17/09/2026
Mauricio Orth
As chuvas extremas que atingiram o município entre os dias 10 e 13 de setembro deixaram uma outra evidência além dos alagamentos, deslizamentos, casas atingidas e outros transtornos.
Após o dilúvio, o Site da Granja recebeu diversas mensagens de moradores relatando infiltrações, goteiras, entrada de água e problemas relacionados à drenagem em residências e empreendimentos.
Uma delas chamou a atenção: o caso de Ramon Souza, morador do Flórida Residencial, na Chácara Vista Alegre.
Ramon e sua família enfrentaram um problema que já havia aparecido anteriormente. Segundo ele, durante a última grande chuva, as goteiras se tornaram incontroláveis. Foi tanta água que os quartos ficaram sem condições de uso e a família precisou dormir na sala.
O caso não parece estar restrito a uma única unidade. O Site da Granja recebeu fotos e vídeos de pelo menos outras seis casas do mesmo condomínio, com registros de infiltrações, goteiras e mofo. Mas, afinal, trata-se de um problema de manutenção ou de uma deficiência na própria construção?
Manutenção ou problema construtivo?
A incorporadora responsável pelo empreendimento, a Adler, foi procurada pelo Site da Granja. Ela nega a existência de falha ou vício construtivo e atribui os problemas à “ausência de adequada manutenção periódica”. Em resposta enviada nesta quinta-feira (17), a empresa afirmou ter constatado em vistoria realizada em 14/08, a ausência de limpeza das calhas. Como evidência, a empresa encaminhou um vídeo que afirma ter sido produzido durante essa vistoria.
De acordo com a incorporadora, a sujeira teria provocado o entupimento da tubulação de escoamento das águas pluviais. Com a água represada, ocorreram as infiltrações. Ela afirma que o morador deve seguir o manual do usuário e solicitar ao condomínio o cumprimento das orientações previstas, principalmente em períodos de fortes chuvas.
Ramon contesta essa explicação. Segundo ele, antes das chuvas de setembro houve uma limpeza feita pelo condomínio e outra solicitada por ele a um prestador de serviço. Nessa quarta 16/09, um profissional contratado pelo morador esteve no imóvel e avaliou o telhado. Na análise apresentada à reportagem, após retirar muita água ainda represada, o técnico chamou atenção para a configuração da cobertura e da calha e explicou que ela favorece a entrada de água no espaço existente entre a laje e as telhas, se acumulando e provocando infiltrações.
A discussão, portanto, pode ser resumida a uma pergunta aparentemente simples: como um sistema deve se comportar durante uma chuva extrema? E essa pergunta talvez seja maior.
Quando a chuva encontra um território transformado
Uma chuva excepcional não cria um problema, ela revela uma fragilidade escondida. Uma calha e um sistema de escoamento podem funcionar adequadamente durante uma chuva convencional e não dar conta em um pico de vazão de água. O mesmo vale para o território.
Quando uma área é impermeabilizada, um terreno é movimentado, uma encosta perde vegetação ou um curso d’água recebe sedimentos, a maneira como a água circula muda. E Cotia tem diversos exemplos de conflitos relacionados justamente à essa transformação do território.
O Site da Granja já publicou diversas reportagens sobre relatos de entrada de lama em imóveis vizinhos e questões relacionadas à movimentação de terra e drenagem.
Em uma chuva extrema, a água está encontrando condições, estruturas e territórios modificados pelo ser humano — e a intensidade e frequência desses eventos estão aumentando.
Quando o território também vira risco
Cotia enfrenta ainda uma situação mais complexa: áreas onde a ocupação do solo ocorre de maneira irregular e sem a infraestrutura necessária. Um desses casos está na região do Parque das Nascentes/Imperiópolis, que há anos convive com ocupações e parcelamentos irregulares.
Moradores do entorno relatam ao Site da Granja que novas construções continuam surgindo na região, inclusive durante esse período de chuva intensa.
A retirada de vegetação e a movimentação de terra em terrenos inclinados podem deixar o solo mais vulnerável à erosão, contribuindo para o assoreamento nos cursos d’água. Em áreas instáveis, a ocupação sem planejamento também pode aumentar os riscos de deslizamentos de terra.
a Defensoria Pública anunciou nessa quarta, 16 a articulação de um grupo de trabalho envolvendo Prefeitura, Unifesp, Câmara Municipal, Ministério das Cidades e moradores, buscando conciliar a permanência das famílias com a recuperação ambiental da região. A situação de quem já vive nessas áreas não pode ser confundida, no entanto, com a abertura de novas frentes de ocupação.
Regularizar uma ocupação existente e impedir que novas ocupações continuem surgindo são problemas diferentes.
E se os parâmetros precisarem mudar?
De volta ao ponto de partida. Se eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes, talvez reforçar a fiscalização ou melhorar a resposta depois que o problema acontece não seja suficiente.
É preciso questionar se os próprios parâmetros utilizados para construir e transformar o território continuam adequados.
Um exemplo interessante vem do Japão. Em um país onde terremotos fazem parte da realidade, o risco sísmico foi incorporado às normas e aos parâmetros construtivos. A construção precisa considerar uma característica do território que não pode ser simplesmente ignorada.
Com o novo cenário climático, devemos ter uma nova forma de planejamento da cidade e das regras para novas construções?
Isso pode significar rediscutir dimensionamento de sistemas de drenagem, capacidade de escoamento em eventos extremos, impermeabilização do solo, preservação da vegetação, proteção dos cursos d’água e estruturas em área íngremes, para começar. Caso contrário, a cada chuva extrema a discussão continuará sendo feita depois que a água entrar.
O morador dirá que houve falha. A construtora dirá que faltou manutenção. O condomínio apontará suas responsabilidades. O poder público será chamado a intervir.
Talvez seja hora de mudar essa lógica. Enquanto não houver uma mudança efetiva capaz de reverter a elevação da temperatura média do planeta, eventos extremos certamente farão parte do cenário climático que as cidades terão de enfrentar.
A pergunta que fica para Cotia é: estamos construindo para o clima que tínhamos ou para o clima que já temos?
© SITE DA GRANJA. TELEFONE E WHATSAPP 9 8266 8541 INFO@GRANJAVIANA.COM.BR