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Metrô de Cotia vai muito além dos trilhos

14/07/2026


Mauricio Orth


EIA/RIMA com quase 3 mil páginas mostra que a Linha 22 reorganiza a mobilidade, integra diferentes modais e propõe uma nova dinâmica urbana ao longo do eixo da Raposo Tavares.

Só carros, caminhões, ônibus e motos?

Durante décadas, a mobilidade em Cotia foi discutida quase exclusivamente sob a ótica da Rodovia Raposo Tavares. O projeto Nova Raposo, por exemplo, foi concebido para ampliar a capacidade da rodovia dentro de um modelo de concessão, tendo como principal objetivo a segurança viária. A novidade fica por conta da implantação de pedágios eletrônicos.

O EIA/RIMA da futura Linha 22-Marrom revela outra forma de pensar esse mesmo território.

Muito mais do que uma proposta de ligação metroviária entre Cotia e São Paulo, o documento reúne um dos mais abrangentes diagnósticos territoriais já produzidos sobre o município. Aspectos ambientais, urbanos, sociais e econômicos foram analisados para fundamentar um projeto que pretende reorganizar a mobilidade regional por meio da integração entre metrô, ônibus, bicicletas, automóveis e deslocamentos a pé.

Não por acaso, a Linha 22 levou mais de três décadas de estudos até chegar ao traçado atual.

Histórico

Embora tenha ganhado força nos últimos anos, a Linha 22 tem origem na década de 1990, quando o Plano Integrado de Transportes Urbanos (PITU 2020) já previa um sistema de alta capacidade ligando Cotia ao centro de São Paulo. Após a Pesquisa Origem e Destino de 2007, o Metrô desenvolveu um projeto de monotrilho entre Cotia e a Linha 4-Amarela. Estudos posteriores demonstraram, porém, que uma estrutura elevada sobre a Raposo Tavares reduziria permanentemente a capacidade da rodovia. Em 2016, a solução foi substituída por uma linha de metrô convencional, parcialmente de superfície. Novas pesquisas de demanda e a revisão das integrações com outras linhas da rede levaram a novos estudos em 2022 e 2023, consolidando a opção por uma linha compacta e totalmente subterrânea.

O traçado definitivo é resultado de mais de trinta anos de estudos e adaptações às transformações urbanas da Região Metropolitana. Mais do que ligar Cotia à capital, a Linha 22 foi concebida para integrar toda a rede de transporte metropolitano.

O projeto prevê conexões diretas com as linhas 2-Verde, 4-Amarela, 9-Esmeralda e a futura Linha 20-Rosa, além da integração com terminais de ônibus municipais e metropolitanos, bicicletários e estacionamentos.

Um retrato detalhado de Cotia

Antes de apresentar túneis, estações ou cronogramas de obras, o EIA procura responder a uma pergunta básica: que território é esse onde a Linha 22 pretende ser implantada?

Para isso, especialistas em geologia, engenharia, arquitetura, geografia, biologia, arqueologia, hidrologia, geoprocessamento, patrimônio cultural e estudos socioeconômicos produziram um diagnóstico que vai além da engenharia ferroviária. O estudo analisa recursos hídricos, vegetação, fauna, qualidade do ar, uso e ocupação do solo, crescimento populacional, economia, patrimônio histórico, equipamentos públicos, organizações sociais e padrões de deslocamento da população.

Os anexos mostram a dimensão desse trabalho. Um deles dedica 406 páginas exclusivamente aos estudos de pressão sonora. Há ainda levantamentos específicos sobre aves, anfíbios, répteis e mamíferos, inventários florísticos, cadastro de equipamentos sociais, organizações da sociedade civil e pesquisas socioeconômicas realizadas ao longo do traçado.

Um metrô que começa em 1972

Uma das descobertas mais curiosas é que, para compreender os impactos da futura linha, os técnicos reconstruíram a evolução urbana das áreas diretamente afetadas utilizando fotografias aéreas de 1972, 2002, 2010/2011 e 2023.

Esse trabalho mostra, por exemplo, que a região da futura estação Sabiá ainda preservava um extenso fragmento florestal em 1972, posteriormente substituído pela expansão urbana e comercial. Na estação do Km 26, a comparação registra a passagem de um terreno vazio para um polo industrial consolidado. Já em São George, o estudo mostra que o adensamento populacional das últimas décadas ajuda a explicar a necessidade de um sistema de transporte de maior capacidade.

Antes de definir onde construir cada estação, o EIA procurou entender como cada trecho de Cotia se transformou ao longo de mais de meio século. Assim, serão sete portas de acesso à rede metroviária paulista, cada uma inserida em uma realidade urbana distinta.

Muito além de 31 quilômetros de trilhos

A Linha 22 terá 31,32 quilômetros de extensão, ligando Cotia à estação Sumaré, na capital, por meio de 19 estações, sete delas em território cotiano.

A infraestrutura inclui vinte poços de ventilação e emergência, nove poços exclusivos de emergência, três subestações elétricas, áreas operacionais para estacionamento de trens e um pátio de manutenção, distribuídos ao longo de todo o trajeto.

Mobilidade como instrumento de transformação

É aí que o estudo apresenta sua principal contribuição.

O EIA afirma que a Linha 22 foi concebida para permitir a reorganização do sistema de ônibus da região, aumentando a eficiência do transporte coletivo por meio da integração entre terminais municipais e metropolitanos, bicicletários, estacionamentos de longa permanência e outras linhas metroferroviárias.

No RIMA — versão em linguagem acessível do estudo técnico — o balanço entre impactos positivos e negativos é considerado amplamente favorável à implantação do empreendimento.

Segundo simulações do Metrô para o horizonte de 2040, os benefícios sociais estimados da Linha 22 alcançam aproximadamente R$ 3,4 bilhões por ano, decorrentes principalmente da redução dos tempos de viagem, dos custos operacionais do transporte, do consumo de combustíveis, dos acidentes e das emissões de gases de efeito estufa.

Uma leitura que está apenas começando

Durante a leitura do EIA/RIMA, a equipe encontrou uma surpresa: cinco reportagens produzidas pelo Site da Granja foram utilizadas como referências bibliográficas no estudo. Em um documento com 38 volumes e quase 3 mil páginas, elaborado ao longo de anos por uma equipe multidisciplinar, a presença da produção jornalística local demonstra a importância de uma cobertura consistente sobre o território, capaz de se transformar também em fonte documental para compreender a história recente de Cotia.

Nas próximas publicações, o Site da Granja percorrerá cada uma das sete futuras estações de Cotia, seus impactos ambientais, as transformações previstas na mobilidade e as mudanças urbanas associadas ao projeto.

Mais do que noticiar uma obra, a proposta é traduzir um dos mais abrangentes diagnósticos territoriais já produzidos sobre Cotia. É demonstrar  que esse tipo de estudo é cada vez mais importante para a  garantia do equilíbrio entre o avanço econômico e a preservação ambiental.  E também como um dos principais projetos de infraestrutura do Estado pretende influenciar o futuro de Cotia.


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