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Conexões Humanas e Saúde Mental

Por trás de um "está tudo bem" um olhar sobre o Setembro Amarelo.

23/09/2026




Todos os anos, o mês de setembro ganha a cor amarela para chamar a atenção para um tema delicado e que, apesar de hoje ser mais discutido, ainda permanece cercado de silêncio: a prevenção do suicídio e o cuidado com a saúde mental.

O Setembro Amarelo tem como principal objetivo ampliar a conscientização sobre o sofrimento psíquico, combater preconceitos e, sobretudo, lembrar que pedir ajuda pode ser um passo fundamental quando alguém percebe que já não está conseguindo lidar sozinho com aquilo que está vivendo.

Mas por que a cor amarela?

A história que se tornou um dos símbolos desse movimento começou nos Estados Unidos, em 1994, após a morte por suicídio de Mike Emme, um jovem de 17 anos. Mike era conhecido por seu Ford Mustang amarelo. Após sua morte, familiares e amigos passaram a distribuir cartões com fitas amarelas e mensagens incentivando pessoas que estivessem atravessando momentos difíceis a procurar ajuda. Com o tempo, a cor passou a ser associada internacionalmente à conscientização e à prevenção do suicídio.

No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou força a partir de 2015 e, desde então, setembro tornou-se um período especialmente dedicado à valorização da vida e à discussão sobre saúde mental.

Falamos daquela pessoa que acorda todos os dias, cumpre seus compromissos, trabalha, conversa, sorri e, ainda assim, sente-se profundamente triste. Falamos de quem atravessa uma perda que parece impossível de elaborar, de quem se sente sozinho mesmo cercado de pessoas, de quem perdeu o prazer pelas coisas que antes lhe faziam bem ou simplesmente não consegue mais enxergar perspectivas para o futuro.

O sofrimento emocional nem sempre é visível.

Estamos acostumados a reconhecer aquilo que podemos ver: uma febre, uma fratura, um exame alterado. O sofrimento psíquico, entretanto, muitas vezes acontece silenciosamente.

Existem pessoas extremamente funcionais que estão sofrendo profundamente. Continuam trabalhando, estudando, cuidando dos filhos, administrando suas casas e atendendo às expectativas de todos ao redor. Por fora, aparentemente, está tudo bem. Por dentro, podem existir sentimentos de vazio, angústia, solidão ou desesperança.

É justamente por isso que precisamos olhar para aquilo que pode existir por trás de um “está tudo bem”.

Quantas vezes fazemos essa pergunta quase automaticamente?

— Tudo bem?

— Tudo.

E seguimos em frente.

Mas será que estamos realmente preparados para ouvir quando a resposta é “não”?

Vivemos em uma época em que nunca tivemos tantas formas de comunicação e, paradoxalmente, muitas pessoas se sentem profundamente sozinhas. Estamos conectados durante praticamente todo o dia, mas conexão não significa necessariamente proximidade emocional.

Escutar alguém não significa imediatamente oferecer conselhos. Também não significa comparar sofrimentos ou tentar convencer a pessoa de que existem situações piores.

Frases como “você precisa reagir”, “pense positivo”, “você tem tudo para ser feliz” ou “isso vai passar” geralmente são ditas com boa intenção, mas podem fazer com que alguém que já está sofrendo se sinta ainda mais incompreendido.

Às vezes, antes de qualquer resposta, precisamos simplesmente perguntar:

“Como você está, de verdade?”

E estar disponíveis para ouvir.

Ao longo da minha experiência como psicóloga e psicanalista, observo que muitas pessoas passam grande parte da vida tentando corresponder ao que esperam delas. Tornam-se fortes para a família, disponíveis para os amigos, competentes profissionalmente e cuidadoras de todos.

Até que, em algum momento, surge uma questão importante:

Quem cuida de quem sempre cuidou de todo mundo?

A psicoterapia pode oferecer justamente esse espaço. Um lugar onde não é necessário aparentar força ou oferecer respostas prontas. Um espaço onde a pessoa pode falar sobre seus medos, suas contradições, suas perdas, seus ressentimentos e até sobre sentimentos que dificilmente conseguiria revelar em outros lugares.

