24/09/2026
Mauricio Orth
A mobilidade de Cotia voltou a entrar em discussão a partir de duas apresentações realizadas em cinco dias, promovidas pelo mesmo grupo de empresários e lideranças da região.
Em 23/09, na Granja Viana, o grupo apresentou partes de um projeto de mobilidade desenvolvido em administrações anteriores, entre o município e o DER. A proposta propõe novas conexões entre diferentes regiões de Cotia, reduzindo a dependência da Raposo Tavares. O encontro também propôs alternativa de transporte coletivo, o Aerotrem.
Cinco dias antes, em 18/09, o mesmo grupo havia apresentado a proposta da futura Avenida Rui Ohtake, uma nova ligação entre as Estradas do Capuava e do Embu. A apresentação também apontou a possibilidade de uma futura extensão até a Raposo Tavares.
As duas apresentações, articuladas por Confúcio Cavalcante, reuniu empresários, lideranças e representantes da comunidade. No encontro sobre a Avenida Rui Ohtake, o objetivo declarado era buscar apoio institucional para sua viabilização.
Na reunião da Granja Viana, Cavalcante defendeu a formação de um grupo de dez pessoas para pressionar representantes do poder público pela retomada das propostas de mobilidade.
Durante a apresentação, Cavalcante voltou repetidamente à falta de vontade política como uma das razões para que os estudos e projetos desenvolvidos ao longo dos últimos anos não tenham avançado. O resultado é uma região que chegou a um cenário subdimensionado de mobilidade, com a Raposo Tavares concentrando grande parte dos deslocamentos, além de gargalos frequentes nas conexões internas de Cotia.
As duas apresentações acontecem em um cenário que já mudou: o Lote Nova Raposo está em andamento e prevê não só intervenções na Rodovia Raposo Tavares, como também uma ligação entre Cotia e Embu das Artes.
E não são os únicos projetos em discussão. No Nova Raposo, parte das soluções propostas no antigo projeto do DER já foram absorvidas. Sobre propostas de transporte de massa, o Aerotrem e a Linha 22–Marrom do Metrô apontam para soluções diferentes de mobilidade regional.
São projetos em estágios diferentes e com funções diferentes. A pergunta é como eles se encaixam — e, principalmente, o que ainda falta.
Nova Raposo x antigo projeto do DER
A discussão de setembro também recuperou uma história mais antiga.
Cotia desenvolveu, em administrações anteriores, um projeto de mobilidade com estudos técnicos e pesquisa de origem e destino. O trabalho envolveu empresas, município e Estado, com investimento de cerca de R$ 6 milhões. Este projeto foi engavetado com o surgimento da concessão do Lote Nova Raposo.
O antigo projeto, entretanto, não tratava apenas de melhorar a Raposo Tavares. Essa é uma diferença importante.
A ideia era criar ligações internas entre diferentes regiões de Cotia, permitindo que deslocamentos entre bairros e áreas do município diminuíssem a dependência da rodovia. A história desse projeto foi acompanhada pelo Site da Granja desde a fase de estudos até a substituição pelo modelo atual de concessão da rodovia.
Um exemplo é a solução prevista na chamada fase 3 do antigo projeto do DER para a região do km 22: uma nova alça sobre a Raposo permitiria separar os fluxos hoje concentrados no viaduto William Ortiz e ampliar a capacidade de transposição naquele ponto, indispensável para a resolução do gargalo da Avenida São Camilo. Veja aqui a matéria
Essa solução específica aparecia no projeto do DER, está no Lote Nova Raposo, mas não aparece no projeto apresentado no encontro de 23 de setembro.
Por isso, é preciso perguntar: o que dele foi incorporado ao Lote Nova Raposo, o que ficou de fora e quais das necessidades identificadas nos estudos antigos continuam sem solução?
Trecho Cotia–Embu do Lote Nova Raposo x Avenida Rui Ohtake
A concessão do Lote Nova Raposo já contempla uma ligação entre Cotia e Embu das Artes. Na reunião de 18/09 o mesmo grupo apresentou a futura Avenida Rui Ohtake, proposta para interligar as Estradas do Capuava e do Embu. Segundo divulgado pela Revista Circuito, uma eventual extensão até a Raposo Tavares aparece como etapa futura.
A questão aqui não é saber se Cotia precisa de uma nova ligação com Embu. É entender qual seria a função da Rui Ohtake diante da conexão Cotia–Embu que já está prevista no Lote Nova Raposo. São vias concorrentes? Complementares? Atendem áreas diferentes? Teriam funções distintas?
Importante e preocupante aqui é que ambas ambicionam mudanças profundas em uma área de alta sensibilidade ambiental.
Aerotrem x Linha 22
A terceira frente é o transporte coletivo. Na apresentação da Granja Viana, o Aerotrem voltou a ser defendido como uma alternativa de transporte de massa para a região. Uma das vantagens apontadas seria a possibilidade de implantação em, no máximo, cinco anos. Veja aqui matéria sobre o aerotrem
Já a Linha 22–Marrom do Metrô, também acompanhada pelo Site da Granja, prevê uma solução de transporte de alta capacidade para a região, com horizonte de entrega em 2040. Veja aqui matéria sobre o metrô
Novamente, não se trata só de uma escolha. São concepções que precisam ser comparadas em termos de traçado, capacidade, integração com outros modos, prazo, custo e atendimento à população.
É aqui que os diferentes projetos começam a se encontrar. O Lote Nova Raposo pode reorganizar o principal eixo rodoviário regional. A ligação Cotia–Embu da mesma concessão pode criar uma alternativa transversal. A futura Avenida Rui Ohtake propõe outra conexão entre os dois municípios. Aerotrem e Metrô discutem uma estrutura de transporte coletivo de maior capacidade.
Mas Cotia continua precisando resolver sua própria circulação interna. Como conectar regiões e bairros que hoje dependem de poucos corredores viários?
Durante a apresentação, foram citadas conexões entre áreas da Granja Viana, Jardim da Glória, Parque São Jorge, São Paulo II e outras regiões. Também foi defendida uma visão regional que envolve municípios vizinhos.
No fim, talvez essa seja a questão que organize todas as outras:
Como Cotia pode construir uma rede própria de circulação interna, reduzindo a necessidade de usar a Raposo Tavares para deslocamentos que nem deveriam passar por ela?
É essa pergunta que faz mais sentido ao se olhar para os projetos antigos, para o Lote Nova Raposo, para a futura Avenida Rui Ohtake e para as diferentes propostas de transporte de massa que estão sendo discutidas para a região.
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