21/01/2026
Janeiro, mês dedicado à saúde mental, foi marcado por dois episódios trágicos que abalaram a comunidade da Granja Viana e acenderam um alerta importante sobre a necessidade de falar, com responsabilidade e empatia, sobre o suicídio.
No início do mês, Neide, de 60 anos, teve a morte registrada na região da Granja Viana, nas proximidades do km 22 da Rodovia Raposo Tavares. Mais recentemente, no último domingo, Cristiane, foi encontrada sem vida em um parque da Granja Viana. Nossos sentimentos aos familiares, amigos e a todos que conviviam com Neide e Cristiane.
O assunto não é agradável, mas a experiência de quem sofre é infinitamente pior. Por isso, é preciso falar, sim, sobre suicídio, pensar nele, entender suas causas e, principalmente, buscar caminhos de cuidado e prevenção. Ainda mais em um contexto global de crise, agravado nos últimos anos pela pandemia da Covid-19, que ampliou sentimentos de incerteza, isolamento e sofrimento emocional.
Segundo a psicóloga e colunista do Site da Granja, Iana Ferreira, não existe uma causa única que leve uma pessoa ao suicídio. “Uma depressão, por mais grave que seja, não necessariamente leva alguém a esse desfecho. O que normalmente se observa é uma combinação de fatores individuais, sociais, familiares e coletivos”, explica Iana.
Entre esses fatores, costuma aparecer a associação dos chamados 4Ds: Depressão, desesperança, desamparo e desespero. Também são frequentes a impulsividade e a agressividade, muitas vezes voltadas contra si mesma. O uso de álcool e drogas, dificuldades financeiras, vulnerabilidade social, isolamento afetivo e falta de perspectivas futuras ampliam significativamente o risco.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, a cada 40 segundos, uma pessoa morre por suicídio no mundo. Cerca de 80% das vítimas são homens, e o dado mais impactante: aproximadamente 90% dos casos podem ser evitados.
É importante compreender que pensar na morte em momentos de sofrimento não é, por si só, ideação suicida. Esses pensamentos podem surgir como uma expressão da dor humana. A ideação suicida se caracteriza pela fixação do pensamento de querer se matar, com aumento de frequência e intensidade. Essa é considerada a primeira etapa do caminho que pode levar ao suicídio e, por isso, exige atenção imediata.
Quando a ideação começa a aparecer, buscar ajuda não é opção, é necessidade — seja para si mesmo, seja para alguém próximo. Um dos maiores obstáculos nesse processo é a sensação de impotência ou, ao contrário, a crença de que é possível resolver tudo sozinho. Soma-se a isso o preconceito, que associa o desejo de morrer à fraqueza ou à tentativa de chamar atenção, o que dificulta ainda mais o pedido de ajuda.
Segundo estudos, dois terços das pessoas que cometem ou tentam suicídio verbalizam sua dor ou dão sinais claros. Outros sinais, mais sutis, também devem ser observados: mudanças bruscas de comportamento, isolamento, alterações no sono e na alimentação, irritabilidade, agitação, aumento do consumo de álcool ou drogas e relatos persistentes de tristeza e angústia.
Falar sobre suicídio não incentiva, ao contrário: salva vidas. Se você perceber expressões de sofrimento como “não tenho jeito”, “sou um peso”, “não faz sentido continuar vivendo”, é fundamental abordar a questão com cuidado e franqueza, perguntar como a pessoa está se sentindo e se há pensamentos de morte. O mesmo vale para quem percebe esses pensamentos em si: falar é um ato de coragem.
O suicídio está profundamente associado ao sofrimento humano. Quando esse sofrimento é reconhecido e cuidado a tempo, histórias que caminham para a dor podem ser transformadas. Os episódios ocorridos na Granja Viana não devem ser tratados apenas como estatísticas, mas como um chamado coletivo à escuta, ao acolhimento e à responsabilidade com a saúde mental da nossa comunidade.
CVV – Centro de Valorização da Vida
188 – atendimento gratuito, 24 horas por dia (telefone, chat, e-mail e Skype)
SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
192 – para emergências e tentativas de suicídio
As reflexões que embasam este conteúdo contam com a contribuição da psicóloga Iana Ferreira, colunista do Site da Granja, formada em musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes e em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Para Iana, “a palavra, escrita ou falada, é também um grande instrumento – por tudo o que revela e pelo que, muitas vezes, tenta ocultar”, reforçando a importância de nomear o sofrimento, falar sobre ele e buscar ajuda como caminhos possíveis de cuidado e prevenção.
Mais informações e textos da autora podem ser encontrados em entretexto.com.
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