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Rodeio de Cotia recua de cadastro em bet após pressão

12/08/2026


Mauricio Orth


Organização voltou atrás na exigência para ingresso gratuito; três vereadores apresentaram projetos semelhantes e Prefeitura promove palestra sobre os riscos da ludopatia

O Cotia Rodeio Fest 2026 ganhou uma polêmica antes mesmo de começar. A organização chegou a anunciar que o acesso gratuito à pista dependeria de cadastro em uma plataforma de apostas online, as chamadas bets. Quem não quisesse se cadastrar teria de pagar pelo ingresso.

A reação veio rapidamente nas redes sociais. Moradores e páginas locais questionaram a associação entre um ingresso anunciado como gratuito e a necessidade de fornecer dados a uma plataforma de apostas. 

Depois da repercussão, a organização voltou atrás. A chamada Pista Solidária voltou a ser disponibilizada gratuitamente, sem exigência de cadastro em bet. O episódio, porém, não terminou aí: chegou à Câmara Municipal e abriu uma discussão sobre os limites da presença das bets em eventos que contam com apoio do poder público.

Da bet à Pista Solidária

Com a repercussão gerada nas redes sociais através de manifestações de moradores e páginas como BlogCotia e Juntos por Cotia, a organização recuou. Agora, o ingresso da Pista Solidária pode ser retirado gratuitamente pelo site oficial do evento, mediante CPF, com limite de dois ingressos por dia por CPF.

Para os diferentes dias do evento, são sugeridos alimentos como arroz, macarrão, café e feijão, além de ração para cães e gatos. A doação, porém, não é obrigatória para a entrada. O Cotia Rodeio Fest acontece de 21 a 29 de agosto, no Aeródromo Nascimento, em Caucaia do Alto, e é realizado pela MP Promoções.

E qual é o papel da Prefeitura?

O Rodeio é um evento privado, mas a Prefeitura aparece como apoiadora nas próprias peças de divulgação de 2026.  A relação não é nova. Em 2025, a Prefeitura informava que havia mediado uma parceria com a iniciativa privada para viabilizar ingressos gratuitos para o Rodeio. Na ocasião, o prefeito Welington Formiga afirmou que não havia dinheiro público no evento, mas que o município havia buscado parceiros para garantir a gratuidade.  Não se pode afirmar que a Prefeitura tenha autorizado ou participado da decisão de exigir cadastro em uma bet. Até o momento, não há documento que sustente essa conclusão. Difícil também tratar o município como completamente alheio ao evento.

A pergunta que fica é: que tipo de apoio a Prefeitura oferece ao Rodeio e até onde vai sua responsabilidade sobre as ações e parcerias comerciais de um evento que leva sua marca?

O tema é mais complexo do que simplesmente recomendar autocontrole ao apostador. Para o professor Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, a chamada “aposta responsável” só funciona como proteção quando acompanhada de mecanismos efetivos de prevenção. Para ele, os efeitos negativos das apostas devem ser tratados como uma responsabilidade compartilhada entre consumidores, plataformas e poder público.

Nesse sentido, A própria Prefeitura alerta para os riscos das bets: A Secretaria Municipal de Trabalho e Renda promove nesta quinta-feira (13) a palestra “Ludopatia: causas e danos”, justamente para alertar sobre os riscos do vício em jogos e orientar a população.

O que é ludopatia?
Ludopatia, ou transtorno do jogo, é uma condição de saúde mental caracterizada pela perda de controle sobre as apostas. A pessoa continua jogando mesmo quando a atividade começa a provocar prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais. O transtorno é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças – CID.


Assim, duas situações acontecem praticamente ao mesmo tempo: um evento apoiado pela Prefeitura chegou a associar o ingresso gratuito ao cadastro em uma plataforma de apostas — regra posteriormente retirada —, enquanto uma secretaria municipal promove uma ação de conscientização sobre os danos da ludopatia.

Não significa que as duas iniciativas tenham relação direta. Mas a proximidade dos fatos coloca uma questão importante: qual deve ser a posição do poder público diante da presença cada vez maior das bets?

Três projetos chegam à Câmara

O episódio já produziu uma consequência concreta no Legislativo. Os vereadores Alexandre Frota, Sérgio Folha e Silvio Cabral apresentaram projetos semelhantes. As propostas buscam restringir a publicidade, promoção e patrocínio de plataformas de apostas em eventos relacionados ao poder público municipal.

Em conversa com o Site da Granja, Cabral contou que foi justamente o caso do Rodeio que levou sua equipe a avaliar a necessidade de apresentar um projeto de lei sobre o assunto. Os três textos agora estão sendo unificados em um substitutivo, que deverá ser apresentado em nome dos três parlamentares.

R$ 62,5 bilhões saíram das famílias em 2025

O episódio de Cotia acontece em meio a um mercado que movimenta cifras gigantescas.

Segundo levantamento do Comsefaz e do Centro Internacional Celso Furtado, com base em dados do Banco Central, as famílias brasileiras tiveram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025. Ao mesmo tempo, as apostas também se tornaram fonte de arrecadação. Segundo dados informados pela Receita Federal à Câmara dos Deputados, o governo arrecadou R$ 9 bilhões em impostos sobre apostas em 2025. Entre janeiro e abril de 2026, foram mais R$ 3,1 bilhões. 

A discussão já chegou ao país

Assim como em Cotia, projetos tramitam no Congresso, para restringir publicidade, promoção e patrocínio de apostas. O tema também chegou ao Supremo Tribunal Federal. Durante o julgamento sobre a exploração de jogos de azar, o ministro Flávio Dino pediu vista e defendeu que a discussão considere também as apostas virtuais.

O debate nacional envolve questões que aparecem agora em Cotia: publicidade, exposição da população, endividamento, saúde e os limites para a atuação das plataformas.

O Site da Granja já havia abordado o tema em junho e agora o assunto apareceu de forma concreta na cidade. Para El Khatib, não existe um valor universalmente seguro para apostar: o que parece pouco para uma pessoa pode comprometer o orçamento de outra. Recursos destinados a contas, alimentação, saúde ou educação, segundo ele, não deveriam ser utilizados em apostas.

No fim, uma discussão que começou com um ingresso de rodeio acabou colocando uma questão maior na mesa:

Qual é o limite para a presença das bets em eventos populares, especialmente quando existe apoio do poder público?    



Palestra “Ludopatia: causas e danos”

13 de agosto

Das 9h às 11h30

Câmara Municipal de Cotia – Rua Batista Cepelos, 91, Centro

Evento gratuito e aberto ao público


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