12/01/2026
(da Série “Contos do Despertar”)
O astronauta contempla a vida na Terra, de longe, na Estação
Espacial. Dá para ver as explosões dos fogos de artifício comemorando a chegada
do Ano Novo.
Subitamente, como em um passe de mágica, da Terra chegam aos seus ouvidos os inúmeros anseios das pessoas para o ano que está começando. O som dessas vozes famintas cruza o espaço vibrando de força e energia.
O astronauta tem um instante de susto, enjoo e tristeza, como se toda aquela fantástica fábrica de carências pudesse explodir a Estação e lançá-lo no espaço, sem nenhuma esperança de sobrevivência.
Que mundo é esse que não conhece o silêncio, a imensidão, a plenitude, a paz, o profundo deleite de ser consciência e coração, como se fosse mais Criador que criatura?
Que gente é essa que não olha para o Céu, que não tem apreciação e gratidão, que não questiona o seu destino, que não percebe o mistério da vida e da morte, que não almeja nada além de seus pequenos desejos?
Ele se lembra da dificuldade inicial de viver longe da Terra e dos entes queridos, apoiado exclusivamente na segurança da tecnologia, de máquinas e aparelhos, de cálculos e ações aparentemente infalíveis. A visão, entretanto, de um mundo sempre novo foi transformando suas tarefas cotidianas em uma constante aventura.
Livre da força de gravidade do planeta e do convívio humano, ele experimenta diariamente uma incrível sensação de liberdade, enquanto contempla o espetáculo das noites estreladas e dos sóis nascentes, as cores e luzes de uma vida sempre pulsante, apaixonante, magnífica! Ele reconhece a presença de Algo de extremo poder e de extrema doçura dentro e fora dele.
Mas o momento de retornar está chegando e ele sabe dos riscos que irá correr. Como evitar o esquecimento e a distração de uma vida medíocre sempre tensa e preocupada, escrava de aparências e apegos, de medos e de inúmeros desejos?
Ele se surpreende partido ao meio, entre a necessidade de voltar e compartilhar suas descobertas com seus semelhantes e a atração de um Universo desconhecido, o convite para uma viagem sem limites.
Seu ser, então, silencioso e imóvel, abandona a luta e, consciente da saga humana na Terra, se entrega à dor pungente de ser nada e ao maravilhoso êxtase de ser Tudo.
Carmem Carvalho e Marian Bleier
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