05/03/2026
Mauricio Orth
O congestionamento que se formou na Raposo Tavares no início da semana voltou a expor a já velha fragilidade conhecida da região. Entre os dias 28/02 e 02/03, serviços de recapeamento realizados pela Ecovias Raposo Castello provocaram bloqueios de faixa e longas filas. Na segunda (02/03) cedinho, o trânsito se estendeu por quilômetros entre Cotia e a capital, gerando uma onda de reclamações nas redes sociais.
O episódio reacendeu uma pergunta recorrente entre moradores: se uma obra de manutenção já é capaz de travar a rodovia, o que acontecerá quando começarem as obras previstas no projeto Nova Raposo?
Cotia cresceu, o trânsito também
Cotia surgiu ao longo de um antigo caminho utilizado pelos povos originários e depois por bandeirantes em expedições rumo ao interior do território. Com o avanço da infraestrutura rodoviária no século XX, essa rota histórica se transformou na atual Raposo Tavares.
Nas últimas décadas, a cidade passou por forte expansão populacional. Entre 2010 e 2022, a população saltou de cerca de 201 mil para 273 mil habitantes, crescimento de 36%, segundo o IBGE. A urbanização avançou ainda mais rapidamente. No mesmo período, o número de domicílios foi de 63 mil para mais de 100 mil, aumento de pelo menos 58,7%. Ao mesmo tempo, a oferta de empregos na cidade não acompanhou o mesmo ritmo, o que ampliou o chamado movimento pendular — deslocamentos diários de moradores que precisam sair de Cotia para trabalhar em outras cidades da região metropolitana, especialmente em São Paulo e Osasco.
Hoje, estimativas indicam que cerca de 90 mil veículos circulam diariamente entre Cotia e a capital paulista. Estudos apresentados no debate sobre o projeto Nova Raposo indicam que esse volume pode chegar a 118 mil veículos por dia com as intervenções previstas.
Empreendimentos ampliam pressão sobre a rodovia
Além do crescimento residencial, novos empreendimentos também passaram a integrar o debate sobre mobilidade. Um deles é o condomínio logístico planejado pela empresa Prologis no km 26. O projeto é alvo de ações judiciais e permanece com obras suspensas enquanto são realizadas perícias técnicas. Com área prevista de 186 mil m², estudos de referência utilizados pela CET apontam a estimativa de cerca de 3.348 veículos/dia, com pico aproximado de 1.674 veículos por hora no período da tarde.
Outro projeto de grande escala é o Reserva Raposo, previsto para a região do km 18. O complexo poderá concentrar cerca de 80 mil pessoas quando estiver plenamente ocupado.
Ampliar rodovias resolve o trânsito?
O debate sobre o projeto Nova Raposo envolve também um fenômeno conhecido no planejamento urbano como demanda induzida: quando uma via ganha mais capacidade, o deslocamento de carro tende a se tornar mais atrativo, o que pode gerar aumento no número de veículos ao longo do tempo.
Antes da proposta atual de concessão, o DER chegou a desenvolver estudos juntamente com o município para reorganizar o trecho entre os quilômetros 21 e 30. O projeto acabou sendo engavetado com a mudança na política estadual de privatizações. O projeto atual, o “Nova Raposo” prevê intervenções severas e implantação de pedágios eletrônicos no sistema free flow.
Estudo técnico indica que obras não resolveriam congestionamento
Esse novo projeto também passou a ser analisado pelo Ministério Público de São Paulo após representação do movimento “Nova Raposo, Não!”. O MP ingressou com Ação Civil Pública pedindo a suspensão da concessão. A avaliação técnica, feita pelo Centro de Apoio à Execução (CAEX), órgão especializado do MP, concluiu que as obras previstas não resolveriam o problema estrutural de congestionamento da rodovia. Simulações de tráfego indicam que, mesmo após as intervenções propostas, trechos da rodovia continuariam operando em níveis de serviço D e E, em uma escala que vai de A (fluxo livre) a E (congestionamento intenso). O relatório também aponta lacunas nos estudos ambientais e a falta de política apropriada para as centenas de desapropriações previstas.
O desgaste do trânsito no cotidiano
A percepção de agravamento do trânsito aparece com frequência nos relatos de moradores. A empreendedora Stella Wilderom, criadora do projeto Granjeiras, que reúne iniciativas de empreendedorismo e maternidade na Granja Viana, afirma: “Faço esse caminho há mais de 20 anos. Sempre teve trânsito, mas virou um caos. Já levei uma hora e meia para um percurso que em um sábado você faz em vinte minutos. Nos grupos de moradores aparecem relatos de pessoas que perderam emprego ou receberam advertências por causa dos atrasos.”
Transporte coletivo no centro do debate
Para muitos moradores da região, a discussão sobre a Raposo Tavares precisa ir além da ampliação da rodovia e incluir soluções estruturais de transporte coletivo. Entre as propostas citadas estão corredores com faixas exclusivas para ônibus, a implantação de um BRT (Bus Rapid Transit) — sistema de ônibus de alta capacidade, com estações e embarque em nível, semelhante ao modelo adotado em cidades como Curitiba e Bogotá. Outra alternativa discutida é o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), um sistema ferroviário urbano de média capacidade, geralmente implantado em corredores urbanos e com menor custo de implantação que o metrô.
Além disso, lembram da importância da integração com a rede ferroviária existente. Cidades próximas como Itapevi e Carapicuíba já são atendidas pela Linha 8-Diamante da CPTM, que conecta a região ao centro da capital.
Também é frequentemente mencionada a futura Linha 22-Marrom do metrô, projetada para ligar Cotia a São Paulo. A proposta é vista como uma solução definitiva para reduzir a dependência da rodovia.
Iniciativas da própria comunidade
Enquanto soluções estruturais avançam lentamente, moradores da região também buscam alternativas para reduzir o número de carros na rodovia.
Uma dessas iniciativas é o Caronetas, grupo de caronas solidárias criado por participantes do movimento Transition Granja Viana. O sistema funciona atualmente por indicação entre participantes, que combinam trajetos semelhantes. Entre as sugestões, está a possibilidade de a iniciativa ser encampada pelo poder público municipal, com cadastro oficial de usuários, divulgação institucional e desenvolvimento de um aplicativo integrado aos sistemas Smart Cotia e Smart São Paulo, ampliando segurança e alcance do projeto.
Reunião no MP mantém debate aberto
Na quarta-feira (04/03), representantes do Movimento Nova Raposo, Não! se manifestaram em frente ao prédio do MP, onde uma reunião entre a Ecovias e Cetesb, junto com o CAEx, aconteceu. Além das críticas em relação à ausência de participação popular nessas reuniões técnicas, alegam que o debate sobre o projeto não deveria se limitar ao licenciamento ambiental, mas incluir também questões de transparência, participação pública e análise dos estudos de mobilidade apresentados.
Enquanto obras, projetos e ações judiciais seguem em discussão, os episódios recentes mostram que o futuro da mobilidade na Raposo Tavares continua em aberto.
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