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Cotia cresceu. E a saúde?

06/08/2026


Mauricio Orth

Há quase 60 anos, aqui em Cotia, moradores organizaram festas, bingos e campanhas para construir muito mais do que um hospital. Nascia um sistema de saúde que colocaria Cotia entre as experiências mais inovadoras do Estado. Hoje, a cidade cresceu, o modelo mudou e uma pergunta continua inquietando muitos moradores: se precisar de atendimento hospitalar, para onde ir?

Em 1968, a população de Cotia tinha como objetivo criar uma estrutura de saúde capaz de acompanhar o crescimento do município. O hospital seria a principal peça desse projeto, mas faria parte de um sistema mais amplo, que integrava atendimento hospitalar, rede básica, formação de profissionais e participação da comunidade.

A iniciativa deu origem à Associação Hospital de Cotia e, anos depois, chamou a atenção, tornando-se objeto de estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), que apontou a experiência como um modelo inovador de Sistema Local de Saúde.

A história mostra que a qualidade da saúde pública não depende apenas de hospitais, médicos ou equipamentos. Ela também depende da capacidade da participação da sociedade.

Passadas quase seis décadas, a população cresceu, o hospital foi estadualizado, a assistência tornou-se regionalizada e os desafios já não são os mesmos. Hoje, a questão passou a ser garantir que toda a rede acompanhe o crescimento da cidade.

O hospital era apenas uma peça

Segundo a pesquisa do sanitarista Nelson Ibañez, em tese desenvolvida na USP em 1989, a proposta era implantar um Sistema Local de Saúde, integrando prevenção, atendimento médico, hospital, formação de profissionais e participação comunitária. O hospital era o eixo desse projeto, mas não seu único objetivo.  Em dezembro de 1975, o Hospital de Cotia foi inaugurado com 54 leitos. Nas décadas seguintes, ampliou sua capacidade, implantou residência médica, tornou-se referência regional e recebeu reconhecimento pelo modelo de gestão.

Em 2007 a unidade passou a integrar a rede estadual, transformando-se no atual Hospital Regional de Cotia. O prédio permaneceu. Mas o sistema mudou.

Uma cidade muito diferente

Enquanto o sistema de saúde se transformava, Cotia tornou-se uma das cidades que mais cresceram na Região Metropolitana de São Paulo e hoje se aproxima dos 300 mil habitantes. Mas o principal hospital instalado no município também passou a exercer um papel diferente.

Na obstetrícia, o Hospital Regional é referência para gestantes de Cotia e Vargem Grande Paulista.

Já nos atendimentos de urgência, emergência e em diversas especialidades, integra a rede estadual de regulação (SIRESP/CROSS), recebendo pacientes encaminhados conforme a disponibilidade da rede e a necessidade assistencial.

Ou seja, o Hospital Regional de Cotia não atende apenas os cotianos. Ele faz parte de uma rede regional de assistência. Essa diferença ajuda a explicar por que, em muitos casos, o acesso ao atendimento hospitalar depende da organização da rede pública e não apenas da existência de um hospital na cidade.



A Rede Hospitalar ao Redor de Cotia

O desafio mudou

Mais do que inaugurar estruturas, é preciso garantir que elas estejam efetivamente disponíveis para a população. Um exemplo recente é o Centro de Nefrologia de Cotia.

Inaugurada oficialmente em abril deste ano, a unidade foi apresentada como um importante reforço para o tratamento de pacientes renais crônicos. Entretanto, até o fechamento desta reportagem, o Site da Granja aguardava respostas da Prefeitura sobre o efetivo início dos atendimentos, o processo de credenciamento da clínica e sua integração à rede pública de assistência. Independentemente das respostas, a situação evidencia um desafio que vai além da entrega de um prédio: transformar equipamentos em atendimento efetivo.

Participação popular: ontem e hoje

Há um aspecto dessa história que merece atenção. O sistema de saúde que começou a ser construído em 1968 a partir da mobilização da própria sociedade. Essa participação não era um detalhe. Era parte do próprio modelo de saúde.

Com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Constituição Federal de 1988, a participação popular deixou de acontecer por meio de associações comunitárias e passou a ter um espaço institucional permanente: os Conselhos Municipais de Saúde.

Eles existem para garantir que a população acompanhe a aplicação dos recursos públicos, fiscalize a execução das políticas de saúde, participe da definição de prioridades e ajude a construir soluções para os problemas da rede. Em outras palavras, um sistema público de saúde não depende apenas de hospitais. Depende também de controle social.

É justamente nesse ponto que Cotia vive hoje um momento delicado. Após duas tentativas frustradas de eleição e sucessivas prorrogações de mandato, o atual Conselho Municipal de Saúde encerra seu período em 31 de agosto. Até o fechamento desta reportagem, ainda não havia sido publicado um novo edital para a escolha dos próximos conselheiros. O problema vai além de uma questão burocrática. Sem um Conselho atuante, a sociedade perde justamente o principal instrumento criado para acompanhar, fiscalizar e influenciar as políticas públicas de saúde.

É um contraste histórico difícil de ignorar. Há quase 60 anos, Cotia mobilizou sua população para construir um sistema de saúde exemplar. Hoje, encontra dificuldades para garantir que essa mesma população participe das decisões sobre os rumos desse sistema.

Uma história que continua sendo escrita

Diante de uma cidade muito maior e de uma rede muito mais complexa, os desafios também mudaram. Já não se resumem à construção de hospitais.

Passam pelo planejamento da assistência, pela integração entre os serviços, pela ampliação da capacidade instalada e pelo fortalecimento dos espaços de participação da sociedade.

A experiência que fez de Cotia referência no passado deixa uma lição que continua atual. Nenhum sistema público de saúde se mantém forte apenas com prédios, equipamentos ou tecnologia. Ele depende de planejamento. Depende de gestão. E depende de uma sociedade que participe, fiscalize e ajude a definir seus rumos. Foi assim que a cidade construiu seu primeiro hospital.  Talvez seja assim que consiga construir as respostas para os desafios do futuro.

E hoje? Se você precisar de atendimento hospitalar, para onde vai?


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