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Dia da Árvore: o que uma árvore diria sobre o desmatamento em Cotia?

23/09/2026


Mauricio Orth


Da rede subterrânea de fungos de uma Angá-Ferro ao tempo de uma Araucária e à capacidade de regeneração da Embaúba, três árvores ajudam a contar as histórias de um território em transformação.

Uma floresta é feita de relações.

Uma árvore não existe sozinha. Depende do solo, da água, dos fungos, dos animais e de outras plantas. Quando uma árvore desaparece, portanto, não desaparece apenas um tronco da paisagem. Parte dessa rede é afetada.

Na semana em que o Brasil — o único país do mundo cujo nome é uma árvore — comemora o Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, vale fazer uma pergunta diferente: o que algumas árvores diriam se pudessem contar o que está acontecendo em Cotia?

Em março deste ano, a Prefeitura anunciou a adesão ao Brasil M.A.I.S., sistema do Ministério da Justiça que utiliza imagens de satélite e inteligência artificial para monitorar o território. 27 áreas haviam sido apontadas em Cotia pela Polícia Federal com indícios de supressão de vegetação ou outras irregularidades, com um preocupante crescimento nas regiões próximas ao Morro Grande.

Em uma reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Agropecuária (CMAA), a Secretaria de Meio Ambiente informou ter negado, em 2025, 743 pedidos de supressão de vegetação. Também mencionou que 1.216 autorizações, concedidas pela administração anterior entre outubro e dezembro de 2024, seriam reavaliadas.

Enquanto isso, o cenário nacional traz uma informação aparentemente contraditória. O Atlas da Mata Atlântica registrou, em 2025, a menor área de supressão de floresta madura em 40 anos, 40% menos que no ano anterior.

Mas a própria SOS Mata Atlântica chama atenção para uma mudança no padrão: os fragmentos de vegetação estão cada vez menores e os alertas de desmatamento registram muitas perdas em áreas de vegetação jovem ou em regeneração. O dado nacional diz que o passado está sofrendo menos, mas que o futuro está sendo comprometido. Porque floresta não é apenas uma grande mancha verde vista de cima.

É uma rede. De espaço e de tempo.


ANGÁ-FERRO

“Eu não estou sozinha — Estou aqui para dizer que a rede é vital. Debaixo de mim existe uma imensa rede de fungos. Minha relação com eles é simbiótica e ajuda a conectar minhas raízes às de outras árvores. Por essa rede, plantas podem trocar nutrientes, água e sinais químicos.”

E talvez nenhum lugar de Cotia mostre melhor essa ideia do que o território do Parque das Nascentes. A área, que hoje integra o núcleo Imperiópolis, reúne cerca de 1 milhão de metros quadrados e mais de 3.600 famílias. Ali, preservação ambiental e direito à moradia se encontram — e nem sempre de forma tranquila.

No início de setembro, o Site da Granja esteve no campus Osasco da Unifesp para acompanhar uma reunião do projeto Guardiões do Território, que reuniu moradores e representantes do Município, Legislativo, Judiciário e universidade.

O encontro discutiu a criação de um grupo de trabalho articulado pela Defensoria Pública para tratar de regularização fundiária, educação ambiental e recuperação do Parque das Nascentes, garantindo também a permanência das famílias. É uma tentativa de tratar como uma única questão aquilo que, durante muito tempo, foi tratado separadamente: pessoas, território e floresta, muito embora o Site da Granja não tenha encontrado quem representasse essa última nesse encontro.

ARAUCÁRIA

"Vocês falam de rede. Eu venho lembrar que ela também atravessa o tempo. Minha linhagem é muito antiga. Meus ancestrais já existiam quando Gondwana ainda reunia terras que hoje estão separadas pelos oceanos. Em Cotia, sobrevivo em pequenos refúgios, como os que ainda existem na região do Morro Grande. Meus pinhões causam. Além de mover a economia, minha presença oferece alimento, abrigo e continuidade. O que faço não termina em mim. Talvez por isso eu olhe de outra maneira para o que vocês chamam de desenvolvimento.”

No km 26 da Raposo Tavares, uma área de cerca de 800 mil metros quadrados foi destinada a um grande empreendimento logístico da Prologis. Depois de embargos e disputas judiciais e urbanísticas, a obra permanece parada. Congelada no tempo.

“Eu, uma árvore que carrega uma história de milhões de anos, conheço bem a diferença entre uma coisa estar parada e uma coisa estar apenas esperando. O tempo da floresta é outro.”


EMBAÚBA

“Já eu não gosto de ficar parada. Quando a floresta sofre, sou uma das primeiras a chegar. Sou pioneira. Cresço rápido em áreas abertas, ofereço alimento e abrigo para a fauna e ajudo a criar sombra e condições para que outras espécies possam crescer. Não faço tudo sozinha. Nenhuma árvore faz. Minha função é começar a regeneração. Eu sei começar de novo. Mas como regenerar uma floresta quando uma faixa precisa permanecer aberta para sempre?”

E é justamente por isso que talvez seja preciso olhar para o futuro de Cotia.

O OBAPI é um oleoduto que interligará Barueri e Cubatão. O Site da Granja teve acesso à versão mais recente do seu EIA/RIMA, no qual o traçado está mais definido. Em Cotia, ele passa ao norte do Parque Estadual do Morro Grande, raspando na região da Vila Operária do DAE e muito próximo ao Sítio do Padre Inácio. A obra ainda está em licenciamento.

O projeto prevê uma faixa de servidão de 20 metros — 10 metros para cada lado da tubulação — que precisa permanecer disponível para operação e manutenção. Para uma árvore, é uma faixa que deixa de ser floresta para sempre.

E existe ainda o risco inerente a uma infraestrutura que transportará combustíveis: vazamentos e acidentes, inclusive aqueles provocados por intervenções clandestinas na tubulação, riscos que precisam ser considerados.

É uma infraestrutura pensada para transportar combustíveis fósseis. Mas o futuro climático exige justamente o contrário: não existe outro caminho para conter o aquecimento global senão abandonar progressivamente a dependência desses combustíveis.

Talvez seja essa a pergunta que a embaúba faria:

“Se o futuro precisa de espaço para nascer, por que continuar construindo para o passado?”

O OBAPI é uma obra do futuro já fadada ao passado. E, enquanto o oleoduto ainda está no papel, uma árvore pode estar começando a crescer.

Uma árvore nunca é apenas uma árvore.

Ela guarda o passado no tronco, mantém uma rede invisível sob o solo e oferece ao futuro um lugar para começar.

Talvez seja isso que esteja em jogo em Cotia: manter-se em rede, resguardar sua história e possibilitar seu futuro. As árvores estão aqui para ensinar.


(baseado em um post do Instituto Terra Luminous, onde tive a honra de trabalhar - M.O.)


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