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Imperiópolis e Prologis: enquanto a Justiça decide, Cotia muda

22/10/2026


Mauricio Orth


Em diferentes pontos do município, moradores convivem com transformações que afetam a moradia, o ambiente e a vizinhança. Em Imperiópolis e no entorno da Prologis, disputas judiciais tentam responder a conflitos que continuam produzindo efeitos nos territórios.

Cotia está mudando. Para quem mora na cidade, essas transformações não aparecem apenas no mapa. Elas se manifestam em uma nova construção ao lado de casa, na ocupação de uma área, no aparecimento de animais silvestres na porta de casa ou no receio de que uma obra afete imóveis e o cotidiano da vizinhança.

Quando interesses entram em conflito, moradores e organizações recorrem à Justiça em busca de proteção e reconhecimento de direitos. A questão é que processos judiciais têm um tempo diferente do que os das transformações do território.

Em Imperiópolis, a ocupação de áreas com situações jurídicas distintas convive com disputas sobre posse, moradia e proteção ambiental. Já próximo ao km 26 da Rodovia Raposo Tavares, o empreendimento logístico Prologis SP26 é alvo de questionamentos sobre impactos ambientais e urbanísticos, enquanto a empresa afirma estar autorizada a retomar parcialmente as obras.

São situações juridicamente diferentes. O que aproxima os dois casos é a distância entre o tempo da Justiça e o ritmo das mudanças concretas.

Nos dois casos, atividades de ocupação do território estão acontecendo agora, enquanto você lê esta matéria.

A matéria, aliás, chega para você entender o que está em disputa — e o que acontece enquanto as decisões não chegam.

Imperiópolis: três áreas, diferentes processos

O nome Imperiópolis passou a identificar um território mais amplo, formado pelas áreas do Parque das Nascentes, Mansur e Santa Mariana. 

A existência de decisões judiciais relacionadas a essas áreas não encerrou a dinâmica territorial. Relatos de moradores, imagens recebidas pela reportagem e conversas com vizinhos apontam para a continuidade das construções de novas moradias na região.

As iniciativas mais recentes buscam construir uma abordagem conjunta para Imperiópolis, articulando moradia, regularização fundiária e recuperação ambiental. A mobilização no Fórum de Cotia, a reunião do projeto Guardiões do Território na Unifesp e a visita posterior da Defensoria Pública à comunidade fazem parte desse esforço. O desafio é tratar o território como um todo, embora ele permaneça dividido em processos judiciais distintos. Até aqui, a articulação institucional não significa que as três áreas estejam submetidas a uma única decisão.

Moradias em construção e oferta de terrenos

Ao que parece, a ocupação deixou de ser espontânea.  Junto com os relatos de moradores e as imagens recebidas pela reportagem, o Site da Granja teve acesso a anúncios divulgados recentemente que oferecem terrenos e moradias de madeira já construídas, prontas para morar. A mensagem em vídeo apresenta a iniciativa como uma oportunidade para famílias que precisam de um lugar, fala em doação de terrenos e afirma que a comunidade dispõe de abastecimento de água e energia elétrica.

O material gráfico apresenta endereços e orienta os interessados a procurar pessoas identificadas por apelidos. Um dos locais indicados é a Avenida João Paulo Ablas, na região associada a Imperiópolis.

Enquanto os conflitos sobre posse e proteção ambiental continuam na Justiça, a ocupação segue presente, com sinais de organização na oferta de moradias.

Prologis: a resposta sobre drenagem e a dúvida dos moradores

O Site da Granja recebeu fotografias e denúncias de moradores vizinhos ao empreendimento logístico Prologis SP26, próximo ao km 26 da Rodovia Raposo Tavares, em Cotia. Apesar das últimas notícias indicarem o embargo da obra, os relatos apontavam certa perplexidade e reações negativas em relação à continuidade das obras e construção de estruturas no local.

Para apurar as informações, a reportagem procurou a Prologis, que respondeu em nota estar autorizada, por decisão judicial, a retomar parcialmente as obras para concluir o sistema de drenagem e executar etapas relacionadas.

A resposta foi então confrontada com os relatos dos moradores. A justificativa, porém, não eliminou a dúvida: “Mas como drenagem se estão levantando colunas e paredes?”, questionaram moradores ao relatarem as estruturas que estariam sendo erguidas.

A questão é objetiva: as colunas e paredes mencionadas fazem parte das intervenções de drenagem autorizadas pela Justiça ou correspondem a outras etapas do empreendimento?

A nota enviada pela Prologis, que segue na íntegra no final da matéria, não detalha quais estruturas estão sendo construídas.

Quando os fatos mudam antes da sentença

Sobre Imperiópolis, a juíza de direito da 1ª Vara Cível de Cotia, Renata Meirelles Pedreño, explicou ao Site da Granja que os conflitos possessórios têm uma característica dinâmica: a situação concreta pode mudar durante a tramitação do processo.

Uma ação inicialmente preventiva, destinada a evitar uma ameaça à posse, pode precisar ser adaptada quando a situação se altera e a perturbação ou ocupação já ocorreu. A análise judicial precisa considerar essa evolução, inclusive para avaliar as condições práticas de cumprimento de uma decisão.

A expressão “força normativa dos fatos” ajuda a compreender essa dinâmica. Quando uma ocupação se amplia ou novas construções surgem durante a tramitação de um processo, a realidade encontrada pode ser diferente daquela que existia no início da ação. Quanto mais a situação se consolida, mais complexa pode se tornar a execução de uma decisão judicial.

Isso não significa que uma ocupação se torne legal apenas por se consolidar, nem que uma decisão judicial deixe de valer. Significa que a transformação do território interfere nas condições concretas em que os conflitos são analisados e as decisões executadas.

O caso da Prologis é juridicamente distinto, ficando de fora dos comentários da magistrada. Os processos relacionados ao empreendimento ainda dependem de perícia judicial e posterior conclusão sobre o mérito.

A cidade não espera

Imperiópolis e Prologis expõem desafios distintos para Cotia. Em ambos os casos, a discussão jurídica ocorre enquanto o território continua se transformando. A distância entre esses dois tempos torna mais difícil avaliar os efeitos de decisões futuras. Para os moradores, porém, as mudanças não ficam suspensas durante a tramitação dos processos.

Enquanto a Justiça decide, Cotia continua mudando.

Nota da Prologis

“A Prologis esclarece que, conforme decisão judicial recebida em julho deste ano, está autorizada a retomar parcialmente as obras do empreendimento Prologis SP26, em Cotia, para a execução das atividades necessárias à conclusão do sistema de drenagem e das etapas relacionadas.

A companhia reafirma sua confiança no andamento do processo judicial, uma vez que o projeto foi concebido e licenciado em conformidade com a legislação vigente, tendo cumprido todas as exigências técnicas, ambientais e regulatórias aplicáveis. A Prologis segue atuando em estrito cumprimento das determinações da Justiça e dos órgãos competentes, mantendo seu compromisso com o desenvolvimento responsável do empreendimento, o diálogo e a atenção à comunidade, além da geração de investimentos, empregos e benefícios para a região.”



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