Na psicanálise, a palavra ocupa um lugar fundamental. Quando conseguimos colocar em palavras aquilo que nos angustia, começamos também a dar forma ao que antes parecia apenas uma dor sem nome.

Isso não significa que uma conversa resolva todos os problemas. Existem situações que exigem acompanhamento psicológico, avaliação médica ou psiquiátrica e uma rede de apoio. Mas significa que o sofrimento não precisa permanecer condenado ao silêncio.

Também precisamos abandonar a ideia de que procurar terapia é algo reservado apenas para quem chegou ao limite.

Cuidar da saúde mental deveria ser tão natural quanto cuidar da saúde física.

Não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar ajuda. A psicoterapia também pode ser um espaço de autoconhecimento, de compreensão dos nossos padrões de relacionamento, de elaboração das perdas e de construção de escolhas mais conscientes.

O Setembro Amarelo nos convida a prestar atenção não somente às situações extremas, mas também às mudanças que aparecem no cotidiano.

Um isolamento que antes não existia, mudanças importantes de comportamento, perda de interesse por atividades que davam prazer, desesperança persistente ou falas sobre querer desaparecer, não fazer falta ou não encontrar mais sentido na vida merecem atenção e devem ser levadas a sério.

Diante de alguém em sofrimento, não precisamos ter todas as respostas. Podemos começar estando presentes.

Perguntar, escutar e acolher. Incentivar a procura por ajuda profissional. E, diante de uma situação de risco imediato, não deixar a pessoa sozinha e procurar assistência de urgência.

Mas gostaria de propor também outra reflexão neste Setembro Amarelo:

Quantas vezes perguntamos sinceramente às pessoas que amamos como elas estão?

E quantas vezes permitimos que respondam sem interromper, sem julgar e sem tentar imediatamente modificar aquilo que estão sentindo?

Vivemos em uma época marcada pela pressa, pelas comparações e por uma grande exigência de felicidade. Nas redes sociais, vemos viagens, conquistas, famílias sorrindo, carreiras bem-sucedidas e vidas aparentemente perfeitas. Pouco se mostra sobre inseguranças, conflitos, frustrações, perdas ou sobre aquelas noites em que o sono simplesmente não chega.

Comparar a nossa realidade com a aparência da vida do outro pode aumentar sentimentos de inadequação e solidão.

Precisamos recuperar o direito de não estar bem o tempo todo.

A tristeza faz parte da existência. As perdas e as frustrações também. O sinal de atenção aparece quando o sofrimento se torna tão intenso ou persistente que a pessoa deixa de enxergar possibilidades.

É nesse momento que uma presença, uma escuta e a procura por ajuda profissional podem abrir um caminho que, sozinha, talvez ela não esteja conseguindo encontrar.

Depois de muitos anos trabalhando como psicóloga e psicanalista, continuo acreditando profundamente na força da palavra e da escuta. Muitas vezes, quando uma pessoa finalmente consegue dizer aquilo que guardou durante tanto tempo, algo começa a se transformar.

Nem sempre podemos mudar aquilo que aconteceu.

Mas podemos transformar a maneira como aquilo continuará vivendo dentro de nós.

Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes que o Setembro Amarelo pode deixar: olhar com mais atenção para quem está ao nosso lado — e também para nós mesmos.

Que pedir ajuda não seja motivo de vergonha. Que o sofrimento não precise ser escondido para preservar a aparência de uma vida perfeita.

E que saibamos perguntar, mais vezes e com verdadeiro interesse:

“Como você está, de verdade?”

Porque setembro termina.

O cuidado com a saúde mental, não.

Lucia Amaral

Psicóloga e Psicanalista | CRP 29414-5

Consultório Granja Viana

Rua Adib Auada, 35 – Bloco A – Sala 402

Telefone: (11) 4551-3051


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Lucia Amaral

Lucia Amaral, psicóloga e psicanalista. Apresenta formação acadêmica com especialidade no Instituto Sedes Sapientiae, experiência no Hospital das Clínicas de São Paulo e atendimento clínico em consultório há 30 anos. De acordo com o mestre Freud, considera que a psicanálise é, em sua essência, a cura pelo amor.  @psicologa.luciaamaral  E-mail: luciamariaamaral@yahoo.com.br

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