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Crônicas de Sonia Marques

O filho da doméstica e as coisas que o dinheiro não paga

14/03/2024




Alameda Rio Negro, Alphaville, bairro nobre de Barueri. Os carros que circulam pela alameda quase sempre custam no mínimo 150 mil reais.

Eu no ponto de ônibus com a Bia. Ao nosso lado duas mulheres tagarelavam o tempo todo, falavam de pandemia, do trânsito, do ônibus que não passava nunca, do calor que tinha voltado, da rotina na casa das patroas, dos filhos…

Eu e Bia depois de termos gastado uma pequena fortuna numa padaria para quebrar o desjejum pós consulta na nutricionista, além de ouvir a conversa alheia – até porque era impossível não ouvir, também tagarelávamos enquanto observávamos os acontecimentos ao nosso redor: os carrões que quase nunca paravam na faixa para os pedestres, motoristas que se irritavam com tudo e todos, play boys passando em alta velocidade, “gente fina elegante e sincera” de óculos escuros e roupa de grife passeando com seus shih-tzus, Labradores entre outros cãezinhos lindos com lacinhos,  perfumados e pedigree.

Com um gesto Bia me alerta para prestar (mais) atenção na conversa das mulheres em que uma delas contava, imagino eu que com muito orgulho, o caminho percorrido por seu filho e os sacrifícios feito pela família, para ele entrar na faculdade de Medicina.

Como bem sabemos o Curso de Medicina em uma faculdade pública é o mais concorrido do Brasil. Não é para qualquer um, sobretudo um jovem filho de doméstica aluno da rede pública. Para realizar o seu sonho o jovem frequentou um cursinho, com as notas do Enem conseguiu passar em Odontologia, Administração e mais algum outro curso que não foi audível, mas queria mesmo era Medicina. “Aí ele chegou pra mim e falou que deixasse ele fazer mais um ano de cursinho e no próximo ano ele iria entrar. E demos um jeito”, contou ela.

O garoto então, fez o cursinho e novamente o Enem e tirou 990 na redação!! U lá, lá!

Pronto, entrou no curso de seu sonho! Mas a batalha estava apenas começando. O primeiro livro que precisou comprar na faculdade custara R$ 2 mil e o pai parcelou em 10 vezes. Outros livros ainda viriam e talvez muitas e muitas prestações…“E pensar que a filha da minha patroa também faz Medicina e paga R$ 10 mil de mensalidade”.

O ônibus delas chegou. E a história terminou aqui.

Mas fiquei pensando em quanto deve ter sido importante para essa humilde senhora ter o filho cursando o mesmo curso que a filha da patroa. Fiquei pensando no orgulho dessa mãe que enchia a boca para contar a história de determinação de seu filho e de toda família. Fiquei pensando em quantos jovens e quantas famílias não conseguem realizar seus sonhos porque vivemos em um país desigual e injusto.

Chegou o nosso ônibus. Entramos, passamos a catraca, R$5,45 cada passagem. Sentamos. E seguimos nossa prosa que se misturou com tantas outras que de vez em quando era interrompida pelos personagens do lado de fora: o Chaves que panfletava para uma loja, o Supermam anunciando uma promoção e centenas de milhares de anônimos que seguiam suas rotinas na movimentada avenida Inocêncio Seráfico a mais importante de Carapicuíba. E nossa viagem terminou na Raposo Tavares, a rodovia que já foi do amor.


Crédito da foto: Google



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Sonia Marques

*Sonia Marques, Jornalista, poeta e cronista. Sou apenas mais uma na multidão, com uma história parecida com a de tantas Marias e tantos Joãos. Sou cidadã em construção.

Essa e outras crônicas no blog reconversa.com.br

Fale comigo: contato@reconversa.com.br


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