03/10/2025
No sábado, 29 de setembro, o quadro Verdejando do SPTV levou ao ar uma reportagem de mais de 8 minutos sobre a Reserva Florestal do Morro Grande (RFMG), em Cotia. A matéria destacou a importância ecossistêmica da área e apontou a possibilidade de criação de um parque estadual. Ao mesmo tempo, expôs o abandono do entorno e os riscos de invasões que acontecem diariamente.
O tema ganha ainda mais relevância diante das tensões em torno da Vila Operária do DAE. Em 9 de maio, a comunidade local foi surpreendida pela demolição de 11 casas históricas, executada pela SABESP sem aviso prévio. Em resposta, moradores se mobilizaram com o movimento “Abraço na Sede”, que já realizou quatro edições e conquistou apoio da Prefeitura.
A reunião com a SABESP
Em 3 de julho, o prefeito de Cotia, Welington Formiga, convocou uma reunião entre representantes da SABESP e lideranças comunitárias do Abraço na Sede e do Ecomuseu Morro Grande. A companhia foi representada por Sandra Garcia (gerente executiva de relações institucionais) e Dirlene Gomes (gerente de relações contratuais da região metropolitana).As representantes, no entanto, não tinham respostas às principais perguntas da comunidade. Os questionamentos foram encaminhados à Prefeitura e à assessoria de imprensa da empresa, que permaneceu em silêncio até setembro.
Enquanto isso, em entrevista ao SPTV, Rachel Sampaio, diretora de sustentabilidade da SABESP, afirmou:
“A natureza que a gente vê aqui, em termos de serviços ecossistêmicos, é talvez a mais rica da região metropolitana. Temos o privilégio de preservar uma das maiores florestas urbanas do Brasil e do mundo. E aqui está a unidade de tratamento de água mais antiga da SABESP”.
Ela também declarou que a companhia estuda projetos para eficiência, preservação e uso social da Reserva, garantindo a qualidade da água no longo prazo.
Tombamento e preservação
No dia 9 de agosto, em praça pública no Morro Grande, o prefeito Welington Formiga assinou o tombamento provisório da Vila Operária do DAE, suspendendo qualquer demolição por um ano. Formiga também criou um grupo intersecretarial, com prazo de seis meses, para propor um projeto regenerativo do espaço — já reconhecido pelo Governo Federal como Ponto de Memória. A iniciativa tem imenso potencial turístico, cultural, educativo e socioambiental para Cotia.
Finalmente, uma resposta
Desde as primeiras audiências sobre a privatização da SABESP, o Site da Granja enviou 15 e-mails com questionamentos sobre a Vila e a Reserva, sem retorno. Somente em 10 de setembro, após pressão da comunidade e protocolo formal de perguntas, a assessoria de comunicação da empresa respondeu no dia seguinte do documento entregue na sede da empresa e na gerência da Reserva.
As perguntas enviadas:
Sobre a Vila Operária do DAE
1.Qual necessidade foi atendida com a demolição das 2 casas dos engenheiros?
2.A SABESP pode assinar documento a favor do tombamento da Vila do DAE junto ao CONDEPHAAT?
3.A SABESP pode se comprometer a não demolir mais edificações históricas da Vila?
4.Qual a contrapartida da empresa diante da perda do patrimônio histórico e cultural?
5.Há projeto para as casas da Vila ocupadas por famílias?
6.A SABESP tem interesse em reativar o viveiro de mudas?
Sobre a Reserva Florestal do Morro Grande
7. Qual é o projeto para preservação da área e dos mananciais?
8. A SABESP apoia a transformação da Reserva em Unidade de Conservação?
9. Haverá participação popular nos encaminhamentos?
10. Há plano de proteção contra invasões, incêndios e poluição?
11. Quando será reaberta a ETA e as barragens para visitação organizada?
12. Por que a SABESP não responde à imprensa local?
13. A empresa recebeu do Estado estudos ambientais sobre o impacto do Lote Nova Raposo na Reserva e nascentes?
A resposta oficial da SABESP na íntegra
Em nota, a companhia informou por e-mail que:
A Sabesp informa que faz a preservação e a zeladoria de toda a Reserva Florestal do Morro Grande com rondas para evitar desmatamento, queimadas e invasões e garantir o cuidado com a área verde e com a água. A Companhia ressalta que a área de preservação cumpre papel fundamental no abastecimento de Cotia e da região. Essa área verde protege as águas captadas pelo Sistema Produtor Alto Cotia, que abastece 350 mil pessoas.
A empresa está trabalhando no processo de enquadramento da reserva no Sistema Nacional de Unidades de Conservação, SNUC, sistema estabelecido pelo governo federal para proteger a diversidade biológica e os recursos naturais do país, para transformar toda a área da Floresta Morro Grande em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural. A área do Patrimônio está no processo de atualizar as 356 matrículas que compõem a reserva.
Sobre as casas, a Sabesp informa que os imóveis próximos à Estação de Tratamento de Água Alto Cotia apresentavam problemas estruturais e de segurança, com risco de desabamento. As construções estavam em ruínas e se tornaram um ponto de proliferação de animais peçonhentos, como escorpiões, cobras e aranhas, colocando em risco os alunos de uma escola estadual próxima. A Companhia explica que as casas da Vila Operária, pertencente à Sabesp, serão mantidas.
A Sabesp respeita o tombamento provisório da Vila Operária pela Prefeitura de Cotia, reconhecendo este movimento como legítimo e resultado da união entre sociedade e poder público para a preservação da memória da comunidade. Ressaltamos que a Resolução de Tombamento da Reserva Morro Grande (Nº 2, de 20/06/1981, da Secretaria da Cultura), em seu artigo 2º, excluiu do tombamento as casas e instalações técnicas existentes no local. Assim, tão logo houve a primeira manifestação contrária da sociedade às intervenções, a Sabesp interrompeu as obras e se colocou à disposição da Prefeitura para o diálogo.
A Sabesp reconhece que a principal função do Condephaat é proteger, preservar e valorizar o patrimônio cultural paulista. Dessa forma, qualquer decisão tomada pelo Conselho será integralmente respeitada e seguida. A empresa possui outros bens tombados pelo Condephaat, pelo Conpresp no município de São Paulo e também pelo Iphan, nunca tendo contestado as deliberações desses órgãos de proteção.
A resposta da SABESP marca um avanço no diálogo, mas não elimina as incertezas. A empresa não detalhou prazos, nem respondeu de forma direta a pontos sensíveis, como a participação popular ou as contrapartidas culturais à comunidade.
O Morro Grande é berço do movimento ambientalista no Brasil desde a década de 70, quando lutaram contra o possível aeroporto na região, e a sociedade civil segue mobilizada até hoje na defesa desse vital território. Para o Abraço na Sede e para o Ecomuseu Morro Grande, a luta é dupla: preservar a floresta e proteger a memória da Vila Operária.
Saiba mais:
granjaviana.com.br/gente-e-patrimonio-da-reserva-do-morro-grande-sob-ataque
granjaviana.com.br/tombamento-da-vila-do-dae-deixa-cotia-mais-regenerativa
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