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Cotidiano & Psicologia

05/05/2022

Domingo, dia das mães – há o que se comemorar? Por Iana Ferreira



Dos acontecimentos da vida, sem dúvida alguma o corpo de uma mulher poder gerar, abrigar e dar luz à uma criança é, para mim, o mais extraordinário, luminoso e divino que existe. Sempre que vejo uma mulher grávida, sinto uma atmosfera diferente ao redor dela, como se estivesse vivendo numa dimensão muito mais elevada que a minha. Uma mãe cuidando de filhos pequenos me parece quase sempre uma entidade sobrenatural, com forças não humanas. Tem um milagre de criação e doação aí, seja qual for a relação que essa mulher-mãe tem com suas crias. 

Mas o extraordinário, divino e milagroso para por aí. Podemos combinar isso? 

Essa mulher-mãe que gerou, gestou e pariu suas/seus filhas/filhos pode muito bem ter nutrido ou estar envolta em dúvidas, sentimentos ambíguos, rejeição à ideia da maternidade; muitas vezes sentiu ou sente raiva, cansaço extremo, vontade de desistir, desejo de voltar a ser uma pessoa só e livre pelo mundo. Essa mulher-pessoa-mãe nem sempre amou suas crianças, muito menos incondicionalmente, e às vezes só quis poder voltar a cuidar de si, parir projetos pessoais, tomar uma cerveja no bar com amigos, ir a um show sem hora para voltar, falar besteira, acampar, viajar, transar sem medo de as paredes denunciarem que, sim, ela ainda sente prazer. 

Aliás, você já pensou quantas vezes essa mulher-pessoa-ser vivo- mãe quis apenas acarinhar seu corpo tão marcado e modificado e voltar a gostar dele? Quantas vezes ela quis chorar os sonhos não realizados e tentar recuperar algumas jornadas interrompidas? Isso em meio aos velhos e conhecidos sentimentos ambíguos, pois a vida pessoal segue por muito tempo sendo atravessada pela ideia de que "si mesma" é uma experiência adiada indefinidamente. 

Mas claro que há também aquelas mulheres-mães que pouco se importarão com essa história toda, que sairão cuidando da própria vida ou até ficarão por ali, mas dando o mínimo possível ou nada mesmo. São as desvairadas, loucas, as neuróticas – muitas vezes duramente assim julgadas ao contrário dos homens, nos quais os mesmos comportamentos são vistos de forma oposta (um pai que passa o dia trabalhando sem nenhuma atenção com suas crias é um bom provedor e está totalmente avalizado para agir assim). 

Mas voltando às neuróticas e loucas, alguma surpresa nisso, na existência delas? Combinamos que o milagroso havia acabado lá em cima, certo? Dali em diante voltamos ao campo humano mesmo. Nada de divindade, deusas do amor e da abnegação. Nada de substantivos como paciência e dedicação, aumentados por adjetivos como ilimitado ou incondicional. 

Algumas dessas mulheres-pessoas-mães serão inofensivas ou quase isso. Os danos e avarias serão razoáveis, coisas a se lidar vida afora, mas fora do campo dos grandes traumas, das marcas profundas e de anos em terapia. 

Outras, porém, bailarão em constantes cobranças e lamentos, pensamentos de que não foi justo e de que tudo deveria ter sido diferente, em raivas e o peso de que o que falhou na relação será carregado por anos a fio. Afinal, talvez não haja mesmo lugar em que o imperfeito, o equivocado e o defeituoso deixe marcas mais danosas do que nesse vínculo tão essencial. Dificilmente encontramos consequências mais marcantes do que as que o não amor, o egoísmo, a impaciência, e qualquer comportamento em desequilíbrio de uma mulher-pessoa-ser humano-mãe deixa na pessoa-ser humano do lado de lá, aquela a que se chama filha/ filho. 

Então, por que essa comemoração generalizada do dia das mães? Será que ela está acessível para todas(os) nós? Lembremos que é uma data comercial. Bem saudável será avaliar a opção de embarcar no programa ou não. E se a opção for positiva, não deixe de levar em conta e que será preciso incluir convidados diversos. Falo de todas as ambiguidades, polaridades, sentimentos muitas vezes conflitantes, contrastes, luzes e sombras que a maternidade real (e o filial em contrapartida) carrega. Se houver espaço na casa e fôlego pra reunir tanta "gente", penso que pode ser uma ótima oportunidade de encontrar todo mundo. 

Pois é... um texto dúbio, para falar de uma experiência contraditória, e desejar um domingo incerto, mas aquele que for possível, seja ele de dia das mães, seja ele um domingo como outro qualquer. Em caso de comemoração, que comemoremos as mães reais, humanas, contraditórias, ambíguas, divinas e humanas, as mães possíveis – e as(os) filhas(os) idem. Caso isso seja possível... Se não for, apenas ótimo domingo para todas(os) nós!


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Iana Ferreira

Apaixonada pelos mistérios da psique e do autoconhecimento, com formação em musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes e em psicologia pela Universidade de São Paulo, USP.
"A palavra, escrita ou falada, também é para mim um grande instrumento e paixão – por tudo que revela e que invariavelmente consegue ocultar."

Site: entretexto.com

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