TELEFONE E WHATSAPP 9 8266 8541 | Quem Somos | Anuncie Já | Fale Conosco              
sitedagranja
| Newsletter

ASSINE NOSSA
NEWSLETTER

Receba nosso informativo semanal


Aceito os termos do site.


| Anuncie | Notificações

Cotidiano & Psicologia

01/12/2021

Os caminhos que tomam sentimentos guardados



Lembro-me de minha mãe contando que quando meu pai a deixou em meio a uma gravidez que não havia sido planejada, ela então com 42 anos, numa época em que mulheres pariam apenas até os trinta e olhe lá, primeira e única filha a caminho, o sofrimento foi intenso durante um mês exato e que depois ela guardou a dor para tocar a vida.

Demorei a entender o quanto muitas vezes este é o único caminho possível e o que precisa ser feito de fato. Só com o tempo é que fui não apenas compreendendo, mas também admirando a atitude dessa mulher, que garantiu que pudéssemos seguir. 

No entanto, é claro também que esta é apenas uma estratégia de sobrevivência, adequada para momentos críticos. Em meio a um acidente ninguém trata a tristeza, o medo, o susto, a insegurança gerada pelo imprevisível. Naquele instante, trata-se apenas de garantir que a vida siga.

É quando passa a emergência que, sem dúvida, se faz necessário cuidar do que não pôde ser cuidado de imediato. Não fazer isso nos torna meros sobreviventes, pessoas que conseguem se manter diante de uma situação limite, mas que não podem usufruir de uma vida mais integral.

O problema maior é que nossa atenção vai para o cuidado com os aspectos físicos e materiais. Isso é fácil. Tudo está visível, mensurável e palpável. É preciso suturar um corte, consertar o telhado depois da tempestade, varrer a lama, acertar as finanças ou refazer qualquer coisa levada por algum desastre ou imprevisto.

Cuidar de sentimentos, por outro lado, principalmente numa época e sociedade em que sentimentos são tão desvalorizados e considerados como tendo tão pouca importância, já é algo de dimensão muito diferente. E o fato é que quase invariavelmente pensamos que eles deverão se resolver por si, que irão se dissolver ou desaparecer por mágica.

Mas não vão. É só observar. A vida começa a ficar truncada, impedida em algumas áreas, repetitiva em outras, sem graça e, pior, sem sentido. Uma vida que se torna ansiosa, limitada, sem liberdade, árida, ressequida, angustiada, triste, deprimida, sem energia. Esses são os sinais dados por um sentimento que foi guardado e nunca mais tratado. O corpo da vida fica infeccionado, sem vitalidade, febril.

Nas relações, sentimentos não olhados também produzem seus efeitos. E é parecido: algumas áreas ficam impedidas, obstruídas, truncadas; perde-se a liberdade, a graça, o prazer e o sentido. É aquele momento em que se pensa: o que estou fazendo junto dessa pessoa? Por que deixamos de nos olhar, conversar, transar ou amar? Que chatice isso se tornou...

O fato é que, muitas vezes, realmente só é possível e preciso guardar a bagunça numa gaveta e deixar aquilo ali bem bagunçado mesmo. Isso porque não dá tempo de olhar, porque não sabemos como organizar, decidir ou resolver uma certa desordem ou caos ou porque precisamos providenciar mais espaço, armários ou outras estruturas para acomodar melhor o que se embolou. Às vezes até é preciso ajuda de fora – por que não e que maravilha quando ela aparece. 

Porém, gavetas eternamente bagunçadas geram uma perda de tempo e de fluxo impressionante. Elas nos fazem não mais encontrar aquilo de que precisamos muito, gastamos muito tempo para acessar o que queremos, sentimos raiva, tristeza, irritação por não ter à mão o que desejamos ou o que é necessário em nossas vidas e chegamos mesmo a perder o acesso a muitas coisas que são fundamentais para nós.

Arrumar gavetas é trabalhoso e desagradável às vezes, pode ser... Mexer em sentimentos guardados pode ser até muito mais. O bem-estar só aparece depois, quando reencontramos caminhos, sentidos e possibilidades que foram engavetadas junto. A sensação de ordenação, harmonia e integridade valem o labor. A vida pode seguir de outras maneiras então.


Veja mais

Domingo, dia das mães – há o que se comemorar? Por Iana Ferreira
Guerras, tapas, incertezas... é possível manter saúde mental num mundo assim?
Burnout - o esgotamento no trabalho que vai muito além do estresse
Em tempo, feliz ano! Novo?
Finitudes. Não costumamos lidar bem com as finitudes que acontecem ao longo da vida, não é?
A sociedade da testosterona deveria se curvar à ocitocina
Não fazer nada, você consegue?
O que a pandemia revelou sobre as nossas amizades
Nós caímos de amor (falling in love) ou determinamos se e por quem isso acontecerá
Dia das mães ou dia da Mãe?
Ansiedade
Ansiedade: o que saber
Um presente de Natal
Ansiedade hoje
O Dilema das Redes
Setembro amarelo
E cai a máscara!
Intimidade em quarentena

 


Iana Ferreira

Apaixonada pelos mistérios da psique e do autoconhecimento, com formação em musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes e em psicologia pela Universidade de São Paulo, USP.
"A palavra, escrita ou falada, também é para mim um grande instrumento e paixão – por tudo que revela e que invariavelmente consegue ocultar."

Site: entretexto.com

Pesquisar




X









































© SITE DA GRANJA. TELEFONE E WHATSAPP 9 8266 8541 INFO@GRANJAVIANA.COM.BR