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Resíduos verdes expõem falhas na limpeza urbana em Cotia

22/04/2026


Mauricio Orth

Acúmulo de galhos, falhas na coleta e reaproveitamento limitado revelam impactos diretos do modelo de limpeza urbana, hoje questionado na Justiça.

O problema que aparece na rua

Em 17 de abril de 2026, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo apontou irregularidades no contrato de limpeza pública de Cotia e recomendou sua interrupção, indicando problemas na forma como o serviço foi estruturado e vem sendo executado. A decisão foi encaminhada à Câmara Municipal.

Mais do que um debate jurídico, esse questionamento atinge outro problema. Além da “fila” de contratos que sempre estão envoltos em polêmica, seja no Transporte, na Saúde e Educação, temos também questionamento na coleta de lixo. Mais que o óbvio problema causado pela interrupção da coleta, temos uma outra questão: A política do Município em relação ao manejo do chamado resíduo verde:

Em Cotia, não é raro se ver galhos acumulados em calçadas, restos de poda abandonados e dificuldades de descarte deixaram de ser situações pontuais. Eles se tornaram um padrão visível — e, cada vez mais, um indicativo de um problema maior. O que se vê não é apenas a poda de árvores, mas a forma como a cidade organiza a coleta e destinação dos resíduos que ela própria gera. 

O contrato de limpeza urbana

O que o contrato define é  toda a operação da limpeza urbana no município. Na prática, cabe à empresa concessionária coletar, transportar e garantir a destinação final ambientalmente adequada dos resíduos urbanos. Os resíduos verdes — ainda que nem sempre tratados como categoria própria — estão inseridos nesse fluxo. Ou seja: o destino dos galhos e restos de poda depende diretamente da execução desse contrato.

Quando o sistema falha, o resíduo aparece

Se há falhas contratuais ou operacionais, o impacto é imediato. Galhos permanecem nas ruas, o descarte irregular aumenta e o reaproveitamento praticamente não acontece. O que parece um problema pontual é, na verdade, um sintoma estrutural.

Onde entram as podas da Enel

A Enel São Paulo atua quando a vegetação interfere na rede elétrica, realizando podas técnicas dentro da faixa de segurança. O volume dessas intervenções para esse ano promete ser significativo.

O plano para 2026 prevê investimento estimado de R$ 60 milhões em Cotia, com cerca de 60 mil podas ao longo do ano. Mais de 6 mil intervenções já foram feitas apenas em janeiro. Essas ações são essenciais para o sistema elétrico e o aumento das podas amplia também o volume de material gerado. Sem coleta eficiente e destinação adequada, o resultado é previsível: mais resíduos nas ruas e maior pressão sobre um sistema já fragilizado. Vale ficar de olho.

Quando o resíduo vira recurso  - Da prática local à solução possível

Apesar das falhas estruturais, há exemplos de que outro caminho é possível. O Viveiro Municipal Curupira vem desenvolvendo um trabalho de reaproveitamento desses materiais. No local, os resíduos são triturados, utilizados em compostagem e reintegrados ao ciclo ambiental. À frente das atividades está Alan Gianetti, que conduz um modelo experimental de reaproveitamento.

“A gente tritura tudo. Isso vira base para compostagem e cultivo.”

Além da trituração, o viveiro vem combinando o material vegetal com matéria orgânica de origem animal, como esterco equino, formando compostos mais ricos em nutrientes. O espaço também aplica técnicas como a Hügelkultur, técnica alemã que permite a liberação gradual de nutrientes a partir da decomposição da madeira. 

Da prática local à solução possível

Esse processo permite a criação de diferentes tipos de substrato, utilizados tanto na produção de mudas quanto distribuídos à população. A proposta é simples: transformar o resíduo em recurso útil. Moradores já procuram o local para retirada de mudas e orientação, embora o recebimento de resíduos esteja temporariamente suspenso.

O que falta: escala e integração

A experiência do viveiro mostra que a questão pode ser resolvida. Mas, sem integração com o sistema de limpeza urbana, sem previsão contratual específica para resíduos verdes e sem uma garantia operacional do Viveiro para a entrega, o reaproveitamento continua limitado.

O que fazer com os resíduos verdes — e onde buscar apoio

Diante de um sistema que ainda apresenta falhas, parte da solução também passa pelo comportamento individual.

Há espaço para reaproveitamento. Em casas e condomínios, folhas, grama e pequenos galhos podem ser utilizados em compostagem, transformando o resíduo em adubo. 

 O que não fazer 

Por outro lado, algumas práticas devem ser evitadas. O descarte em vias públicas, terrenos ou áreas verdes é irregular. Misturar resíduos de poda ao lixo comum dificulta a coleta e impede o reaproveitamento. E a queima desse tipo de material — além de proibida — traz riscos ambientais e à saúde.

O Viveiro Municipal Curupira também funciona como ponto de apoio e orientação à população.

Endereço: Av. Benedito Isaac Pires, 1105 – Parque Dom Henrique

Funcionamento: segunda a sexta, das 08h às 17h

Doação: até 5 mudas por morador (com RG e comprovante)

Contato: (11) 4148-2718


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