23/04/2026
Mauricio Orth
Desde 2014 Cotia não elege um representante próprio para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. À medida que o próximo ciclo eleitoral se aproxima, movimentações recentes indicam uma tentativa de reorganização política — ainda marcada por incertezas e múltiplas candidaturas.
Candidatura depende do partido
Recém-filiado ao Partido Liberal (PL), o ex-prefeito Rogério Franco confirmou à reportagem a intenção de disputar uma vaga de deputado estadual, mas ressaltou que a decisão final depende do processo interno do partido. Segundo ele, o calendário segue o rito tradicional, que inclue convenções partidárias em julho e definição final até meados de agosto.
Guinada política sob lógica eleitoral
A filiação de Franco ao PL também chama atenção pelo contraste com momentos anteriores de proximidade com Luiz Inácio Lula da Silva. Conversando com o Site da Granja, o pré-candidato minimiza a leitura ideológica e sustenta uma visão mais pragmática da política. Para ele, a capacidade de diálogo com diferentes correntes sempre fez parte da sua trajetória, e insistir nesse contraste seria “radicalismo”.
Na prática, a mudança pode ser lida como um movimento estratégico: em eleições proporcionais, estar em um partido competitivo — com estrutura e capacidade de eleger — costuma pesar tanto quanto, ou mais, do que o alinhamento ideológico.
Rogério Franco em almoço na Sede Nacional do PL em Brasília com Valdemar Costa Neto, presidente do partido e autoridades
PL: estrutura que pode definir a eleição
A escolha pelo Partido Liberal não é apenas uma mudança de sigla — é uma decisão estratégica. Hoje, o PL é a maior força na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, com a maior bancada e a presidência da Casa, ocupada por André do Prado. Na prática, isso significa mais estrutura, mais capilaridade e maior capacidade de eleger candidatos. Nas eleições para deputado, não vence simplesmente quem tem mais votos. O sistema é proporcional: o desempenho do partido define quantas vagas ele conquista — e quem entra são os mais votados dentro da própria legenda.
O resultado é direto: candidatos bem votados podem ficar de fora em partidos fracos, enquanto outros, com menos votos, conseguem se eleger em siglas mais competitivas. Um exemplo recente ajuda a entender. O deputado estadual Guilherme Cortez foi eleito em 2022 com cerca de 45 mil votos, dentro de um partido que atingiu o desempenho necessário para conquistar cadeiras. Já Ortiz Junior, mesmo com mais de 66 mil votos, não se elegeu.
No limite, a eleição não é apenas uma disputa entre candidatos. É claro que ter voto importa, mas estar no partido certo pode importar ainda mais.
Movimentações no entorno político
A entrada de Franco no PL também foi acompanhada por mudanças de outros nomes locais:
Jhonny Santos deixou o PL e migrou para o Republicanos e Edson Silva saiu do Republicanos e foi para o PMN. As mudanças refletem a dinâmica interna das chapas proporcionais, em que espaço e viabilidade eleitoral são constantemente reavaliados.
Novo nome entra no radar
Outro nome que passa a integrar o cenário é o de Emerson Rocha (Podemos), filiado em evento realizado no fim de março, em Cotia.
A filiação reuniu lideranças de diferentes partidos e contou com a presença da deputada federal Renata Abreu, presidente nacional da sigla. Na ocasião, Emerson foi apresentado como nome em ascensão no cenário local, com articulação política e apoio partidário estruturado.
Campo da esquerda confirma pré-candidatura
No campo da esquerda, Cida Aires (PSOL) confirmou à reportagem que é pré-candidata a deputada estadual.
“Essa pré-candidatura nasce da necessidade de reafirmação do protagonismo de mulheres na região e especialmente em Cotia.”
Segundo ela, a candidatura também busca fortalecer a presença feminina na política local e está sendo construída em articulação com outros nomes do campo progressista.
Fragmentação segue como principal desafio
A presença de múltiplas pré-candidaturas amplia o espectro político da disputa, mas também reforça um padrão recorrente em Cotia: a dificuldade de convergência.
Questionado sobre a possibilidade de unificação em torno de um único nome — cenário que poderia aumentar as chances de eleição —, Rogério Franco foi direto:
“O melhor dos mundos seria todos juntos, mas acho difícil.”
O município já teve protagonismo estadual com Márcio Camargo, último nome com base eleitoral consolidada a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, eleito em 2014 e saindo em 2018. Desde então, a dispersão de votos tem impedido a formação de uma candidatura competitiva.
Jhonny Santos (Republicanos), Edson Silva (PMN), Emerson Rocha (Podemos) e Cida Aires (PSOL) aparecem como parte da reorganização política para as pré-candidaturas
A união faz a força
Mais do que presença simbólica, um representante da cidade na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo pode atuar diretamente na articulação de recursos, na interlocução com o governo estadual e na priorização de demandas locais em áreas como saúde, mobilidade e infraestrutura. Na prática, isso significa maior acesso a emendas parlamentares, mais facilidade para destravar projetos junto ao Estado e presença constante nas decisões que impactam a região.
O cenário atual indica que Cotia volta a discutir a possibilidade de eleger um deputado estadual próprio. A questão é que sem convergência, a cidade segue como fornecedora de votos. Assim, diante de múltiplos projetos políticos em construção, o desafio permanece: o de transformar força eleitoral dispersa em representação efetiva.
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