26/06/2026
O Grupo Guaçatom, que já foi tema de diversas matérias — inclusive no Site da Granja — surgiu em 1994 durante as atividades musicais do Centro Juvenil da OSC Associação Filantrópica Criança Feliz, voltadas à comunidade de baixa renda de Caucaia do Alto, em Cotia.
Reconhecido internacionalmente, o grupo é considerado um dos mais destacados projetos sociais da região Sudeste do país, levando a cultura musical brasileira para o Brasil e para o exterior, com apresentações e oficinas em países como França, Itália, Taiwan e Suíça.
Ao longo dessas três décadas, muitas vidas foram transformadas por essa iniciativa. Uma delas é a de Ruthe Sant'Ana, de 23 anos, cuja história revela como a educação, a cultura e as oportunidades podem abrir novos caminhos.
Ruthe inicia seu relato reconhecendo a importância das mulheres que marcaram sua formação.
"Minha mãe e minha avó vieram do Paraná, moraram em Osasco e depois se mudaram para Caucaia do Alto. Foram elas que me criaram."
Ela frequentou inicialmente a creche mantida pelo projeto social. Depois de um período afastada, retornou aos oito anos para participar das atividades de contraturno oferecidas pela instituição, como culinária, esportes, artesanato e música.
Foi justamente na música que encontrou sua maior paixão.
Ela experimentou diferentes modalidades, passando pelas aulas de flauta doce, percussão e canto, até escolher o clarinete como instrumento principal.
Embora não tenha familiares atuando profissionalmente na música, Ruthe conta que foi inspirada pelas irmãs e por uma tia, que também participaram do Centro Juvenil e integraram o Grupo Guaçatom.
"Isso despertou em mim a vontade de fazer parte também."
Além das atividades artísticas, a OSC promovia ações voltadas ao incentivo à leitura, preparação para o vestibular e encontros com ex-alunos que compartilhavam suas trajetórias com os jovens.
Essas referências marcaram profundamente sua formação.
"Essas referências foram muito importantes. Lembro da Isa nos incentivando a pensar em fazer uma faculdade. Lembro também do Clauber, um ex-aluno, que vinha dar aulas de redação na ONG."
Aos 14 anos, Ruthe foi aprovada na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP), localizada na Estação da Luz, na capital paulista.
Durante todo o ensino médio, conciliou os estudos em Caucaia do Alto com as aulas de música em São Paulo. A rotina exigia longos deslocamentos e muitas horas no transporte público, mas ela nunca desistiu.
Foi nesse período que começou a considerar o ingresso em uma universidade pública, mesmo conhecendo pouco sobre políticas de cotas e os caminhos para acessar esse direito.
O esforço valeu a pena.
Em 2022, Ruthe ingressou no curso de Licenciatura em Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
A nova etapa também trouxe desafios.
"Tive que entender os direitos que um jovem de baixa renda tem, estudar as políticas públicas para ir atrás."
Com auxílio-moradia, conseguiu dividir alojamento com outros estudantes e permanecer próxima da universidade durante a graduação.
Hoje, na fase final do curso, atua como professora em uma escola estadual por meio de um projeto de iniciação à docência. Também trabalha como arte-educadora, ministra aulas de musicalização e oficinas e segue sua carreira como clarinetista.
Ruthe integra ainda o grupo musical Alto Tom, em Caucaia do Alto, participa do coletivo do Centro de Referência Indígena de Cotia – Tereza Kariri e dedica parte de sua atuação ao movimento do Carimbó, tradicional manifestação cultural do Pará.
"Gosto mesmo é de me apresentar. Faço parte do movimento do Carimbó e toco clarinete, um instrumento que também está presente em muitas músicas populares brasileiras."
Sua trajetória demonstra como projetos sociais voltados à educação, à cultura e à música podem transformar vidas, criando oportunidades que ultrapassam gerações.
Ruthe, sua história inspira jovens a acreditarem na força da educação, da dedicação e das oportunidades. Parabéns pelo talento, pelo empenho e por construir um caminho tão bonito, iniciado com o apoio da sua mãe, da sua avó e de todas as pessoas que fizeram parte da sua formação no projeto Guaçatom.
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