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Morro Grande em nova fase: Fundação Florestal apresenta a gestão do parque em Cotia

11/02/2026


Mauricio Orth


Apresentação da Fundação Florestal no CMAA Cotia marcou o início da nova etapa administrativa da unidade, com discussão sobre uso público, zona de amortecimento, Sabesp, Conselho Consultivo e a Vila do DAE.

A reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Agropecuária (CMAA) de Cotia marcou o primeiro encontro público entre a Fundação Florestal e representantes da sociedade civil após a criação do Parque Estadual do Morro Grande.

Conduzida pelo gerente regional Josenei Gabriel Cará e pelo gerente da unidade, Waldnir Gomes Moreira, a apresentação trouxe esclarecimentos sobre o papel da instituição, o funcionamento das unidades de conservação e os primeiros movimentos da nova fase administrativa da área.

Mais do que uma exposição técnica, o encontro revelou um cenário já esperado: expectativas, dúvidas e o início de um processo que tende a reorganizar a relação entre o território de Morro Grande e o município.

Proteção integral como eixo estruturante

Logo na abertura, a Fundação Florestal reforça a direção que orientará todas as decisões futuras.

“Nenhuma iniciativa poderá comprometer as características ambientais que justificaram a criação do parque”,

afimou Josenei.

A fala sintética do regime jurídico do parque, categoria de proteção integral prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Diferentemente dos parques urbanos, o objetivo prioritário é a conservação dos ecossistemas e, no caso específico do Morro Grande, a proteção dos mananciais que integram o sistema produtor de água.

Com aproximadamente 11 mil hectares, a unidade passa a figurar entre as maiores áreas florestais inseridas em território urbano no país.

Foi nesse momento que Josenei arrancou risadas coletivas ao classificar o Morro Grande como a maior floresta em território urbano:

“Chupa Cantareira”, brincou.

Uso público: entre expectativa e cautela técnica

A possibilidade de ampliação do acesso ao parque surgiu como um dos pontos mais destruídos.

Representantes de grupos de ciclistas e frequentadores históricos manifestaram preocupação quanto à manutenção de eventuais restrições. Em resposta, a Fundação Florestal introduziu um discurso de abertura gradual e controlado.

“O espaço bem utilizado afastado o mau uso”, afirmou Josenei.

O gestor Waldnir Gomes Moreira ressaltou que a visitação será sempre subordinada a critérios técnicos e de segurança.

"Se recebermos um alerta de chuva iminente, por exemplo, vamos fechar imediatamente. Não se trata de restrição, mas de proteção aos usuários."

Zona de Amortecimento entra no horizonte de planejamento

A definição da Zona de Amortecimento (ZA), instrumento obrigatório para os parques estaduais, também foi abordada.

Segundo a Fundação Florestal, o tema será tratado no Plano de Manejo — documento técnico que estabelecerá o zoneamento interno e as diretrizes para o entorno da unidade.

A instituição destacou que atividades já licenciadas no entorno não enfrentam incidentes automáticos, embora novos empreendimentos ou ampliações passem a ser explorados sob critérios mais específicos de compatibilidade ambiental.

Sabesp: ator estrutural na nova configuração do território

Embora a reunião tenha sido planejada como foco principal da Fundação Florestal, a Sabesp esteve presente com três representantes e acabou ocupando papel recorrente nas discussões.

A companhia pode ser considerada proprietária da área onde hoje está o Parque Estadual do Morro Grande e, historicamente, desempenhou papel central na proteção operacional do território vinculado ao sistema produtor de água.

“Logo no começo, foi realizada uma reunião com a Sabesp, que por décadas foi responsável pelo território e pela proteção da qualidade do corpo hídrico”, destacou Waldnir Gomes Moreira.

A nova configuração estabelece uma convivência entre regimes institucionais distintos: a gestão ambiental sob responsabilidade da Fundação Florestal e a operação do sistema produtor de água, classificada como infraestrutura essencial.

"Temos convênio com a Sabesp na Cantareira, há anos, muito bem planejado. Aqui não deve ser diferente", afirmou Josenei.

RPPN e condicionantes ambientais

A Sabesp também surgiu em pontos técnicos que deverão ser resolvidos no âmbito do Plano de Manejo e nas futuras instâncias de diálogo institucional com a Fundação Florestal.

Questionamentos sobre compromissos adotados pela Sabesp no processo de licenciamento ambiental do Sistema Produtor São Lourenço, por exemplo, foram lembrados. Entre eles, a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), localizada originalmente no território do Morro Grande, como condicionante para obtenção da Licença de Operação emitida pela CETESB.

Com a área agora enquadrada como Parque Estadual — categoria de proteção integral — o instrumento da RPPN torna-se juridicamente incompatível dentro dos limites da unidade.

A situação não implica o desaparecimento das obrigações ambientais assumidas no licenciamento, mas aponta para a necessidade de readequação formal da medida compensatória junto ao Órgão Ambiental. Uma das formas sugeridas é o apoio às atividades a serem desenvolvidas no Parque.

Vila do DAE: patrimônio histórico no centro da conversa

A Vila Operária do DAE, conjunto histórico ligado à memória do saneamento paulista e atualmente em processo de tombamento municipal, ganhou destaque durante encontro.

Os representantes do projeto Ecomuseu Morro Grande defendem a integração entre patrimônio ambiental e patrimônio histórico-cultural.

“Não custa nada unirmos patrimônio ambiental, patrimônio cultural e histórico”, afirmou a professora e pesquisadora Cristina Soutelo.

Embora situada fora dos limites formais do parque, a Fundação Florestal destacou a relevância estratégica da área.

"Não significa que ela esteja fora das nossas preocupações. Ela integra o entorno e possui interesse histórico", afirmou Gomes.

"Eu não vejo uma preocupação. Eu vejo uma oportunidade de ter um fórum de discussão", completou Josenei.

Conselho Consultivo e Gestão Compartilhada

Tema central da apresentação, o processo de formação do Conselho Consultivo foi detalhado pela Fundação Florestal.

O colegiado deverá ser paritário, equilibrando representantes do poder público e da sociedade civil. Sua formação ocorrerá por meio de edital público, seguida de habilitação, eleição e posse.

“O próprio grupo da sociedade civil decide a distribuição das cadeiras”, explicou Gomes.

Com mandato de dois anos, o Conselho atuará como instância de embarque, diálogo institucional e registro das decisões relacionadas à gestão do parque.

“Não farei a gestão sozinho”, enfatizou o gestor.

Um território em transição

Mais do que uma apresentação institucional, a reunião do CMAA sinalizou o início de uma nova etapa na história do Morro Grande.

O território, agora formalmente enquadrado como parque estadual, entra em um ciclo que combina conservação ambiental, uso público controlado e construção coletiva.

A transição não elimina tensões — elas tendem a se reorganizar sob novas bases jurídicas e administrativas.

Mas um ponto parece já consolidado.

O Morro Grande deixa de ser apenas uma área protegida. Passa a ser, também, um espaço de governança compartilhada.


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