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Crise na Saúde de Cotia expõe falhas estruturais e transição com novo secretário

14/01/2026


Mauricio Orth


Exclusivo: Prefeitura define Roberto Rossato para comandar a Saúde enquanto Fórum Popular amplia pressão por mudanças

A crise na Saúde pública de Cotia deixou de ser interpretada como um conjunto de falhas pontuais e passou a se revelar como um problema estrutural, acumulado ao longo dos anos e agravado por decisões — e omissões — administrativas que impactaram diretamente a capacidade de atendimento da rede municipal.

Falta de especialistas, dificuldade de acesso a exames, escassez de medicamentos, ausência de materiais básicos, precarização do trabalho e relatos recorrentes de desumanização no atendimento compõem um cenário que afeta o cotidiano de milhares de moradores. Em resposta, a sociedade civil passou a se organizar de forma inédita, estruturando cobranças e ocupando espaço permanente de interlocução com o poder público.

Exames: retirada do serviço estadual agrava crise sem plano de contingência

Entre os fatores que agravaram o quadro está a retirada do fornecimento estadual de exames laboratoriais, anteriormente realizada por meio do CEAC — Centro Estadual de Análises Clínicas, serviço mantido pelo Governo do Estado de São Paulo. Até então, Cotia operava com dois pilares para a realização de exames: um laboratório contratado pelo município e outro custeado pelo Estado. A retirada do serviço estadual reduziu drasticamente a capacidade de atendimento, fazendo com que exames passassem a ser priorizados apenas para casos emergenciais, gestantes e pronto atendimento, enquanto milhares de pedidos ficaram represados.

Segundo informações apuradas, a decisão do Estado já havia sido comunicada internamente entre setembro e outubro de 2024. Ainda assim, nenhuma providência efetiva foi tomada pela gestão anterior para evitar o colapso do serviço. A nova administração, por sua vez, também não estruturou um plano de contingência nos primeiros meses de governo, o que acabou materializando a falta de exames no início de 2025. Em contraste, municípios vizinhos, como Carapicuíba, se mobilizaram de forma antecipada e conseguiram providenciar serviços substitutivos antes da interrupção efetiva, evitando que a população ficasse desassistida.

Somente após o impacto direto na rede, Cotia iniciou um novo processo licitatório. A Prefeitura informou recentemente que um novo laboratório foi contratado e que os trâmites burocráticos estariam concluídos para a retomada dos exames — medida que tende a aliviar o cenário emergencial, mas não elimina os demais gargalos do sistema.


Reprodução Redes Sociais do Prefeito Welington Formiga em 14/01 (@welington.formiga )

Falta de insumos e medicamentos pressiona profissionais e usuários

A crise também se manifesta na escassez de materiais hospitalares básicos. Profissionais relataram, em reuniões com o Executivo, situações em que precisaram comprar do próprio bolso itens como luvas e insumos de uso cotidiano para manter o atendimento, evidenciando fragilidade operacional da rede.

No caso dos medicamentos, o problema tem mais de uma raiz. Parte das faltas decorre de entraves licitatórios e da exaustão de atas municipais; outra parte está relacionada a falhas logísticas em programas federais, como o sistema de distribuição do Ministério da Saúde. A própria administração reconheceu que, nesses casos, o município tem governabilidade limitada, o que acaba penalizando diretamente o usuário do SUS.

Organização social, gestão e o debate sobre eficiência

Durante os encontros entre Prefeitura e representantes da população, um tema raramente tratado de forma pública foi discutido: o uso de cargos em Organizações Sociais como cabides de emprego, prática que compromete a eficiência do sistema, sobrecarrega profissionais técnicos e consome recursos já escassos.

Representantes do Executivo reconheceram que planos de trabalho mal dimensionados, ausência de critérios técnicos na seleção de equipes e fragilidade na fiscalização impactam diretamente a qualidade do serviço prestado, reforçando a necessidade de revisão profunda do modelo de gestão.

Sociedade civil amplia protagonismo e formaliza exigências

Foi nesse contexto que moradores, profissionais da área e usuários do SUS se organizaram no Fórum Popular da Saúde de Cotia, sistematizando as principais queixas da população em seis eixos centrais, incluindo gestão, exames, medicamentos, especialistas, condições de trabalho e humanização do atendimento.

Em 17 de dezembro de 2025, uma reunião extensa expôs falhas, limitações orçamentárias e entraves administrativos. Já em 5 de janeiro de 2025, um novo encontro, novamente pautado pelo Fórum, ampliou o nível de cobrança e formalizou exigências como:

a entrega de um documento oficial, por escrito, com as estratégias da Prefeitura para enfrentar a crise;

a reformulação do processo eleitoral do Conselho Municipal de Saúde, garantindo autonomia e representatividade;

questionamentos sobre a licitação da nova Organização Social que substituirá a atual;

a realização de reuniões periódicas com coordenações de saúde, para discutir problemas concretos de gestão.


Exclusivo: Prefeitura define novo gestor da Saúde

Em meio a esse cenário, a administração prepara mudanças no comando da pasta. Segundo apuração exclusiva, o nome definido para assumir a Secretaria de Saúde é o de Roberto Rossato, bacharel em Administração e Ciências Econômicas, com atuação no setor público em cargos de direção e assessoramento na área da Saúde em cidades como São Bernardo do Campo, São Paulo e São Carlos. A nomeação ainda não foi oficialmente anunciada.

Fontes do Executivo indicam que outras mudanças administrativas devem ocorrer, sinalizando que a reorganização da Saúde municipal vai além da troca de comando e deve envolver novas decisões estruturais nos próximos meses.

Crise aberta, cobranças em curso

A crise da Saúde em Cotia permanece aberta. A retomada dos exames representa um avanço pontual, mas os desafios seguem: estrutura fragilizada, falta de especialistas, escassez de insumos e necessidade urgente de aprimorar a gestão e a humanização do atendimento.

Ao mesmo tempo, a atuação organizada da sociedade civil inaugura uma nova etapa de acompanhamento e cobrança permanente das políticas públicas. Compromissos foram assumidos, documentos prometidos e mudanças anunciadas. O que se espera, agora, são resultados concretos.


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