28/08/2026
Há uma matemática silenciosa em toda tecelagem. Urdume e trama se cruzam segundo uma ordem precisa; tensões, ritmos e sequências transformam fios em superfície.
No trabalho de Carlos Ramalho, essa lógica encontra ressonância em sua formação como engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Cálculo, proporção e estrutura atravessam sua maneira de construir, mas, diante do tear, abrem espaço para a intuição, a matéria e o gesto.
É esse universo que poderá ser conhecido de perto durante o Atelier Aberto, que acontece nos dias 12 e 13 de setembro, na Granja Viana. A exposição, com curadoria de Rachel Oshino, convida o público a entrar no espaço onde casa, ateliê e jardim formam um mesmo território.

O interesse de Ramalho pela arte têxtil nasceu ainda na juventude, durante viagens pelo interior do Brasil, e se aprofundou a partir dos anos 1980, quando passou a estudar diferentes tradições da tecelagem e da tapeçaria, entre elas Gobelin e Aubusson.

Ao longo das décadas, construiu uma linguagem própria e participou de exposições e intercâmbios no Brasil e no exterior. Entre 1995 e 1996, integrou A View of Today’s Brazilian Textile Art, apresentada no Museu Rundetarn, em Copenhague, e no Museu Nacional do Traje, em Lisboa. Em 1998, sua atuação no intercâmbio entre artistas têxteis brasileiros e dinamarqueses culminou na exposição Fio-2-Brasil — Arte Têxtil da Dinamarca, no MASP.

O trabalho de Ramalho começa antes do tear. Fiar, tingir e escolher a matéria fazem parte do processo. A lã merino é fiada à mão, as cores são preparadas pelo próprio artista e lãs e sedas são selecionadas pelas características que poderão imprimir a cada obra.
Desenhos e estudos orientam a construção, mas o planejamento é apenas o começo. Durante o ato de tecer, a própria matéria participa das decisões e o trabalho encontra novos caminhos.
Na casa-ateliê da Granja Viana, teares, meadas, novelos, pentes e rocas convivem com a vegetação da Mata Atlântica que envolve o espaço. É desse cotidiano, entre natureza, matéria, música e silêncio, que nasce grande parte de sua produção.

Entre os trabalhos apresentados está Verde de Muitas Cores, série inspirada na paisagem que cerca a casa-ateliê.
A Mata Atlântica, que à primeira vista parece uma extensa massa verde, revela, quando observada com atenção, uma infinidade de tons, luzes e sombras. Essa percepção é traduzida por Ramalho em fios de diferentes cores e texturas.
A paisagem não é simplesmente reproduzida, mas reinventada pela linguagem têxtil. Verdes amarelados, azulados e profundos encontram ocres, marrons, vermelhos e pequenas interferências cromáticas. A lã confere corpo à superfície, enquanto a seda captura a luz e cria brilhos que se transformam conforme o olhar se movimenta.
A natureza oferece o impulso; o artista a observa e a traduz pela matéria.
No Atelier Aberto, o público terá a oportunidade de conhecer não apenas as obras, mas também o ambiente onde elas são concebidas e produzidas — um encontro entre arte, natureza, técnica e tempo, bem no coração da Granja Viana.
Fotos: @michelcutaithfotografo
12 e 13 de setembro
Das 10h às 17h
Rua Prof. Ana Nastari Bruneti, 196 – Granja Viana
Centrinho da Granja
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