28/04/2026
Ana Alcantara e Mauricio Orth
Abril é reconhecido como o período de reflexão sobre a presença e os direitos dos povos originários. A data (19/04), instituída em 1943 como “Dia do Índio”, passou a ser oficialmente chamada de Dia dos Povos Indígenas em 2022, após mobilização do movimento indígena e iniciativa da deputada Joênia Wapichana. A mudança busca reconhecer a diversidade dos povos e superar estigmas históricos.
Embora o último censo do IBGE registre pouco mais de 300 indígenas (declarados) no município, coletivos e lideranças apontam para uma presença muito mais ampla, formada por dezenas de povos que vivem em contexto urbano — nas periferias, bairros e diferentes espaços da cidade.
Voz indígena no território
Em Cotia, o Centro Cultural Tereza Kariri , fundado em junho de 2024, atua como espaço de articulação cultural, educativa e política. Em texto compartilhado por integrantes do coletivo, a reflexão sobre o Abril Indígena é esclarecedora:
“O termo "índio" é estigmatizado e nos reduz a um estereótipo que não existe — uma invenção que não representa a diversidade dos povos indígenas e suas línguas.
Hoje, em Pindorama (Brasil), somos mais de 391 povos originários, falando mais de 297 línguas, com modos de vida e cosmovisões diversas. Estamos em todos os lugares e em todas as profissões. Somos indígenas contemporâneos, seguindo os passos de nossos ancestrais e honrando suas lutas.
Outro termo que não se usa mais é "tribo". O correto é dizer Povos Indígenas, ou nomear o povo ao qual a pessoa pertence.
Cotia — cujo nome tem origem no Guarani — sempre teve presença indígena, especialmente em Caucaia do Alto, conectada por caminhos ancestrais como o Peabiru. Hoje existimos e reexistimos em contexto urbano, resistindo ao apagamento. Somos mais de 42 povos indígenas na cidade, falando diversas línguas originárias, muito além dos números oficiais, presentes em todo o nosso território ancestral.”
Articulação cultural e presença contemporânea
Além do próprio Centro Cultural Tereza Kariri, entre essas iniciativas está o Projeto Akoty, que reúne diferentes etnias em atividades como exposições, oficinas, rodas de conversa e ações formativas, com foco também na implementação da Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, além do criação do Prêmio Akoty de Cultura e Economia Criativa, uma iniciativa para reconhecer talentos locais que fortalecem a cultura e a diversidade da cidade.
Outro grupo atuante é a Rede Nibu , formada a partir do encontro entre indígenas e não indígenas desde 2005. A articulação surgiu a partir do diálogo com o povo Huni Kuin (Acre) e se desenvolveu ao longo dos anos como espaço de apoio, troca e fortalecimento da causa indígena.
Uma história marcada por presença, violência e apagamento
A presença indígena em Cotia não é recente, e sim fundamental. Muito antes da formação da cidade, a região já era atravessada por caminhos ancestrais, como o Caminho do Peabiru, que conectava o litoral ao interior do continente.
Durante o período colonial, Cotia se consolidou como um ponto estratégico ligado às expedições bandeirantes e ao apresamento de indígenas. A economia local, especialmente no ciclo do trigo, muito se valeu de mão de obra indígena escravizada, trazendo populações de diferentes regiões para o território.
Nesse contexto, o termo “carijó”, inicialmente creditado ao povo indígena que habitava o litoral sul do Brasil, ganhou outro significado. Extintos já no século 17, os carijós eram considerados excelentes agricultores e conhecidos por sua postura pacífica. Por conta dessas características, o termo passou a ser utilizado de forma genérica pelos colonizadores para designar indígenas submetidos ao trabalho forçado.
Entre os séculos 17 e 18, famílias coloniais incorporavam populações indígenas por meio de sua “administração”. O batismo de indígenas era o pilar central da da integração dos nativos à sociedade luso-brasileira. Ao longo de poucas gerações, as origens indígenas foram sendo apagadas nos registros, substituídas por nomes e sobrenomes portugueses, o que dificulta hoje a identificação direta dessas linhagens.
Essa dinâmica contribuiu para a formação de populações classificadas como “caboclas” e, posteriormente, associadas à identidade “caipira” do interior paulista — muitas vezes sem o reconhecimento explícito de sua origem indígena.
Estudos genéticos recentes mostram que a população brasileira — incluindo São Paulo — é formada por uma combinação de ancestralidades indígenas, africanas e europeias. Mesmo em regiões urbanas e em populações que hoje não se identificam como indígenas, essa herança permanece no DNA, mesmo que invisível nos registros históricos e nos sobrenomes.
Cotia indígena hoje
Apesar dessa trajetória, a presença indígena não desapareceu. Ao contrário, ela se reorganiza e se reafirma. Hoje, Cotia abriga indígenas de diversas origens — entre eles Guarani Mbya, Guarani Nhandeva, Kariri, Pankararu, Xukuru, Kaingang, Pataxó, entre outros — que vivem em contexto urbano e constroem formas contemporâneas de pertencimento, cultura e resistência. Essa presença se expressa em redes, coletivos, práticas culturais e na reivindicação do território como espaço ancestral ainda vivo.
O Abril Indígena se apresenta então como continuidade — de memória, de luta e de presença. Uma ideia sintetizada no poema da artista indígena e cotiana desde 2014 Ju Cassou Aruã:
UM DIA NÃO BASTA
Um dia de fala não basta
Um mês indígena não é nada
Por anos de luta aos direitos
Por terra, igualdade e respeito
Basta de apagamento
De saque estupro matança
Somos raiz dessa terra
Que preza e exige mudança
Língua, arte, terra
Guardamos nos igarapés
Com corpos, fé e coragem
Planeta e floresta em pé!
De raízes Guarani, Ju Cassou Aruã é pianista, cantora, educadora, terapeuta e escritora. Autora da obra “Álbum Biográfico Guerreiras da Ancestralidade” - Prêmio Jabuti 2023 - do coletivo Mulherio das Letras Indígenas, e do livro trilíngue “Mborai – a Música Guarani”.
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