05/12/2025
Mauricio Orth
Rede liderada pelo pastor atende mais de 230 pessoas em situação de rua e dependência química; trabalho mistura fé, estrutura, política pública e uma vida inteira dedicada a restaurar histórias
Um vazio, uma pergunta — e um chamado
Antes de liderar uma rede de acolhimento, ser referência em recuperação e assistência social, coordenar quatro unidades e mais de 230 acolhidos, Fabrício era apenas um jovem inquieto. Cresceu em uma família estruturada, com carinho e boas condições. Nunca lhe faltou nada. E foi justamente nesse cenário confortável que nasceu um incômodo profundo.
“Eu tinha tudo, e muitos não tinham nada. Isso me doía. Era um buraco dentro de mim”, recorda.
A aparente estabilidade convivia com um vazio existencial difícil de nomear. Na adolescência, envolveu-se com drogas. Com o tempo e muita luta, esse incômodo deixou de ser dor e se tornou direção. E a direção virou propósito.
Foi assim que Fabrício encontrou sua missão: acolher pessoas para quem a vida havia fechado portas — homens e mulheres em situação de rua, dependentes químicos, pessoas sem vínculos familiares, abandonados pela rede de apoio e, muitas vezes, pela própria esperança.
Do improviso à estrutura: quando a burocracia vira virada
O trabalho começou pequeno. Em 2009, Fabrício e sua equipe prepararam 30 marmitas para entregar em Cotia e Caucaia. Logo descobriram que eram poucas. A realidade da rua se impunha: o problema era maior do que parecia.
A primeira casa de acolhimento surgiu pouco depois — simples, improvisada, cheia de boa vontade e pouco recurso. Ela cresceu e a boa intenção, no entanto, não foi suficiente para evitar a primeira grande queda: a interdição da casa por falta de regularização. Foram 22 meses de reformas, adequações e exigências até conquistar todos os alvarás. Em 2016, a casa pôde reabrir. E, com a documentação correta, surgiu a possibilidade de concorrer a editais. Em 2018 veio o primeiro edital federal aprovado. Logo depois, o convênio com a Prefeitura de Cotia. Era a estrutura finalmente encontrando o propósito.
A pandemia que fechou portas — e abriu outras
A chegada da Covid-19 agravou ainda mais a situação de rua e provocou recaídas generalizadas em dependentes químicos. “Para quem está em recuperação, o isolamento não faz bem”, explica. Mas foi justamente na pandemia que o projeto deu um salto gigantesco: a aquisição da antiga Hebron, um acampamento presbiteriano com chalés para até 96 pessoas. A propriedade permitiu implantar corretamente os protocolos de isolamento — que até então eram feitos na casa da mãe do pastor, cedida espontaneamente. E foi essa mesma casa, cheia de memórias familiares, que se transformou na unidade feminina.
A rede que hoje acolhe 230 vidas
Casa Refúgio (Caucaia)
Núcleo terapêutico para dependentes químicos — homens e mulheres.
Capacidade: 70 pessoas.
Atendimento biopsicossocial: alimentação, higiene, saúde, psicologia, oficinas, alfabetização, reinserção social.
Unidade Hebron (Caucaia)
Acolhimento para pessoas em situação de rua.
Capacidade: 90 pessoas.
Modelo em chalés, rotina organizada, reestruturação de vínculos.
Casas de Apoio
Pós-acolhimento para quem está retomando autonomia.
Duas unidades, cerca de 26 vagas.
Unidade Feminina
Instalada na antiga casa da mãe do pastor.
Capacidade: 22 mulheres.
Sempre lotada — poucas instituições regulares atendem esse público.
Casa de Passagem (Cotia – desde setembro/2024)
Atende pernoite de pessoas em situação de rua.
Pela manhã, quem deseja tratamento é encaminhado para Caucaia.
Mais de 60 atendimentos nos primeiros meses.
Somando tudo: aproximadamente 230 vidas acolhidas diariamente.
Um caminho sempre voluntário
Todos os acolhimentos são voluntários.
“A decisão precisa ser da pessoa. Não existe contenção física. Para isso seria necessária estrutura hospitalar”, explica Fabrício.
O tempo recomendado de permanência é de seis meses — mas a equipe ajusta conforme as necessidades individuais, sem ultrapassar o limite legal para evitar institucionalização. O resultado é visível: retomadas familiares, reconciliações, reinserção no trabalho e até histórias de amor.
“Nesse fim de semana celebrei o casamento de um casal que se conheceu no projeto. Já temos quase 20 casamentos assim.”
Vida pessoal e missão: quando tudo se mistura com naturalidade
A missão não é um trabalho — é um modo de existir. A igreja acolheu moradores de rua quando a primeira casa foi interditada. A casa da mãe virou unidade feminina. Ex-acolhidos viraram colaboradores, coordenadores, amigos. E o pastor não tenta separar essas esferas.
Como a comunidade pode ajudar
As parcerias públicas são fundamentais, mas não cobrem todas as despesas. Para sustentar centenas de refeições diárias, oficinas, transporte, itens de higiene e manutenção, o projeto depende amplamente da solidariedade local.
A porta de entrada pelo serviço público
No caso de pessoas em situação de rua, as entradas oficiais são:
A mensagem de fim de ano: “tem jeito”
Ao final da entrevista, o pastor Fabrício hesita antes de falar. Não por falta de palavras — mas por cuidado.
“Eu tenho medo de ser inconveniente. O amor não se porta de maneira inconveniente”, diz.
Ele sabe que a instituição precisa — sempre precisa. Mas prefere falar para quem está no limite, para quem já tentou tudo, para quem acha que não tem mais saída:
“Eu queria que quem está perdido nas drogas, ou quem está vendo alguém da família sofrer, entendesse: tem jeito. Com a gente ou em outro lugar, tem jeito. Não desista.”
E, sobre o Natal, ele resume com simplicidade:
“Amar a Deus é subjetivo. Mas amar o próximo é concreto. Se eu não amo quem vejo, é impossível amar a Deus. O verdadeiro Natal é a prática do amor.”
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