05/05/2026
(da série Contos do Despertar)
Bituca Luna era um viciado em celular
que, ao longo do tempo, tornou-se a extensão de seus braços e mãos. Mantinha
sempre cinco aparelhos: dois em casa, um no carro e dois no bolso. Vários
acidentes, como atropelamentos, tombos, batidas de automóvel, multas e perdas
de carteira de motorista, pisadas em cocô de cachorro, faziam parte de seu dia
a dia.
Aos 43 anos, foi abandonado pela
mulher e os filhos e sua empresa faliu, mas ele continuava com sua atenção
presa na telinha. Ali ele não precisava lidar com medos e carências e o tempo
passava de maneira mais ou menos suportável, graças à herança de seus pais.
Seu destino parecia selado
inexoravelmente até à mais insignificante e solitária morte, se não tivesse acontecido
um verdadeiro milagre, em uma manhã de sol no inverno.
Ao abrir o celular seu olhar foi
capturado por um movimento espetacular de ampliação e ele foi sugado para
dentro do aparelho como em um portal do Universo! Uma força desconhecida levou-o
para uma viagem sem tempo e sem limites, primeiro para todos os cantos do
planeta Terra com seus países e raças, e depois por sóis, estrelas, planetas,
buracos negros, por universos nunca dantes visitados por visão humana ou pela
mais avançada ciência e tecnologia.
E ele viu e viu e sentiu e sentiu e conheceu
e conheceu um mundo sem fronteiras de uma vida inesgotável pulsando na
imensidão exterior e, ao mesmo tempo, no mais profundo de sua mente e coração. Tudo
e todas as coisas nasciam, cresciam e desapareciam em uma dança eterna de puro
êxtase. E ele experimentou as dores do vale de lágrimas de ser um degredado, um
desterrado de uma fonte inesgotável de pura Luz, Amor e Felicidade, esquecida e
desconhecida da luta pela sobrevivência entre animais e seres humanos.
Depois de um instante de eternidade, foi
lentamente trazido de volta para o seu quarto e a tela do celular. Vieram-lhe palavras
como dádivas, bênçãos, milagres, graças, de sua memória de criança. Um
deslumbramento inundou seu ser por inteiro e ele experimentou pela primeira vez
na vida o verdadeiro sentido do que as religiões chamam de Misericórdia.
Bituca Luna nunca mais foi o mesmo. O
celular voltou ao seu papel de ferramenta de trabalho e comunicação, sendo
usado com parcimônia e inteligência.
Hoje, aos 75 anos, comemorou o
aniversário com uma grande festa, cercado de familiares, amigos e inimigos,
vizinhos, funcionários, fornecedores, clientes, concorrentes.
No discurso muito aplaudido, mas pouco
compreendido, afirmou sorrindo que morrera antes de nascer e que a vida era o
infinito amor, o infinito perdão, a infinita misericórdia, a infinita
compaixão.
E finalizou dizendo:
- Que eu seja digno e grato e possa
retribuir fazendo jus à incomensurável, perfeita, indescritível beleza de ser um
raio de Sol na multidão escura de apegos, necessidades e desejos, dívidas e
demandas, perdas e danos, prazeres e dores, que é a vida humana neste mundo!
Carmem Carvalho
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