20/01/2026
Mauricio Orth
Toda vez que ouvimos falar em crise hídrica, a reação costuma ser imediata: apreensão. A imagem que vem à cabeça é a da torneira secando, rodízio, a água faltando para as tarefas mais básicas do dia a dia.
Esse medo é compreensível — e real. Mas, hoje, a crise hídrica vai além da simples falta de chuva ou do risco imediato de desabastecimento. Ela envolve mudanças profundas no clima e como o poder público planeja e investe nesse setor.
Por conta dessas transformações, o Site da Granja propõe um novo olhar sobre o tema. Se o mundo mudou, o regime de chuvas mudou e as cidades cresceram, a forma de lidar com a água também precisa mudar.
É a partir dessa nova visão que esta reportagem analisa a crise hídrica em São Paulo, os cortes recentes em investimentos públicos e os impactos diretos para a Região Metropolitana — com atenção especial a Cotia, onde esses efeitos já fazem parte da rotina de uma parcela de sua população.
Por que chover forte não resolve a crise
Durante muito tempo, era sabido que bastava um verão chuvoso para garantir água ao longo do ano. Esse raciocínio não funciona mais. Hoje, as chuvas estão mais fortes e concentradas e acontecem com menos frequência. Em vez de chover aos poucos por vários dias, chove muito em poucas horas e depois o tempo seca por semanas. Ver chuva em abundância por alguns dias não significa segurança hídrica ao longo do ano.
Segurança hídrica vai além da torneira
E segurança hídrica não significa apenas evitar falta d’água. Ela envolve garantir quantidade e qualidade, proteger mananciais, reduzir enchentes e planejar o uso da água em períodos de escassez. Trata se de lidar tanto com a falta quanto com o excesso de água.
Menos investimento quando o risco aumenta
Apesar do cenário crítico, o orçamento do Estado de São Paulo para ações de segurança hídrica sofreu um corte de cerca de 35% em 2026. O valor caiu de aproximadamente R$ 2,1 bilhões para R$ 1,37 bilhão, mesmo com crescimento do orçamento geral do Estado. Isso indica uma redução de prioridade, e não falta de recursos. Os cortes atingiram áreas estratégicas:
São obras de reforço no abastecimento que não serão feitas, proteções de mananciais desconsideradas, menos sistemas de drenagem implantados e menor combate a enchentes. Tudo isso ocorre quando os níveis dos reservatórios estão muito próximos aos registrados na crise de 2014 a 2016.
Perspectivas: investir melhor para produzir mais água
E não é só isso. Diante desse “novo normal”, não basta investir mais: é preciso investir melhor. Além do “feijão com arroz” da gestão hídrica, como manutenção de sistemas e obras tradicionais, o poder público deveria apostar em pesquisa e inovação. Um exemplo é a recarga artificial de aquíferos, que consiste em infiltrar no solo água da chuva ou efluentes tratados de forma controlada. O subsolo funciona como uma grande caixa-d’água natural, protegida da evaporação. Esse tipo de solução poderia aumentar a produtividade da reposição de água, aproveitando melhor cada período chuvoso e reduzindo perdas.
isso poderia reduzir a dependência exclusiva de represas, bem como transformar chuvas intensas em oportunidade. Além disso, aliviaria sistemas de drenagem e poderia integrar saneamento, meio ambiente e abastecimento de outra forma.
A questão em Cotia
O município depende do sistema metropolitano, está próximo de áreas de mananciais e pode sofrer tanto com a escassez quanto com alagamentos. Quando o Estado reduz investimentos, os impactos aparecem primeiro em cidades da periferia metropolitana, que têm menos autonomia e menor capacidade de resposta. Mas Cotia também traz uma lição.
Árvores: onde a água começa
Quando se fala em crise hídrica, o debate costuma girar em torno de represas, rios e estações de tratamento. Há no entanto um elemento decisivo que antecede tudo isso: as árvores. Em sistemas geradores de água, preservar e plantar árvores é a ação mais eficiente que existe. As árvores atuam de várias formas ao mesmo tempo. Suas raízes estruturam o solo, aumentam a porosidade e permitem que a água da chuva infiltre em vez de escorrer rapidamente pela superfície. Esse processo é essencial para a recarga dos lençóis freáticos e para manter rios e córregos com vazão constante mesmo em períodos de estiagem.
Outro papel é a evapotranspiração. Árvores de grande porte podem transpirar mais de mil litros de água por dia, devolvendo umidade à atmosfera. Esse vapor contribui para a formação dos chamados “rios voadores”, que influenciam o regime de chuvas no Sudeste e em outras regiões do país. Ou seja, a floresta não apenas recebe melhor a água: ela ajuda a produzir chuva.
A árvore protege o solo contra erosão, evita o assoreamento de rios e age como um filtro natural, melhorando a qualidade da água e reduzindo a quantidade de sedimentos que chegam aos mananciais. Em eventos de chuva intensa, a serapilheira — folhas e matéria orgânica acumuladas no chão — funciona como uma esponja, absorvendo e liberando a água aos poucos, ajudando a reduzir enchentes.
A presença de árvores ao redor de nascentes é igualmente crucial. Elas garantem sombra, estabilidade do solo e proteção contra impactos extremos, evitando que essas fontes sequem ou sejam degradadas.
Cotia como exemplo positivo
Nesse ponto, Cotia se destaca: O Sistema Produtor Alto Cotia só funciona porque cerca de um terço de seu território é coberto por Mata Atlântica preservada. É o Parque Estadual do Morro Grande. Esse maciço florestal garante infiltração, proteção de nascentes e qualidade da água captada, reduzindo custos de tratamento e aumentando a segurança do sistema.
Em um cenário de mudanças climáticas, esse patrimônio ambiental deixa de ser apenas uma simples paisagem, e passa a ser infraestrutura hídrica estratégica. E se você acha que água é um produto, a floresta funciona como uma verdadeira fábrica hídrica, regulando quantidade, qualidade e regularidade da água. Isso no subsolo, na superfície e na atmosfera.
Chove diferente. O risco aumentou. O investimento diminuiu.
A crise hídrica em São Paulo não é apenas climática. Ela resulta da combinação entre um novo regime de chuvas, modelos antigos de gestão e redução de investimentos públicos. Para Cotia, entender esse cenário é essencial e aqui, em mão dupla: tanto para se consumir como para se prover.
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