18/08/2026
Mauricio Orth
Em direção ao centro de Cotia, deixamos a Estação Cotia-km 26 e seguimos para chegar em uma área bastante diferente das anteriores. A futura Estação Parque Alexandra será implantada fora do eixo imediato da Rodovia Raposo Tavares, na Rua Doutor Ladislau Retti, entre essa via e a Rua Philip Leiner.
O terreno a ser desapropriado tem quase 56 mil metros quadrados, fica na várzea do Rio Cotia e hoje é ocupado por uma empresa de reciclagem. E a história dessa área envolve passivos ambientais, que serão enfrentados antes que o terreno receba seu novo uso. É justamente aí que a chegada do Metrô ganha um significado que vai além da mobilidade.
Uma estação que entra no território
A futura estação ficará em uma área delimitada pelo Rio Cotia. É uma diferença importante em relação às três estações anteriores de Cotia. O diagnóstico do EIA/RIMA identifica grandes glebas industriais e empresariais, o rio, vegetação, vazios urbanos e um sistema viário fragmentado como barreiras para a circulação na região. A própria área onde será construída a estação é hoje uma grande gleba sem conexão direta entre suas duas ruas de acesso.
Uma área marcada pelo passado industrial
O terreno escolhido para a estação já teve outras ocupações e carrega passivos históricos. Atualmente, a área é ocupada pela EVA, empresa que atua com processos de reciclagem e reaproveitamento de materiais e tem enfrentado diversas reclamações ambientais. O EIA/RIMA também registra contaminações associadas à atividades anteriores (indústria química) e estabelece cuidados específicos para a reutilização do imóvel, incluindo investigação do solo, controle das águas subterrâneas e medidas de segurança para as intervenções.
A diferença que o Metrô representa
Assim, o projeto não pretende simplesmente ocupar um terreno que possui um passivo ambiental. A implantação da Linha 22 prevê a reabilitação das áreas contaminadas da sua Área Diretamente Afetada (ADA), eliminando os riscos identificados antes da nova utilização.
Isso significa que a transformação provocada pelo Metrô resolverá não apenas o problema associado à ocupação atual, mas também passivos deixados por atividades anteriores.
É difícil imaginar que uma simples troca de atividade econômica no endereço produzisse, por si só, uma intervenção ambiental com essa abrangência.
E o Rio Cotia está logo ao lado
A coincidência torna essa recuperação ainda mais importante. A futura estação ficará na várzea do Rio Cotia, junto a uma faixa arborizada de Área de Preservação Permanente. O rio passa imediatamente ao lado da área que será transformada.
Ao tratar o passivo ambiental de um terreno tão próximo do Rio Cotia, a implantação do Metrô reduz também o risco de que problemas acumulados na área continuem ameaçando o solo, as águas subterrâneas e o próprio rio. Bom lembrar que a recuperação ambiental não acontece por causa da proximidade do rio e sim por princípios adotados pelo Metrô em qualquer área.
Quase 56 mil metros quadrados que vão mudar de desenho
A transformação não ficará restrita ao subsolo ou ao edifício da estação. A desapropriação alcançará 55.805,99 m² e o Projeto Básico prevê duas novas vias públicas e o parcelamento dessa grande gleba em três quadras urbanas, criando uma conexão entre a Rua Philip Leiner e a Rua Doutor Ladislau Retti.
Uma nova estrutura urbana
O estudo aponta que essa abertura de ruas poderá conectar áreas hoje isoladas e atrair empreendimentos verticais de padrão popular, associados a comércio e serviços — usos considerados deficientes na região.
Uma estação de 6 mil passageiros
Apesar do tamanho da intervenção, a demanda prevista para a Parque Alexandra é relativamente pequena: 6.137 passageiros/dia, o que indica um grande potencial de crescimento.
São 112 vagas de estacionamento, 100 vagas para bicicletas, 11 vagas de embarque/ desembarque rápido, ciclofaixa no terreno da estação e melhorias no acesso viário e nos pontos de ônibus.
Dentro do bairro, o diagnóstico identifica apenas uma linha municipal circulando pelas vias locais. As condições para quem chega caminhando também são precárias em vários pontos, com calçadas irregulares, trechos estreitos, obstáculos e ausência de abrigos nos pontos de ônibus das vias internas.
As novas conexões viárias previstas pelo projeto podem, portanto, cumprir uma segunda função: aproximar o bairro da estação.
Uma estação que pode mudar o que existe ao redor
O EIA/RIMA identifica potencial para que a nova estrutura viária e a presença do Metrô estimulem comércio, serviços e habitação popular vertical na região.
É uma possibilidade especialmente relevante porque o entorno reúne conjuntos habitacionais populares, áreas industriais, grandes glebas, vazios urbanos e equipamentos como escolas, UBS e estruturas esportivas. E isso coloca uma questão para Cotia: como a cidade pretende planejar essa transformação?
A infraestrutura do Metrô chegará primeiro. O que será construído ao redor dela dependerá também das decisões urbanísticas que o município tomar nos próximos anos.
Alexandre ou Alexandra?
Há ainda uma questão de identidade. O nome oficial da futura estação é Parque Alexandra, a forma feminina registrada nos documentos oficiais. Mas "Parque Alexandre" é uma denominação bastante utilizada no cotidiano — e aparece até em trechos do próprio diagnóstico da Linha 22.
Cotia tem outras histórias de lugares que ganharam, com o tempo, um gênero diferente daquele registrado oficialmente. No caso da futura estação, o Metrô fez a sua escolha. Há uma pequena ironia nisso: Cotia não elege uma mulher para um cargo público desde 1982. Se depender do Metrô, pelo menos uma Alexandra estará garantida no mapa da cidade. Não é exatamente uma revolução de gênero. Mas já é alguma coisa.
Uma estação que pode limpar o passado
A Parque Alexandra terá uma demanda menor que outras estações da Linha 22 e provocará uma transformação física e ambiental de grandes proporções.
Será construída sobre uma área com passivos ambientais, junto ao Rio Cotia, que será reabilitada para receber seu novo uso. Os 56 mil metros quadrados previstos serão reorganizados, novas ruas serão abertas e três quadras urbanas poderão surgir onde hoje existe uma grande gleba isolada.
Na Parque Alexandra, o Metrô chega a um território que carrega problemas do passado e pode deixá-lo preparado para um futuro completamente diferente.
E talvez esse seja um dos efeitos menos visíveis — e mais importantes — da Linha 22 em Cotia.
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