Rachel de Almeida Magalhães


Rachel
Currículo
Obras
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Foto: Rachel de Almeida Magalhães

O trabalho de Rachel: desenhos, observações.
Carlos Fajardo

Esses desenhos não nascem da observação das coisas em suas relações de espaço, cor ou contorno.

Eles se constituem diretamente na matéria, na condição do pano, que não entra como suporte, mas mais exatamente como solo de onde brotam naturalmente terra, oleosidades, pedras, ouro etc. Estes são elementos que se assinalam a si próprios, não como representação (como se fossem títulos de desenho, com por exemplo: pedra sobre o chão), mas como nomes: pedra, pano, transparência, chão etc. Apresentam-se como aparições de si próprios, espécie de palimpsestos que ao invés de serem sobreposições da memória, são sobreposições mesmo, materiais.

A complexidade que eles oferecem não é do reino da narração ou da construção, mas da constituição material: como os materiais se apresentam neles mesmos. Nelsom Goodman, in Languages of Art, diz que Napoleão poderia representar qualquer personagem, inclusive ele mesmo quando criança; só não o poderia no momento em que vivia porque a identidade é anterior e superior à representação: é a diferença entre a assinatura e o nome impresso na mesma pessoa. Esses desenhos são assinaturas.

Sobre os desenhos
Rachel de Almeida Magalhães

Quando eu pensei em fazer estes desenhos, a primeira escolha foi o suporte: o pano transparente (organza). Eu já estava interessada na transparência do suporte antes disto. Tinha feito algumas tentativas com papéis transparentes, sobretudo manteiga e vegetal, superpondo as folhas e as imagens em desenhos grandes. O que resultou foram desenhos ainda muito limitados ao campo, as relações se dando muito "dentro": espaço, cor e forma construindo o desenho sobre o suporte. Eu queria, de alguma forma, uma relação mais íntima com o espaço "fora", o desenho como uma coisa no espaço real. Me ocorreu, então, que o tecido transparente, de trama frouxa, já me daria de início esta condição, tanto pela incidência da luz como pela presença do ar, a luz e o ar como que envolvendo todo o desenho, como verdadeiro suporte.

O que estava me atraindo era reduzir os limites do desenho a um mínimo de construção: o desenho de observação direta de coisas orgânicas tais como pedras, troncos e flores me permitiu eliminar qualquer preocupação construtiva, assim como a escolha dos materiais (terras, suco de flores e folhas, fuligem, cinza, argilas, carvão, além de alguns materiais usuais de desenho como grafite, óleo em bastão, cola, água etc), por estarem tão próximos das próprias coisas observadas, às vezes saindo delas mesmas. Estes materiais, pelas próprias características da organza, se impregnam na trama do tecido fino e são quase que totalmente incorporadas por ele, sem, entretanto, que cada elemento perca a sua identidade: o ollhar, o tecido, a ação sobre ele, o ar e a luz constituem o que eu chamo aqui de desenhos.

 

Contra a luz
Rodrigo Naves

Os desenhos de Rachel de Almeida Magalhães têm algo de sudário. Os materiais com que a artista trabalha se confundem com a trama do tecido, como se fizessem parte de sua constituição, sem se apresentarem como uma camada superposta a ele. E o modo de exposição das obras reforça essa coincidência entre suportes e recursos gráficos, na medida em que proporciona uma transparência em que a luz simultaneamente comprova e ativa aquela interação, expondo os poros da organza e confirmando que nada se sobrepõe a ela.

Os desenhos de Rachel de Almeida Magalhães têm também algo de fantasmagórico, de uma presença altamente paradoxal. São obras meio incorpóreas, embora realizadas com meios decididamente materiais, quase sem tradição no desenho; fuligem, ferrugem, sumo de frutos e folhas, além de uns poucos elementos mais usuais, como bastões a óleo e folhas de ouro. E é justamente nessa aparência dúbia, na manutenção da incerteza sobre seu próprio estatuto, que reside boa parte do interesse desses desenhos.

Sua leveza procura ser o meio adequado de apresentação de uma realidade - donde o emprego de elementos com uma presença tão ostensiva - entendida como fluxo de energia, e não como somatória de coisas, de corpos materiais. É por essa precisa razão que esses trabalhos devem ser mostrados do modo como são mostrados:; delicadas membranas estendidas entre lá e cá, ligeiras condensações daquilo que as atravessa. E se têm a aparência de sudários é porque são de fato transpirações, coagulações de algo que ao transpô-las deixou sua marca.

No entanto, essa energia perderia sua potência se se revelasse apenas como um fluxo uniforme, como um deslocamento sereno de forças de idêntica composição e igual direção. Se os desenhos se mostram mais tranqüilos em certas regiões, é para logo em seguida se retesarem numa trama empedrada, em traços sem continuidade nem norte, em saturações extremamente materiais. E aquilo que em certo momento constitui uma forma mais pacificadora, no instante seguinte se vê acossado por movimentos descontínuos, ondas que dispersam seu poder de estabilização. Esses desenhos se compõem portanto de forças heterogêneas, de atritos que os colocam em movimento, e que projetam uma realidade de feições semelhantes.

E se esse mundo complexo e vital surge sob essa forma esquiva e fantasmática é porque deve fazer parte de sua experiência uma certa refração, uma descontinuidade. Nos quadros de Andy Wwarhol, o descasamento entre cores e formas (a "Blue Marilyn" que a qualquer momento podia de tornar uma "Green Marilyn") igualmente conferia a pessoas e coisas um ar meio descarnado, espectral. Mas em sua obra o que sobressaía era a natureza problemática de uma realidade convertida em imagens soberanas e reticentes sobre tudo. Nos desenhos desta exposição a impossibilidade de dar corpo a uma trama de energia decorre da recusa de uma identidade que a submeta a fins que a descaracterize. São fantasmas que temem tudo aquilo que lhes possa obscurecer. E por isso só aparecem à luz do dia.