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Metrô Terminal Cotia: onde Cotia pode renascer

08/09/2026


Mauricio Orth


Com previsão de 58,8 mil passageiros/dia, a futura estação representará a quarta maior movimentação da Linha 22 e poderá regenerar uma centralidade ao interligar o centro antigo, o terminal rodoviário e a metrópole.

Depois de deixar a futura Estação Portão, a Linha 22-Marrom segue em direção ao centro de Cotia. O percurso termina na futura Estação Terminal Cotia. É aqui que os fluxos de Cotia encontram a rede metroviária.  O estudo identifica um comportamento pendular na linha. No caso de Cotia, esse movimento começa principalmente no ônibus.

Segundo o EIA/RIMA, 63 linhas de ônibus atendem o entorno da futura estação: 30 intermunicipais e 33 municipais de Cotia.  E a importância dessa integração aparece claramente quando se espera que 84,2% dos embarques deverão ser realizados por passageiros que chegam de ônibus, a maior proporção de toda a Linha 22.

Ou seja, a Terminal Cotia não será apenas uma estação de alta demanda. Ela será o principal ponto de transferência entre a rede de ônibus já presente em Cotia e o sistema metroviário que poderá levar esses passageiros em direção à capital.

O Terminal Metropolitano de Cotia atende diretamente cerca de 40 linhas municipais e metropolitanas. O projeto prevê uma ligação subterrânea direta entre o terminal existente e o mezanino da nova estação.

Uma centralidade que já existe

A futura estação não chega a uma região carente de uma centralidade. Ao redor do terminal estão concentrados comércio e serviços, escolas, hospitais e equipamentos públicos. É também onde estão o centro antigo de Cotia, o Hospital infantil, o Teatro Municipal, o Mercado, o Ginásio, o Poupatempo e outras estruturas que atraem moradores de diferentes regiões.

O EIA/RIMA registra 12 unidades educacionais no entorno, além de dois hospitais que, juntos, somam 368 leitos.

Mas existe uma característica interessante: Apesar da concentração de atividades, a densidade populacional no raio de 600 metros da futura estação é de 30,9 habitantes por hectare.

Para se ter uma ideia, a Subprefeitura da Sé registrava aproximadamente 159 hab./ha em 2022. Isso não significa que Cotia deva reproduzir São Paulo. O dado ajuda a enxergar uma característica importante: há uma centralidade consolidada funcionando em uma área que ainda apresenta baixa densidade residencial.

Uma estação entre dois centros

A futura Terminal Cotia terá dois acessos. O Acesso A ficará junto à área principal da estação e ao terminal existente. Já o Acesso B será implantado entre as ruas Santa Teresa e Benedito Lemos Leite, aproximando a estação do “centro antigo”.

A diferença de altitude entre os dois pontos ajuda a explicar a solução. O acesso pela Benedito Lemos Leite estará cerca de 17,6 metros acima do nível da entrada pela Santa Teresa. Para vencer essa diferença, o projeto prevê escadas e quatro elevadores.

A posição dos acessos cumpre, portanto, uma função de aproximação: a estação poderá funcionar como uma dobradiça entre dois centros.

A estação então aproxima São Paulo, destino de boa parte do movimento pendular que deverá utilizar a Linha 22 e o centro antigo de Cotia, onde estão comércio, serviços, escolas, hospitais e equipamentos públicos.

Carros, bicicletas e a disputa pelo espaço

O projeto prevê 145 vagas de estacionamento de longa permanência, além de 8 vagas de parada rápida e um bicicletário com 100 vagas.

Não está prevista ciclovia junto à estação, devido às limitações viárias apontadas pelo estudo. Para os pedestres, estão previstas intervenções de ampliação e requalificação das calçadas.

Adensar sim, congestionar não

Há uma característica do território que merece ser vista como vantagem: Do outro lado da Raposo Tavares, a ocupação é baixa, há áreas de vegetação e o Ribeirão das Pedras atravessa uma região de várzea.

Que cidade não gostaria de ter uma grande área verde próxima de uma estação capaz de receber quase 60 mil passageiros por dia?

A estação poderá concentrar pessoas e atividades sem que isso signifique ocupar todo o território ao seu redor. Adensar onde existe infraestrutura e preservar aquilo que não precisa ser transformado em área construída. A oportunidade talvez esteja justamente em fazer o contrário do modelo de expansão que espalha a cidade para depois correr atrás da infraestrutura. Aqui, a infraestrutura está chegando primeiro.

O fim da linha como um novo começo

Fisicamente, a Linha 22 termina em Cotia. Há uma informação fundamental para interpretar todos esses números: o EIA/RIMA da linha 22 trabalha com horizonte de 2040 para as projeções de demanda. 

A futura Terminal Cotia pode representar justamente um novo começo. Ela reunirá o centro antigo de Cotia, a rede municipal e metropolitana de ônibus e a conexão metroviária com a capital. Ao mesmo tempo, estará localizada em uma área de baixa ocupação e perto de áreas  verdes. 

Essa combinação pode criar uma oportunidade rara: regenerar uma centralidade que já existe sem precisar reproduzir o modelo de uma grande capital.

Nada disso está garantido pelo projeto.

Cotia precisa se preparar desde já para esse futuro. Planejar a ocupação, preservar as áreas verdes e melhorar a circulação no entorno são algumas das escolhas que poderão fazer a diferença entre simplesmente receber o Metrô e aproveitar todo o seu potencial.

Há quase 50 anos, o geógrafo Aziz Ab’Sáber, morador da Granja Viana, observava em um trecho de um documento de 1978, disponibilizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Ambiental:

“Sucessivas gerações de bisonhas administradoras das prefeituras (...) nada mais fizeram do que atender aos interesses dos especuladores imobiliários. (...) Ao invés de se formar uma elite esclarecida nas comunas periféricas, apareceu uma espécie de elite política, sob a forma de novos ricos da administração. A incapacidade de construir, corrigir e diferenciar o espaço urbano e rururbano foi certamente o fato mais grave da herança administrativa negativa, oriunda de tais esquemas. A população periférica, dotada de pouca capacidade de reinvindicações, tem se limitado a gritar pela melhoria dos transportes, não tendo olhos nem mesmo para perceber a lamentável qualidade de vida a que ficou sujeita em função da impotência e inoperância da administração pública.”

A observação continua incrivelmente viva e provocadora. A partir de agora, Cotia terá a oportunidade de fazer diferente: não apenas receber o Metrô, mas preparar a cidade para o território que ele poderá transformar.

É o fim da linha para o Metrô. Será o recomeço de uma cidade?


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