talvez já
estivesse ali, mas que nem sempre sabemos nomear: ser mãe não é apenas gerar —
é sustentar um vínculo.
Essas mães acolhem histórias que já começaram. Histórias que
trazem marcas, ausências, perguntas.
E, diante delas, não há roteiro, há construção.
Há um tempo próprio para o vínculo. Um tempo que não se
impõe, que não se força — que se faz, pouco a pouco.
Às vezes, o amor não chega de imediato, e isso pode
assustar.
Mas, com o tempo, aprende-se que o amor também pode ser
construído.
Que ele pode nascer da convivência, da presença, da repetição de gestos
simples.
E talvez seja isso que torne essa experiência tão profunda: a
consciência de que o vínculo não está dado — ele é tecido.
Com paciência.
Com disponibilidade.
Com verdade.
Há, ainda, aquelas que nos desconcertam.
Mães que parecem centradas em si mesmas, que não se mostram
disponíveis como se espera.
É fácil julgá-las.
Mas, com o tempo, fui aprendendo a olhar de outro modo.
Nem sempre é falta de amor.
Às vezes é incapacidade.
Às vezes é defesa.
Às vezes é o limite de alguém que nunca pôde se constituir de outra forma.
Isso não apaga as marcas que podem deixar. Mas amplia nossa
compreensão.
Vivemos também um tempo novo.
As mães de hoje carregam mais do que antes.
Mais papéis, mais exigências, mais expectativas.
Precisam ser presentes — sem deixar de ser produtivas.
Precisam cuidar — sem desaparecer.
Precisam dar — sem se perder.
E, muitas vezes, não conseguem.
E quando não conseguem, sofrem.
Há também aquelas cuja maternidade não nasceu do desejo, mas
da circunstância.
Mulheres que se tornaram mães porque a vida assim impôs.
Por pressão, por falta de alternativas, por caminhos que não puderam ser
desviados.
Nesses casos, o amor nem sempre vem de imediato.
Às vezes vem depois.
Às vezes vem misturado.
Às vezes vem com conflito.
E, ainda assim, é humano.
Quando somos jovens, acreditamos que a maternidade depende
de vontade.
Com o tempo, entendemos que ela depende também de condições.
Não se cuida da mesma forma quando se tem apoio e quando se
está só.
Não se sustenta uma rotina da mesma forma quando se está inteira e quando se
está exausta.
E, ainda assim, as mães seguem.
A psicologia nos disse, há muito tempo, que uma criança não
precisa de uma mãe perfeita — precisa de uma mãe suficientemente boa.
Mas essa ideia, tão simples, ainda parece distante da
realidade de muitas mulheres.
Porque o mundo continua exigindo mais.
Sempre mais.
Mais paciência.
Mais disponibilidade.
Mais equilíbrio.
Como se ser mãe fosse um lugar onde não se pode falhar, mas
falha-se.
E talvez seja justamente isso que sustenta o vínculo.
Ser mãe não é um estado de harmonia constante.
É um movimento.
Há dias em que se consegue.
Há dias em que não.
Há momentos de encontro — e momentos de desencontro.
E, no meio disso tudo, algo permanece.
Hoje, já em outro tempo da vida, olho para trás sem a
urgência de acertar.
E vejo uma história que não é perfeita — mas é verdadeira.
Vejo o que pude oferecer. E vejo também o que não pude.
E, curiosamente, é isso que traz uma forma de paz.
Como avó, essa percepção se aprofunda.
Há menos pressa.
Menos tentativa de controle.
Mais escuta.
E há, sobretudo, uma consciência mais nítida do tempo.
Se antes eu vivia fazendo, hoje eu vejo.
E, vendo, entendo algo que talvez leve uma vida inteira para
se compreender:
o que marca um filho não é a perfeição do cuidado,
mas a continuidade do vínculo que só vai perceber quando for adulto.
Talvez por isso o Dia das Mães precise ser olhado com mais
verdade.
Não como celebração de um ideal inalcançável,
mas como reconhecimento de uma travessia silenciosa.
Ser mãe é atravessar a vida com alguém —
sem garantias,
sem controle,
sem saber exatamente o que virá.
E, ainda assim, permanecer.
Não na forma que se espera.
Mas na forma que é possível.
Porque, no fim,
o que permanece não é o que fizemos,
mas aquilo que, sem perceber, fomos para alguém.
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