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Cotidiano & Psicologia

28/07/2021

O que a pandemia revelou sobre as nossas amizades



Na verdade, nenhuma revelação muito grandiosa ou diferente do que nos mostrava o antigo cotidiano, aquele que chamávamos de normal, pré-corona vírus... No entanto, as restrições vividas nesses tantos meses de pandemia colocaram em evidência algumas questões dos relacionamentos, incluindo aí em especial as amizades. Primeiramente, que estas são muito relevantes e nos fazem falta. Se antes até adiávamos os encontros e o cultivo dos amigos, sabendo ou imaginando que estariam sempre por ali, agora, de um modo geral, todas(os) sentimos o peso por essas convivências terem sido impedidas ou dificultadas.

Com um olhar mais atento despertado pela necessidade de interação e pelo enfrentamento dos desafios do isolamento, é possível que muitas(os) de nós tenha feito, então, um balanço de suas relações com amigas e amigos, perguntando quantas de fato são verdadeiras, fortes o suficiente para enfrentar demandas mais difíceis, para se manter, para nos atender quando mais é preciso etc. etc.

Assunto vasto, misterioso e complexo, estudado por várias ciências humanas, talvez seja importante destacar sobre ele ao menos quatro aspectos.

O primeiro é que se você descobriu que não possui mais do que três ou quatro boas amizades, o que pode incluir até algumas pessoas do seu círculo familiar, você está muito bem. Nós simplesmente não temos capacidade de manter relações de intimidade com um número muito maior de pessoas. 

Isso porque relacionamentos demandam bastante tempo e energia mental, em atitudes como disponibilidade, atenção, processamento de informações, em geral abstratas, reciprocidade, ações de manutenção e empatia. Então, um pouco menos ou um pouco mais do que a média é uma faixa boa de se viver, enquanto excessos ou escassez devem ser olhados com cuidado.

O segundo ponto é justamente que a ausência de relacionamentos é muito danosa. E os danos são encontrados do nível físico ao psicológico, bem como na influência mútua que esses fatores exercem entre si. Interações sociais positivas não só atuam na vida psíquica – abrindo nosso campo mental, dando oportunidade de expressão e pertencimento, refrescando e ampliando nossas percepções e pensamentos, oferecendo equilíbrio, apoio e força para uma experiência que de outra forma ficaria muito parcial e criando um espaço de experiência da própria individualidade, com suas qualidades e capacidades podendo ser reconhecidas – como atua também no plano biológico – por exemplo, liberando hormônios do prazer, como a dopamina e a serotonina. Abraços – no momento, ainda restritos – liberam doses consideráveis de ocitocina, o hormônio “da felicidade”, da empatia, da regulação da agressividade e do estresse, presente na produção de leite materno e também no orgasmo. Precisamos de mais motivos para entender a importância de se relacionar?

Então, os outros aspectos do tema, que podem inclusive facilitar a experiência dessa relação tão fundamental, são que amizades não estão ou não deveriam estar sujeitas aos mesmos compromissos e estabilidade de outros relacionamentos, como os familiares e os amorosos em geral. As demandas entre amigas(os) podem e é muito mais saudável quando comportam maior fluidez. Isso quer dizer que é da natureza das amizades ter um pouco mais de espaço, elasticidade e folga nos laços. E é muito positivo quando isso é vivido dessa forma. 

Ou seja, se as(os) amigas(os) se fecharam na pandemia, se afastaram um pouco, não suportaram ou não se encantaram pelos encontros virtuais ou foram cansando deles no meio do caminho, talvez esteja tudo bem, o vínculo não se rompeu e pode ser nutrido e retomado a qualquer momento. Isso vale para qualquer outra contingência. Amizades podem ir e voltar sem maiores desgastes. Magoar-se em excesso com esses fluxos naturais de aproximação e afastamento talvez indique carências e necessidades que precisam ser cuidadas em outros lugares. Desfrutar da leveza das amizades é justamente o que nos abastece de seus benefícios especiais.

Por fim, diversificar parece ser um outro ponto relevante sobre o assunto. Algumas pessoas constroem sua socialização, se é que dá para chamar assim, apenas no âmbito familiar, por exemplo. Ambiente possivelmente mais protegido e seguro nesses casos, ele acaba por restringir a riqueza, a diversidade, a descontração e a fluidez das relações de amizade mais puras. Então, vale a pena investir e explorar para além das fronteiras conhecidas e seguras.

O que a pandemia pode ter definitivamente revelado é o quanto o aspecto social da vida é importante e nos faz falta. Sabe como é quando moramos numa cidade de praia e pouco colocamos o pé na areia... e, então, chega o dia que precisamos nos mudar e percebemos como aquilo era especial? Pois é. Sendo assim, não desperdice muito tempo. Cada uma(um) de nós pode tomar a iniciativa e nutrir suas amizades, que, se não são perfeitas, são positivas, construtivas e vitais para a vida humana. 

O isolamento na pandemia não é exatamente social, apenas físico. E aos poucos – viva a vacinação, a ciência e o SUS – quem sabe vá podendo, de fato, ser relaxado. Viva!



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Iana Ferreira

Apaixonada pelos mistérios da psique e do autoconhecimento, com formação em musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes e em psicologia pela Universidade de São Paulo, USP.
"A palavra, escrita ou falada, também é para mim um grande instrumento e paixão – por tudo que revela e que invariavelmente consegue ocultar."

Site: entretexto.com

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